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Coluna

Copiando os Finlandeses

20 janeiro 2023 - 11h48

Recentemente foi noticiada a iniciativa finlandesa de desenvolver nos currículos escolares um conteúdo considerado da maior relevância contemporânea, o “combate à desinformação”. O sucesso do modelo finlandês é bem conhecido. No Brasil ele sempre é evocado quando se tenta copiar algo muito mais relacionado à sua forma do que a essência. Isso significa que buscamos introduzir modelos comportamentais, metodológicos, teóricos, como se isso bastasse. É claro que rende treinamentos sensacionalistas, mesas-redondas espalhafatosas e redes soberbas da vanguarda da sua “aplicação”. Entretanto a realidade é bem outra: a Finlândia considera educação como prioridade e, antes de qualquer desenvolvimento teórico e metodológico, apostou com seriedade e efetividade na mais óbvia das combinações: professores muito bem pagos e escolas bem estruturadas.

Já no Brasil, assistimos ainda bestificados a uma associação de municípios recomendar com o maior descaramento que o piso (recém reajustado) não seja pago pelas prefeituras. Aqui temos uma primeira e enorme diferença em relação aos finlandeses. Mesmo com um piso mínimo, muitos municípios e estados ainda não o ofertam e, para outros, a política salarial não se aplica, uma vez que os professores ganham um pouco acima dele. Ou seja, para uns não chega, e para outros nada muda, perpetuando o ciclo de precariedade. Já com relação às escolas não é necessário gastar linhas. Nas públicas temos ilhas de excelência, alguns bons exemplos e a quase totalidade delas mal equipadas, depredadas, com limitações que beiram a paralisia, com merenda ruim, pouco material e uma enorme pressão social para que dê conta das múltiplas carências e necessidades sociais, afetivas, comportamentais, fisiológicas e, obviamente, cognitivas. O desafio é desproporcional.

Sendo assim, para copiar essa boa e necessária inciativa finlandesa, não podemos esquecer de pelo menos essas duas dimensões fundamentais, remuneração e estruturação. Como sabemos que a carroça virá na frente dos bois e com o cenário cada vez mais ampliado da deterioração dos marcos civilizacionais no Brasil, urge fazer alguma coisa e é na escola que teremos nossa primeira frente de combate a mais longa e problemática trincheira.

Isso em função de algumas condições que antecedem o trabalho de desmanche da desinformação. Em primeiro lugar, é preciso recuperar a capacidade de leitura proficiente, escrita e expressão. Em segundo, reafirmar o papel da ciência, frente ao recuo dos currículos ao misticismo e negacionismo que ocupavam, por exemplo, as discussões e combates da medievalidade (que por óbvio já deveríamos considerar superados). Em terceiro, reafirmar os valores iluministas, a ciência e as relações sociais que vieram com o desenvolvimento das práticas econômicas e políticas liberas, a democracia sob a nova forma do estado democrático de direito (e, de modo crítico, seus problemas e contradições). Por último, o desenvolvimento das competências analíticas, o que exige preparo e erudição.

Operar aqui como os finlandeses não será apenas uma questão de dizer o que é verdade e o que é mentira nas redes. Aliás, para a juventude, todas as redes sociais serão uma fonte de verdade e validação muito melhores do que a escola. Reconquistar esse espaço de validação e da escola como sujeito de suposto saber e autoridade sobre o conhecimento (e não exclusividade, obviamente) vai exigir investimento e criatividade. Dizer o que é certo e o que é errado é uma perigosa via de mão dupla, pois serve a dois senhores a depender do lado de quem fala. Ensinar a pensar é dar ao indivíduo a liberdade que consolida a noção de cidadania. Quem sabe pensar o faz no íntimo e na coletividade. Portanto, que façamos como os finlandeses, mas com a mesma integridade.