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02 setembro 2021 - 18h06

A antiga metáfora de Comênius (1592-1670) de que o professor é um organista que executa uma partitura que não teria (ou saberia) que compor, ajudaria a explicar como chegamos até aqui. A criação do livro didático foi o primeiro passo. Sabemos que o livro cumpre um papel muito importante. Entretanto, com o passar do tempo, a autonomia docente de construção de seus materiais de ensino foi se perdendo em troca da comodidade do aspecto enciclopédico de ter “tudo o que precisamos em um só lugar”. O resultado não poderia ser diferente. O livro didático e seus deveres são senhores soberanos. Influenciam e são influenciados por propostas curriculares (ou bases) mínimas e máximas e cada vez mais foram se tornando invasivos na prática docente, reduzindo o professor ao (igualmente confortável) papel de tutelado. Basta ver que muitos já trazem planejamentos prontos, aulas prontas e livros de respostas para as perguntas, como se fossem “operados” por alguém não especializado na área de conhecimento.

Com o tempo o livro didático foi perdendo a majestade. Pelo menos na forte e poderosa rede privada nacional, em todos os níveis de ensino. Na verdade, foi uma mudança de “fora para dentro”. Muitas escolas usavam os livros didáticos e as listas de materiais eram salgadas. Desse modo, sistemas de ensino se tornaram modelos de negócios e passaram a oferecer soluções educacionais que incluíam apostilas impressas mais resumidas e simplificadas, complementação de conteúdos/atividades online e migração para ambientes digitais de processos administrativos. A educação continuada de docentes deu lugar a treinamentos específicos, mais para que se entenda como cumprir as diretivas e metas do sistema do que, de fato, imersão e aperfeiçoamento. Hoje os sistemas dão passos mais ousados. Da oferta de soluções passaram a constituir escolas, comprá-las, formando conglomerados educacionais padronizados e homogêneos. A carteira de escolas começou a ser organizada e ofertada de modo muito próximo ao modo como bancos categorizam seus clientes. Há escolas “Premium”, “Smart”, “Bugdget” e coisas do gênero, ofertadas de acordo com a capacidade de pagamento e da meta que é desejada . Aqui Comenius reina. O professor é um organista. Não compõe, executa. E tem que ser um executor entusiasmado (ou parecer feliz nas redes sociais). Esse profissional, por sua vez, não precisa avançar para além de uma certificação nominal, pois  o importante é aceitar desempenhar multitarefas (boa parte delas não relacionadas ao ensino), doar tempo e estar de prontidão “online” (os grupos de “zap”, de e-mails), recebendo o mínimo possível (pelo qual deve achar “justo”). O investimento , quando há, é no sistema e é dele o mérito do “sucesso”, não de docentes, meras peças de execução que podem ser repostas por qualquer outra (ninguém é insubstituível, lembram?). A burocracia e seus ritos padronizam o caminho do sucesso. Quem não atingir é porque não seguiu a receita. E isso vale para docentes e alunos. Para os investidores, o lucro é a resposta de que o sistema e os gestores estão no caminho certo. Professores são como insumos, e só.

 Na rede pública o livro sobrevive sem sobressaltos. Hoje, pela pandemia, o uso à fórceps das tecnologias tem deixado muito de lado o aspecto pedagógico e centrado fogo no burocrático. Atividades milimetricamente padronizadas, postagens minuciosamente cronometradas, conferência meticulosa de cumprimento de tarefas. A aprendizagem passa a ser um quesito secundário. O importante é “oferecer alguma coisa”, mostrar evidências burocráticas e ocupar intensivamente a mão-de-obra (o velho e bom professor-tarefeiro). A questão é como o legado da informatização será posto daqui por diante. Voltará à velha letargia e atraso ou será um filão que os conglomerados privados vão “ajudar” e dar “suporte” para que um dia a rede pública possa se tornar um “produto” a ser vendido por preços e metas módicas para as camadas populares?