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Coluna

Nunca mais seremos iguais

19 agosto 2020 - 10h20

 São 5:35 da manhã. Acordo assim, há alguns meses com um Bem-te-vi cantando na minha varanda. Logo que me levanto e abro a janela do quarto ele se vai. Os dias não são os mesmos, mas ele está sempre aqui.

O tempo está nublado, estranho, pesado. Não me parece chuva, mas algo no ar. Os dias impossíveis não param de acontecer. Como bem diz Saramago:“ Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.” 

Coloco as roupas sujas na máquina e molho as plantas que sentiram minha ausência. Tiro a poeira acumulada dos dias fechados e varro toda a casa no ritmo da música que me toca. Ouço os gritos e risadas da menina que mora ao lado. Estendo as roupas no varal. Faço um café e abro o noticiário para me atualizar dos dias em que fiquei fora. Choro. Penso  na menina que mora ao lado.

Quando tinha 11 anos senti, pela primeira vez, as mãos fortes de um homem no meu pescoço. Era amigo da família e me chamava de “boneca”. Lembro de um passeio de Jippe em que me levou... Sua mão enorme tocava meus cabelos e meu pescoço, enquanto se divertia com a minha timidez. Seu riso na boca não era de alguém feliz. Não sabia o que aquilo significava, mas  não era bom. Até que passei a me esconder sempre que aparecia para nos visitar. Nunca falei nada para minha mãe ou irmãos porque não entendia o que acontecia ali. Era uma criança de 11 anos.

Alguns anos mais tarde, fui assediada durante à noite enquanto dormia na sala da casa. Mãos abusivas alisavam e subiam pelo meio de minhas pernas. Acordei assustada e perplexa. Dessa vez conhecia bem. Dessa vez sabia o que era. Contei para minha mãe que, com muita coragem, arrumou nossa mudança para longe daquele lugar, ameaçando o “conhecido cidadão de bem”, que o denunciaria, caso voltasse a me assediar. Lembro de sua indignação e do seu choro tenso. Lembro do seu amor em acreditar na minha verdade. Lembro da decisão em preferir esconder para me poupar. Dizia que iriam me culpar por ser jovem e bonita.

Me coloco agora no lugar da mãe dessa menina. Sinto um tanto da dor que minha mãe sentiu quando despejou-se num choro.  A dor do outro também é minha se me importo. A vítima é uma criança. Crianças gostam de brincar. Crianças não são brinquedos. Crianças não são culpadas. Uma sociedade doente e hipócrita se torna cúmplice da violência quando defende e   esbraveja, em nome da  “vida”,  o anti-aborto, não se importando pela criança  “morta” aos poucos por um “tio” criminoso. Como juntar os pedaços dessa menina? Como colar os cacos dessa sociedade despedaçada? Qual sofrimento lhes interessa quando defendem manter a gravidez de uma criança de 10 anos, culpando-lhe pelo aborto; ao invés de quererem arduamente a prisão do violentador? Que humanos são essa humanidade sem amor e empatia? E que deus é esse que dizem representar?

O sol acabou saindo. Devagar, tímido. O céu não se abre todo porque talvez esteja indignado. Por aqui também estamos. As roupas estão secas e limpas. Como minha consciência. A violência oculta dentro das casas deste país, quando saem para fora, viram espetáculos venenosos. Eu que preferia falar de amor, engulo seco as palavras ditas contra a criança violentada. Hoje não tenho como falar de amor com tanta ausência da bondade. 

 Nem que viva mil anos essa menina estará curada. Nunca esquecerá o que viveu. A gente não esquece a violenta face do abuso.  Os que gritam “assassina” para a vítima são também abusadores. E mais uma vez citando Saramago: “ A cegueira também é isso, viver num mundo onde tenha acabado a esperança...” Estão roubando a esperança de uma infância feliz.

Todos os dias o bem-te-vi chega cantando na minha janela, ainda que lá fora tudo esteja triste e assustador. Todos os dias milhares de meninas e adolescentes continuarão sendo violentadas dentro de suas casas sem que ninguém saiba aqui fora...