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Coluna

Educação e valorização

14 maio 2022 - 19h03

Quando o assunto é educação, o exemplo da Finlândia é sempre lembrado. Não é para menos. O país nórdico encontra-se sempre nas primeiras posições do Pisa, avaliação internacional que mede o nível educacional de jovens de 15 anos nos países-membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Quando entrevistados, professores, alunos e gestores são unânimes quanto a uma palavra: valorização. Infelizmente, no Brasil, a palavra valorização é desconhecida em seu sentido original. Confundimos valorizar com gostar, respeitar, falar bem. Para os finlandeses, esse não é um sentido atribuído, mas uma consequência do que, de fato, é valorização.

Valorizar é agregar valores. Parece óbvio, mas é completamente diferente do que praticamos aqui. Podemos elencar o receituário deles, falando sobre o fato de praticamente toda a educação nacional ser pública e possuir padrões salariais altos para docentes, estimulando a carreira. Podemos prosseguir mostrando que suas escolas são bem equipadas, com horários compatíveis com a rotina cultural e biológica dos jovens e com currículos atualizados e ensinados de modo inovador. Podemos ainda insistir mostrando que seus gestores são pessoas que entendem, de fato, de educação. E concluir com uma cultura nacional que valoriza a educação e a escolaridade sob a forma de oferta de empregos bem pagos para quem se dedica à vida escolar e acadêmica. No Brasil, achamos que copiar modelos é a chave do sucesso. O problema é exatamente esse, o de reduzir uma experiência social complexa, como a da Finlândia, para que se transforme em um “manual pedagógico” a ser costurado como o monstro de Frankenstein em nossas partes decompostas. Lá a educação não se tornou peça retórica para politicagem vazia, não se concebe por doutrinação social em favor de ideologias particulares e nem como uma mera pré-condição obrigatória perante a legislação. Lá há uma compreensão ampla, holística da educação como princípio de toda a organização social, cultural e econômica. A política, nesse sentido, cuida para que esses três pilares permaneçam sólidos.

Enquanto por aqui convivermos com a politicagem com a educação, transformando-a em mecanismo compensatório do empreguismo simplório, da outorga à gestão das pastas educacionais a notórios despreparados e do tratamento estrutural baseado na precariedade, no jeitinho, no adaptado, não seremos Finlândia. Enquanto nos preocuparmos mais em gerar pilhas e mais pilhas de documentos, diretrizes, resoluções, parâmetros, portarias, marcos e todo um aparato monumental de instâncias e vigias, tudo para conferir se a precariedade vai em boa ordem, não seremos Finlândia. Enquanto nossos políticos e gestores de pasta tratarem a questão salarial do docente como uma piada de mau gosto, enquanto lançarem mão da prepotência, arrogância, ou mesmo da falsidade, fingindo compreender e estar ao lado de quem, na verdade, combatem com todas as forças para que seus privilégios pessoais permaneçam intocados, não seremos Finlândia. Enquanto o mercado, a economia não valorizarem monetariamente o estudo, estancando a exploração em nome do lucro, pagando cada vez menos aos mais escolarizados, desencorajando carreiras, não seremos Finlândia.

Seremos nós. O Brasil orgulhoso da sua educação pouca para muitos e seletiva para poucos.

(*) Paulo Cotias é professor de História.