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Homenagem a Ustra prejudica imagem de Bolsonaro nas ruas

Entrevistados consideram tributo ao torturador pior do que a cuspida de Jean 

23 abril 2016 - 10h09
Homenagem a Ustra prejudica imagem de Bolsonaro nas ruas

O Maracanã é a rua. De um lado da arquibancada, torcedores exibem camisas em verde e amarelo, com cartazes coloridos com o pedido políticos envolvidos em esquemas de corrupção na prisão. Do outro, militantes ostentam uniformes vermelhos, com verdadeiro horror aos crimes cometidos na época da Ditadura Militar.

O Fla-Flu político já é bem conhecido no Brasil e não se resume à discussão do afastamento da presidenta Dilma Rousseff (PT). Durante a votação do impeachment, dois episódios evidenciaram o aparecimento de outra dualidade: a homenagem de Bolsonaro (PSC) ao torturador militar Carlos Alberto Brilhante Ustra e a cuspida de Jean Wyllys (Psol) no próprio Bolsonaro provocaram um campeonato de discussões acaloradas nas redes sociais.

Um dos posts que acabou viralizando na internet foi o pedido de cartão vermelho para todos aqueles que curtem a página de Jair Bolsonaro. Também não faltaram contra-ataques com fotos do rival com o uniforme do guer- rilheiro Ernesto Che Guevara, símbolo da Revolução Cubana e acusado de assassinatos no Regime Castrista. No meio-campo dessa partida, alguns pedem pela substituição de ambos por su- plentes no Congresso Nacional. Os entrevistados pela Folha se mostraram solidários aos torturados pelo coronel Ustra e reprovaram o discurso de Jair Bolsonaro na tribuna, alguns, no entanto, tratraram o cuspe como motivo para cartão vermelho.

– Homenagem é pior, porque ninguém deveria eleger um candidato que faz uma coisa dessas. Dar seu voto em memória de um torturador é ruim – comenta a autônoma Simone Santos, 46.

Faltaram palavras ao ajudante José Evanildo, 23, para criticar a fala do ex-militar.

– A homenagem é muito pior. Não sei nem o que falar para uma homenagem tão ruim – diz.

O gerente Júlio Reis, 33, não veste camisa de nenhum dos times. Embora considere a homenagem pior, também vê a cuspida como quebra de decoro.

– As duas são atitudes que não devem ser tomadas. A cuspida é um desrespeito que não devemos fazer com ninguém, muito menos com um companheiro político. Mas vejo a homenagem como pior por causa daqueles que passaram por isso. Os torturados não mereciam ouvir – argumenta.

Se depender do empresário Jorge Maurício Rodrigues, 65, o ex-militar nunca mais entra em campo para representá-lo.

– Ninguém tem o direito de fazer tamanha maldade com o ser humano. A homenagem foi pior. Ele tinha que perder o mandato – cobra.

Já a professora Lorena Mirandela, 23, ainda lembra que a homenagem de nada tinha a ver com a votação do impeachment.

– É uma incitação grave de ódio e um pedido indireto de retorno da repreensão militar. Sem contar que não convinha citar alguém que participou da tortura contra a presidente, uma vez que não é uma questão pessoal. O Jean vem recebendo ofensas do Jair desde sua posse e que, mesmo não concordando com tal atitude, tem sua justificativa – explicou ela.

O pedreiro Geilson Laurindo, 34, por outro lado, não tolera a cuspida. 

– Cuspida é bem pior. É uma falta de respeito sem tamanho ao deputado. Mas acredito que ambos deveriam sair da Câmara.

Enquanto a bióloga Patrícia Dutra, 44, pensa que homenagem a qualquer pessoa é um um direito.

– Os dois faltaram com o respeito. Mas, na minha opinião, a cuspida é pior. O ator de cuspir é falta de decoro, que, sobretudo naquele momento, deveria ser respeitado. A homenagem é algo pessoal. Ele tem o direito de homenagear a quem ele quiser – conclui.

O professor Anderson Mendes, 38, não escolheu time e desaprova os atos em plenário.

– Ambas foram graves. Foi total falta de respeito tanto pessoal quanto pelo cargo que ocupam. Ambos precisam aprender o significado do cargo que ocupam - finaliza.