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Coluna

Cidadania reprovada

17 janeiro 2023 - 20h10

A partir do que observamos com relação aos atos terroristas realizados em Brasília podemos traçar uma linha demarcatória entre a educação e a escolarização. Superficialmente, ambos os termos podem ser confundidos. Ao olhar mais apurado, no entanto, as diferenças são profundas. Após a baderna criminosa e golpista, algumas vozes indicaram a preocupação sobre como reverter o disseminado credo neofascista, reforçado pelo comportamento de rebanho e a metodologia hipnótica das seitas. O remédio? Educação.

Até aí tudo bem. Entretanto, se fosse possível verificar a ficha de cada um dos conspiradores, certamente constataríamos que a quase totalidade cumpriu pelo menos os ciclos fundamentais da educação obrigatória. Sendo assim, o problema não foi falta de escolarização. Indo um pouco mais a fundo, antes de colocar a educação e a escola no lugar comum de panaceia, é preciso levar em conta que mais do modelo educacional brasileiro, do modo como está estruturado, não será capaz de melhorar a sociedade.

Do jeito em que se encontra, o viés da escolarização prevalece e ele está ancorado em dois objetivos principais: desempenho e certificação. Isso significa que atingir somatório de pontos ou vencer uma etapa avaliativa são objetivos que se encerram em si mesmos, ou seja, são meramente funcionais. O mesmo para as certificações. Há um fetiche pelo papel que diz que fizemos determinado curso, que completamos determinada experiência, mesmo que não tenhamos sequer acompanhado direito o processo ou dedicado mais do que a rasa busca pela aparente frequência e pela precisão copista das respostas certas para as perguntas postas.

Talvez isso ajude a explicar o que leva pessoas escolarizadas a vandalizar um Di Cavalcanti ou obras de valor inestimável que são patrimônios da sociedade brasileira e, em alguns casos, da humanidade. Foram pessoas escolarizadas que aderiram voluntariamente aos discursos de pós-verdades, à desinformação, às mentiras e manipulações, ao negacionismo, à pseudociência. Foram exatamente elas as que alimentaram e engrossaram o caldo das teorias conspiratórias, que inflaram preconceitos e autorizaram a tentativa de naturalizar a violência como medida das relações sociais, tendo como símbolo máximo a posse da arma de fogo.

Os escolarizados foram também responsáveis pela disseminação das distorções com relação aos mais básicos elementos constitutivos do Estado Democrático de Direito, buscando narrativas que aparentassem a forma da coerência verossímil, mas que trazem consigo o veneno planejado meticulosamente nos “gabinetes do ódio”. São os que se envolveram em credos oportunistas e mistificadores que fantasiam uma cruzada santa, criando ameaças onde deveria haver o respeito à alteridade e a valorização do humano como medida.

Assim, se ainda acreditarmos que um dos caminhos para solucionar esse quadro crítico é a educação, devemos romper com as limitações da escolarização. Escolarizados são os treinados para minimamente se tornarem mão de obra funcional (em todos os níveis sociais e de formação). São passadores de ano, cumpridores de provas. Não sabem pensar. Saber pensar é prerrogativa da educação. Ela é maiúscula, holística, preocupada com o processo, com a aprendizagem significativa, permeada pelo humanismo e pela ética. É balizada pelos direitos fundamentais do ser humano e o prepara para ser, para conhecer, para conviver e para pensar. Somos, até que se traga uma novidade, a única espécie capaz da contemplação. Isso é a marca da transcendência. Portanto, a educação é um exercício científico, mas também filosófico. Prático, mas também relacional. O que se aprende, por ela, nos humaniza e melhora.