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Coluna

Ampulheta

17 janeiro 2021 - 17h56


Todo ano que se encerra me causa angustiante melancolia. Como aquela ampulheta nervosa, nos jogos de dado. Os dias  passando rápido como a areia dentro do pequeno vidro. A vida é areia escorregando sem volta para o outro lado.

Costumo pensar nos sonhos que tive e não aconteceram de fato. Nos projetos interrompidos ou desanimados. Nas ausências que não preenchi por total falta de cuidado. Nos longos silêncios quando a palavra necessitava ser dita e já era tão tarde.

cho erro grave chegarmos tão longe e não aprendermos que a vida é feita de instantes. “Não os desperdice!” grita minha intuição. Como colcha de retalhos, estes instantes viram a nossa história. E se quisermos uma linda “colcha” colorida devemos “costura-la” com a diligência da alma. Os que sonham muito, como eu, cuidado! Sonhos são donos da expectativa que muitas vezes nos frustram; mas realidade demais nos enrijece  tornando-nos pouco felizes. 

 Minha amiga enche seus dias fazendo biscoitos. Biscoitos cujo principal ingrediente é felicidade. Seu riso é doce como os açúcares usados por ela, seus olhos atentos para o cuidado, afinal tudo ali é delicado. Observo embevecida seu movimento: da massa aos moldes; do forno a mesa; nas mãos as cores para o colorido desenho; da mesa ao forno; depois para as embalagens transparentes para já se comer com os olhos. Viro criança e experimento a iguaria que me oferece. Naquele instante tudo é maravilhoso!

Tentei plantar manjericão muitas vezes. Era sonho um pé na minha horta. Pobre de mim que não vivo sem esse aroma. Quanta expectativa frustrada! Mas hei que por pura insistência do meu inconsciente inconformado, planto mais uma vez. Hoje cedo, depois da chuvinha fina que caiu por aqui, fui olhar meu mato que fica sempre muito verde quando molha. Para minha surpresa, meu sonho estava materializado em muitos galhos novos cobertos de flor.  Recebo notícias de um amigo que há muito não sabia. Ficamos assim, gastando  conversa que trouxe malas e malas de boas lembranças. Rimos, choramos e nos perdoamos por termos ficado tanto tempo ausentes. Amigos não devem se perder. Coisa boa poder saber que existimos pra pessoas que perdemos de vista. 

“Mas uma coisa fique certa, amor, a porta vai estar sempre aberta amor, na hora que você chegar...” Que o ano novo destranque as portas enferrujadas da ambição, do preconceito, do orgulho, da mediocridade, da infâmia, da deslealdade, do desamor. Que a gente se cuide para que o novo possa chegar sem medo. Nada é mais importante do que o instante, porque os planos... Ah, os planos! Estes fugiram para bem longe.