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ESPECIAL

Ivo Saldanha: o fenômeno que rompeu a tradição política de Cabo Frio

Pioneiro nas causas ambientais, prefeito que governou entre 1989 e 1992 também teve gestão marcada por dificuldades financeiras e isolamento

07 novembro 2020 - 10h30Por Rodrigo Branco

Como quase sempre ao longo da História, a vida do trabalhador brasileiro não estava nada fácil no fim de 1988. No rescaldo dos fracassados planos Cruzado e Bresser, nada dava conta do temido dragão da inflação. Na verdade, hiperinflação, uma vez que o índice batia a surreal marca de 2.000%.

Para amenizar a carestia e o dinheiro escasso no bolso, apenas a fantasia na TV. A novela Vale Tudo se encaminhava para o fim e parava o país com as armações das vilãs Odete Roitman e Maria de Fátima. Nas manhãs e madrugadas de domingo, as vitórias de Ayrton Senna na Fórmula 1 eram praticamente o único motivo de orgulho nacional.

É nesse contexto que um político fora das estruturas tradicionais de poder chegava ao cargo de prefeito de Cabo Frio. Acreano de Tarauacá, cidade a 409 Km de Rio Branco, Ivo Saldanha já havia sido deputado estadual, mas era considerado uma ‘zebra’, por conseguir quebrar a hegemonia dos grupos dos ex-prefeitos Alair Corrêa e José Bonifácio.

Psiquiatra de formação humanista e figura de temperamento singular, Ivo desfrutava de empatia da população, por causa de iniciativas como o Muro do Amor, no qual atendia a população gratuitamente no meio da rua, e acabou surpreendendo nas urnas, mesmo sem o suporte de grupos políticos estruturados.

– O Ivo, na minha opinião, foi um fenômeno político, no sentido de algo bem diferente do esperado de uma dinâmica de cidade como Cabo Frio, onde temos, não muito diferente de outras cidades, a prevalência nos respectivos grupos políticos dos setores mais tradicionais da própria cidade, das famílias tradicionais que estiveram ligadas a determinadas atividades econômicas – explica o professor de História Paulo Cotias.

Em 1991, Ivo divulga a cidade de Cabo Frio para o então governador de São Paulo, Luiz Antônio Fleury Filho. Foto: Reprodução

Em um período pré-royalties, Cabo Frio sofria com a baixa arrecadação e a deterioração dos serviços públicos e da infraestrutura administrativa. Ao assumir, em 1989, Ivo pegou uma Prefeitura que devia vários meses de salários. Considerado um político de perfil aglutinador e populista, o prefeito lançou mão de mutirões no começo da gestão para colocar a cidade em ordem. Não era raro vê-lo de vassoura em punho, pegando no pesado.

As atitudes de Ivo, associadas às suas frases de efeito e a um estilo peculiar, vide o inseparável chapeuzinho, construíram uma ‘persona’ pública que desfrutava de simpatia da população. Contudo, as dificuldades para colocar as contas em dia e a falta de disposição em negociar com os grupos tradicionais e com os vereadores acabaram por minar sua gestão, pouco a pouco.

– A relação dele com as famílias tradicionais e com os vereadores era a pior possível, porque as famílias tradicionais estão acostumadas a viver agarradas na Prefeitura, e os vereadores estão acostumados a viver de favores do Executivo. E ele não concedeu secretarias, num primeiro momento, para essas famílias nem benesses para esses vereadores. Então, ele sofreu oposição cerrada dessas famílias e desses vereadores. Muitas dessas famílias são formadoras de opinião, então o governo dele em poucos meses teve alta taxa de rejeição – relembra o também historiador José Francisco de Moura, o Professor Chicão.

Para o primeiro escalão, Ivo escalou uma espécie de ‘comissão de notáveis’, muitos dos quais do Rio e da Região Serrana. A medida soou contraditória ao discurso de valorização de ‘prata da casa’, baseada na chamada ‘meritocracia comunitária’, prática que defende até hoje.

Em entrevista especial à Folha, antes de começar a rotina de consultas no seu consultório de Psiquiatria, Ivo Saldanha relatou as dificuldades enfrentadas e sobre o trabalho de ‘gestão meritocrata’. Aos 75 anos, Ivo rememora a participação popular naquele momento.

– Naquela época, a cidade realmente estava confusa e eram sinistras a falta de recursos e as dificuldades que existiam para tirá-la daquela situação. E conseguimos, com o apoio, a ajuda e a participação das pessoas. Nós já havíamos feito um projeto chamado meritocracia, que era preparar as pessoas, desenvolver meios e o potencial que elas tinham, para a administração pública. E a gente começou a fazer esse trabalho, que depois o SUS começou a implantar na Atenção Básica. Fomos organizando a comunidade, as associações, depois vieram as ONGs para que elas participassem desse projeto junto com o poder público. Você precisa preparar as pessoas para que elas também passem a colaborar com esse trabalho que o país realmente precisa, a começar pelo município de Cabo Frio, porque aqui é a raiz da historia – relatou o médico.

