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Coluna

A Cabo Frio de Melquíades

09 maio 2022 - 11h20

Melquíades é um personagem de Gabriel Garcia Márquez, do livro ganhador do prêmio Nobel de literatura “Cem anos de solidão”. Ele chega à aldeia de Macondo, um pântano em desenvolvimento constante na colômbia, mas que por razoes governamentais nunca atinge a sua maturidade política/ econômica, vive apenas em sua distopia. Mas o que um cigano de um pântano colombiano traria a Cabo Frio? Ele prometia constantemente o progresso, por meio de “inovações científicas”, e que faziam com que o patriarca da família Buendía Iguarán, da qual a obra gira ao entorno sempre despendesse seus últimos recursos financeiros na fé de que comprando gelo, ou uma fórmula mágica de alquimia, ou pedras, conseguiria escapar da miséria, fome, e a abundância será para sempre. Alguma similaridade com uma cidade que tem orgulho de, em tom de ironia, se denominar o “Novo Egito”? pelos inúmeros golpes de esquema de pirâmide financeira que levou muitos investidores (leigos) à falência? Alguma similaridade com o mais recente (notificado) golpe das esmeraldas? A cidade que dia após dia parece suspirar à espera de um novo charlatanismo para cair e dissipar todas as suas energias com promessas irreais de um retorno financeiro sem riscos e cem por cento recuperável...

Lembro que a primeira vez em que li “Cem anos de solidão” me perguntei como um patriarca podia cair diversas vezes em versões diferentes do mesmo vigarismo vindo da mesma pessoa; mas era compreensível. O fundador da cidade era alguém que fugia da fome e que via nessa inventividade, sem comprovação nenhuma, uma fórmula mágica para alcançar o sucesso. E não há mal nenhum em querer o melhor. Não há mal nenhum em querer o mínimo, em querer o que é garantido por Constituição, como direito à alimentação, à moradia, à saúde, a liberdades individuais. Não há mal nenhum em querer estabilidade financeira ou conseguir fazer as compras do mês no mercado sem a preocupação se a família no próximo mês conseguirá retornar sem retirar itens básicos do carrinho para que a conta feche. Isso deveria ser inalienável. O direito à alimentação. Ou quando digo deveria ao menos na prática.

Mas o cabo-friense vê a alta dos preços. Ou melhor, não vê, ignora; prefere pensar que mais adiante haverá uma oportunidade imperdível para um negócio irrefutável ou, como dizem, “um negócio da China”. Ignora essa alta porque crê que a situação vai melhorar, que as coisas vão melhorar, que o salvador, o messias, o Melquíades chegará e, com um passe de mágica, resolverá todos os problemas. Assim como muitos investidores, José Arcadio Buendía, o patriarca de Márquez, dispunha de recursos financeiros, mesmo que poucos, e, no entanto, se permitia encantar pelas inventividades, e ao desarmar das tendas ciganas, percebia no dia seguinte que o espelho d’água que haviam lhe prometido era apenas gelo; água, e se desfez, evaporou; para a tristeza de sua mulher, Úrsula, que passou a ser a guardiã dos recursos da família, vendo que o marido definhava as economias conforme as tendas ciganas eram armadas, e um novo ilusionista chegava à cidade.

Comumente dizem que a arte imita a vida. Ou a vida imita a arte. Tanto faz quem mimetiza quem. A real importância é que esses personagens se encontravam dentro de uma narrativa distópica, e a qualquer momento o leitor poderia encerrar a leitura e escolher não saber mais da ambição pueril dos Buendía Iguarán. Mas infelizmente, não podemos encerrar os contratos assinados e voltar atrás de um dinheiro perdido para um novo “empreendimento financeiro”, mas podemos observar os padrões, podemos sim ter ambições e almejar mais, sabendo que sempre há riscos, desconfiando de tudo que é prometido com tanta facilidade e lucratividade.

Afinal, Macondo e Cabo Frio tem tanto em comum assim? Pessoas desesperadas pelo medo da escassez, que se tornam vulneráveis a qualquer promessa fantasiosa?

(*) Caroline Gomes é especialista em uso de antimicrobianos pela Universidade de Barcelona, graduanda em Farmácia pela UFRJ e aficcionada pelo realismo mágico.