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Coluna

A nova escola

21 março 2022 - 13h54

Em colunas anteriores defendemos a centralidade da questão da estrutura das escolas públicas como fator imprescindível para o desenvolvimento de uma educação de qualidade e compatível com as demandas do nosso século. Isso significa repensar a concepção do espaço escolar, colocando o aspecto pedagógico como elemento diretivo das concepções arquitetônicas dos prédios escolares. Desde muito tempo sabemos que não é isso que acontece. Cristalizou-se um modelo
arquitetônico de escola que se traduz ainda sob os parâmetros industrialistas/ militaristas dos séculos XVIII e XIX. Aliado à concepção massificadora da oferta do ensino, os prédios são a materialização da escola como depósito, onde o que importa é colocar o maior número possível de estudantes em uma sala, para que tenham todos o acesso a um mesmo tipo de aula. De diferente, em muitos casos, só são retirados os antigos tablados que separavam o docente dos alunos.

Desse modo, a compartimentação das escolas ainda setoriza e restringe a oferta de elementos que, atualmente, já deveriam estar integrados ou modificados. Em primeiro lugar, os prédios devem ser pensados sob o prisma da acessibilidade e das condições básicas de iluminação, conforto acústico, circulação de ar e climatização. Esse é o ponto de partida mínimo. A experiência da pandemia nos legou a necessidade de compor espaços adaptáveis às necessidades de proteção individual para os momentos em que não for possível ou seguro o coletivo. Isso impediria a paralisação da escola por falta de condições de salubridade em situações extremas. Tradicionalmente o que temos são as salas de aula com a disponibilidade apenas das carteiras e de um quadro. Além delas, as escolas constituem espaços separados para
a oferta compartimentada de alguns recursos. São as conhecidas salas de vídeo, laboratório de informática
ou, em muitos casos, tudo isso em um único espaço. Os laboratórios, quando existem, se restringem às ciências da natureza. Se isso um dia foi um avanço, hoje é um limitador. Vejamos. Uma sala de multimeios ou apenas um laboratório de informática para uma escola inteira, tendo que ser dividido por dezenas de turmas e por várias disciplinas, acaba
se tornando um recurso nominal. Muitos professores não os utilizam pela necessidade de revezamento, pela  impossibilidade de usar durante o tempo necessário para a conclusão de uma metodologia aplicada
ou mesmo pela desatualização dos recursos (algo bastante comum).

Portanto, falarmos de metodologias ativas e de incentivo ao uso das novas tecnologias no campo das relações de ensino/aprendizagem só é possível com um novo formato da escola. Para isso, precisamos de uma sala de aula que tenha nela própria a possibilidade de se tornar um locus completo de aprendizagem. Por isso elas devem ser mais amplas, reversíveis para aulas na forma expositiva e para o trabalho em equipes, com espaços onde possamos dispor de computadores, rede de internet, projetores, telas, recursos de áudio e vídeo, por exemplo. Seria, obviamente, um outro patamar de investimento na educação pública. Entretanto, o retorno é revolucionário. É claro que a defesa de um modelo dessa natureza despertaria as teses contrárias do lobby empresarial, uma vez que esse é justamente o design das chamadas “escolas premium”, dedicadas exclusivamente às camadas sociais de maior poder aquisitivo. Entretanto, o Estado poderia ser o maior investidor e promotor da igualdade de condições ao ofertar uma escola desse nível ao seu povo. Não é impossível. Os laboratórios, por exemplo, poderiam ser constituídos a partir da concepção proposta pela nossa Base Nacional Comum Curricular, onde as áreas poderiam contar com esses espaços integrados de modo multi e interdisciplinar, dispondo de recursos mais específicos para atividades práticas de acordo om as necessidades. Tudo isso não são delírios ou sonhos. É o que deveria ser pensado, feito e levado à sério. Questão de querer.

*Paulo Cotias é professor de História.