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Coluna

Cometa 3I/ATLAS: O Terceiro Viajante Interestelar a Cruzar Nosso Sistema Solar

18 dezembro 2025 - 13h37

No vasto oceano cósmico, alguns viajantes solitários cruzam o Sistema Solar vindos das profundezas da galáxia. Em 2025, os astrônomos registraram um novo visitante desses confins: o cometa 3I/ATLAS, o terceiro objeto interestelar já detectado pela humanidade.

O 3I/ATLAS foi descoberto em 1º de julho de 2025 pelo sistema ATLAS (Asteroid Terrestrial-impact Last Alert System), localizado no Chile. Seu nome segue a nomenclatura astronômica oficial:

“3I” indica que é o terceiro objeto interestelar observado (depois de 1I/‘Oumuamua e 2I/Borisov);

“ATLAS” é o nome do observatório que o identificou.

A análise de sua órbita mostrou algo surpreendente: o cometa não está ligado gravitacionalmente ao Sol. Sua trajetória hiperbólica revela que ele veio de fora do Sistema Solar — e, após sua passagem, continuará sua jornada pelo espaço interestelar.

O 3I/ATLAS apresenta um núcleo estimado entre 300 metros e alguns quilômetros de diâmetro. Observações feitas por telescópios espaciais, como o James Webb e o Hubble, revelaram uma grande liberação de água e dióxido de carbono (CO) — substâncias típicas de cometas.
Seu periélio (ponto mais próximo do Sol) ocorrerá em 30 de outubro de 2025, a cerca de 1,4 unidades astronômicas (ou 210 milhões de quilômetros). Mesmo assim, não haverá aproximação significativa com a Terra, mantendo-se a mais de 1,8 unidades astronômicas de distância — sem qualquer risco para o nosso planeta.

O mais fascinante sobre o 3I/ATLAS é sua origem. Ele provavelmente foi ejetado de um sistema estelar distante, talvez há milhões ou bilhões de anos, após interações gravitacionais com planetas gigantes ou estrelas vizinhas.
Cada grão de poeira e molécula de gelo nesse cometa é uma amostra preservada de outro sistema planetário — talvez de uma estrela semelhante ao Sol, ou de um ambiente completamente diferente. Estudá-lo permite aos cientistas comparar sua composição com a dos cometas locais, revelando como os elementos químicos se distribuem na galáxia

Alguns astrônomos notaram comportamentos incomuns: a cauda de gás nem sempre aponta na direção oposta ao Sol, como seria esperado.
 A velocidade extrema e o ângulo de entrada sugerem que o 3I/ATLAS pode vir de uma região antiga da Via Láctea, possivelmente o “disco grosso” galáctico.

 Observações espectroscópicas indicam uma deficiência em compostos de carbono (CN), algo raro entre cometas do Sistema Solar.

Esses detalhes fazem do 3I/ATLAS um laboratório natural para investigar como se formam e evoluem os corpos gelados em ambientes estelares diferentes do nosso

O estudo de objetos interestelares como o 3I/ATLAS abre uma nova fronteira na astronomia. Eles nos oferecem amostras naturais de outros mundos — pedaços de sistemas planetários que jamais poderíamos visitar.

Cada novo visitante é uma oportunidade única para compreender a diversidade química e dinâmica da galáxia, além de ajudar a responder perguntas fundamentais.

O cometa 3I/ATLAS é mais do que um ponto brilhante cruzando o céu — é um mensageiro interestelar, um viajante que carrega em si a história de outro sistema estelar. Sua passagem pelo Sistema Solar em 2025 marca mais um capítulo emocionante na exploração do cosmos e reforça a ideia de que somos parte de uma galáxia viva, dinâmica e interligada.

Enquanto ele segue seu caminho de volta ao espaço profundo, deixa para trás um rastro de mistério, inspiração e a lembrança de que o Universo ainda guarda infinitas histórias a serem contadas.

Wagner Sena é astrônomo 
- Especialista em Astronomia pela Universidade Federal de Santa Catarina, membro do Clube de Astronomia do Rio de Janeiro e da Sociedade Astronômica Brasileira, presidente da comissão Lunar da União Brasileira de Astronomia, divulgador científico no Jornal Folha dos Lagos e no programa Amaury Valério da Rádio Ondas.