Com o inseparável chapéu; inscrição SOS Lagoa já apontava inclinação para causas ambientais. Foto: Reprodução

De modo inovador, uma vez que ainda não se tratava de um assunto tão presente na agenda pública, Ivo levantou a bandeira do Meio Ambiente.  O ex-prefeito lembra com orgulho de projetos, como o Pau Brasil, que teve relevância nacional e internacional. De outro lado, ele ressalta que, já naquela época, a especulação imobiliária ameaçava as áreas verdes, o que na opinião do psiquiatra, ajudou a formar um caráter predatório no Turismo, que persiste até hoje. O médico critica a relação desses grupos com o poder público ao longo das décadas.

– Vieram pra cá grupos especuladores, que passaram a financiar os gestores. Houve uma depredação, um empobrecimento e um Turismo que não traz quase nada de recursos. Quando se instalam os grandes depredadores nas grandes áreas públicas, eles passam a ter uma conivência do poder público. Então, em vez de ser gestor publico, ele passa a ser membro de uma facção – dispara.

Em que pesem as boas iniciativas isoladamente, no geral, a gestão de Ivo sucumbiu aos problemas financeiros e ao isolamento político, que acabaram por inviabilizar uma continuidade na vida política. Para Chicão, o fato de não governar com as forças tradicionais foi determinante para minar sua administração. O professor vê semelhanças das circunstâncias da eleição de Ivo com as que levaram o atual prefeito, Adriano Moreno, a ser eleito em 2018.

– Ele venceu porque as forças politicas tradicionais se dividiram e ele já era um cara bem conhecido, tinha programa na imprensa, atendia gratuitamente como psiquiatra e acabou se aproveitando disso e venceu sem compromisso com partido nem grupo politico, sem compromisso com as famílias tradicionais. Ao ser eleito, ele tentou ficar sem o apoio, mas passou muito sufoco. Depois colocou alguns elementos das famílias tradicionais, mas o desgaste já era grande. Apesar de não ter feito um governo desastroso, como muitos dizem, acabou tendo sua vida politica encerrada – ponderou.

Na atualidade, ex-prefeito se dedica ao seu consultório de Psiquiatria e às terapias alternativas. Foto: Divulgação

Para Paulo Cotias, a trajetória de Ivo Saldanha não pode ser avaliada sob o mesmo prisma de figuras estranhas ao processo político ou, pejorativamente falando, de aventureiros.

– Essa onda dos ‘outsiders’ está se esgotando, mas o Ivo foi além disso. Ele tinha liderança, era um mobilizador, um articulador, tinha um plano de poder, sabia onde queria chegar, não conseguiu por outras razões, mas havia um entendimento, um prognóstico de permanência ou ate mesmo de alçar voos maiores. Era um líder que não era vazio de conteúdo politico, mas soube dentro dessa personagem que ele cria, que é autêntico, ser até hoje em dia, uma pessoa ligada à questão do ser humano, das causas ambientais e das causas sociais. Nessa figura politica, ele era alguém que mobilizava, que agregava, e que tinha uma liderança e um protagonismo político – pontua o historiador.

Mudança do local do batalhão aconteceu depois de pedido

Apesar da falta de disposição em negociar com as forças políticas locais, Ivo tentava buscar meios para tirar a cidade da difícil situação que se encontrava. Os historiadores pontuam que ele chegou a fazer viagens à Brasília e a participar de fóruns. 

Mesmo sem apoio do Governo do Estado – ele geriu Cabo Frio entre os mandatos de Moreira Franco e o segundo de Leonel Brizola – o ex-prefeito se lembra de uma ocasião em que conseguiu mudar uma decisão do Palácio Guanabara.

– O Batalhão (de Polícia Militar, 25º BPM) ia ser instalado em Araruama. Falamos com o governador da época, o Moreira Franco, que ouviu o secretario de segurança (na verdade, o secretário de Polícia Militar, Coronel Manoel Elysio). Eles fizeram reuniões e chegaram à conclusão de que teria que ser em Cabo Frio. O Batalhão Florestal é um projeto nosso, assim como o tombamento das Dunas – relembra Ivo, sobre a unidade que, desde 1990, funciona no bairro Jardim Caiçara, e é responsável pelos sete municípios da Região dos Lagos.

Nota da Redação: Após a publicação da matéria na versão semanal impressa, a ambientalista Zarinho Mureb entrou em contato com a Redação para contestar a declaração do ex-prefeito Ivo Saldanha de que seu governo teria sido o responsável pelo tombamento das Dunas.

De acordo com Zarinho, o tombamento estadual saiu por mobilização da sociedade civil e de defensores do Meio Ambiente, por meio da então atuante Associação do Meio Ambiente da Região da Lagoa de Araruama (Amarla), que entrou com uma ação popular para impedir a construção de um empreendimento imobiliário na antiga Duna Mestra, atual Duna Branca.

A ação foi bem sucedida, e o tombamento foi assinado pelo então governador Leonel Brizola, no começo da década de 1990. 

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