​A dura (e fria) realidade nas ruas de Cabo Frio

Inverno mais rigoroso aumenta abordagens sociais, mas dificuldades de adesão e estrutura atrapalham

Publicado em 16/08/2019 às 19:05

O inverno cabofriense está particularmente mais rigoroso este ano, em uma cidade que normalmente já é cortada pelos ventos do imenso corredor formado entre o canal e o mar. A baixa temperatura das últimas semanas faz a situação ficar ainda mais penosa para o grupo de homens deitados bem próximos uns dos outros em uma calçada em frente à Praça de São Cristóvão. 
Nas noites gélidas, o calor que falta nos cobertores finos vem do corpo do colega ao lado, mas também da bebida, conforme denunciam as inúmeras garrafas de aguardente, as famosas ‘bojudinhas’, espalhadas pelo chão, ao lado de quentinhas com sobras da comida entregue por uma igreja ou organização social.
O senso comum traz a impressão de que nunca se viu tanta gente sem um teto para dormir, em Cabo Frio. Para tentar dimensionar o tamanho da tragédia social, a prefeitura fechou um levantamento, cujos dados são apenas aproximados, por conta da dificuldade de quantificar uma população flutuante.
De acordo com o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) da Secretaria de Desenvolvimento Social, a estimativa é que, atualmente, 330 pessoas vivam em situação de rua no município. Ela se concentra, principalmente, nas proximidades da Rodoviária Alexis Novellino, além de São Cristóvão; Braga; Vila Nova; Algodoal (nas cercanias do Teatro Municipal); Centro e Portinho.
Até o mês de julho, as equipes do Creas realizaram 215 abordagens sociais em pessoas que dormem sob marquises e vagam pelas ruas da cidade.
Fora das planilhas, os números ganham vida e histórias. Embora não haja um estudo conclusivo a respeito do assunto no município, as origens e motivos para que uma pessoa parar nas ruas são diversas. 
A Folha acompanhou uma sessão de abordagens feitas por uma equipe multidisciplinar do Creas feitas com o mesmo grupo citado no início da reportagem. Entre eles, estava o José Ramos, de 59 anos. Contrariando o que poderia se supor, o paulistano guardava todos os documentos organizados em uma carteira, inclusive cartões de permanência em albergues sociais em São Paulo e uma carteira de vacinação quase completa. 
Lúcido, mas com momentos de confusão no raciocínio, o homem diz que está ‘há quatro ou cinco meses’ em Cabo Frio, depois de ser enganado por um ex-patrão. 
Ele afirmou que foi fuzileiro naval e mostrou uma grande cicatriz que seria de um ferimento em serviço. Perguntado sobre as dificuldades das ruas, disse que não havia almoçado até aquela hora, por volta das 16h30, mas pedia ajuda para voltar para a terra natal. Levado para a Casa de Passagem, não quis ficar por causa da proibição de entrada de bebidas alcoólicas. 
– Eu quero voltar pra minha casa – disse, chorando.
Já Leandro Chagas, tem 42 anos e veio de Macaé. Abandonado pela mulher, disse que saiu de casa e envolveu-se com drogas. Mas nem sempre foi assim.
– Já tive duas kombis alugadas em Caxias, na época do (ex-prefeito) Zito. Nessa trajetória, o dinheiro entrava toda hora. Duas pessoas trabalhavam pra mim fazendo lotada. Acabei que me perdi com drogas e sexo – conta.
As histórias mostram que o consumo de álcool e substâncias ilícitas é uma realidade muito presente na dureza do asfalto. Também segundo dados do Creas, das 215 pessoas abordadas até julho deste ano, 65 eram usuários de álcool e 29 consumiam drogas ilícitas. 
Durante todo o ano de 2018, foram feitas 461 abordagens, sendo 215 com consumidores de álcool e 134 com usuários de drogas ilícitas. Segundo a psicóloga Isabela Brettas, que atua no Creas, o uso dessas substâncias dificultam o trabalho e a adesão dos moradores de rua aos programas sociais.
– É um trabalho incansável. A gente tem que tentar muitas vezes. A nossa maior dificuldade é em relação aos encaminhamentos que a gente dá e eles não foram. A gente oferece o acolhimento, e muitas vezes eles não querem. A gente tenta conversar para que eles vejam o lado bom disso, para que eles consigam aderir às nossas orientações – disse.
Por causa das temperaturas que tem ficado frequentemente abaixo dos 20 graus pela madrugada, o Creas lançou mão de um plano de contingência, nos moldes realizados em São Paulo. As abordagens sociais foram intensificadas, mas não há consultórios de rua e nem transporte.
– A gente percorre os locais com maior incidência de pessoas para oferecer os serviços que existem no município, normalmente na área de Saúde e Assistência Social. Nossa maior dificuldade é fazer com que ele se desloque a pé para Casa de Passagem para um atendimento continuado. Hoje o ‘modus operandi’ é ir até a rua, fazer o primeiro atendimento, pegar os dados do usuário e acompanhá-lo na rua – conclui o coordenador do Creas, Nathan Barbosa. 

Casa de Passagem é porta para o recomeço

Um imóvel discreto, sem qualquer identificação na porta, no Jardim Olinda, é o equipamento público municipal destinado 
às pessoas que buscam recomeçar. E recomeçar e recomeçar quantas vezes forem necessárias.
É com esse espírito que a Casa de Passagem oferece um serviço de suporte material e técnico, por meio de uma equipe multidisciplinar de especialistas, entre nutricionistas, assistentes sociais e orientadores. 
Ao todo, há vagas para 20 pessoas e uma família, que fica em ala separada. No verão, a frequência aumenta por causa das pessoas que chegam a Cabo Frio para trabalhar e não tem onde ficar. 
De acordo com o coordenador Thadeu Gomes, o local é um trampolim para a volta a cidadania e não um mero ‘depósito de pessoas’. Para cada pessoa que chega é elaborado um plano de ação, de modo a recolocá-la na sociedade. Para tirar o caráter de albergue e obrigar os usuários a buscar emprego, é proibido ficar nos quartos durante boa parte do dia. 
– Esse plano de ação é elaborado junto com o usuário porque levamos muito em conta o desejo e a vontade dele. Nada é obrigado. Se ele quiser continuar acolhido, vai continuar, se não quiser, infelizmente, ele vai embora – afirma.
 

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