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RELAÇÃO DESAFINADA

Ex-aliados, Andinho e Tê perdem o tom da união e ficam em ritmos diferentes em Arraial

Ex-prefeito e ex-secretário de Governo de Arraial não vão repetir a dobradinha da eleição de 2016

13 fevereiro 2020 - 20h38Por Rodrigo Cabral

Do funk-melody à MPB, a relação política de Wanderson Cardoso de Britto, o Andinho (MDB),  e Walter Lúcio Cardoso, o Tê (PSDB), era promessa de romance para as eleições deste ano em Arraial do Cabo, mas, muito antes do carnaval, foi estremecida com o gelo do silêncio e uma desafinada solidão. Começou assim: “não existe Andinho sem Tê, Tê sem Andinho”, dizia Tê à Folha no fim do ano passado, fazendo lembrar o sucesso ‘Fico Assim Sem Você’, da dupla Claudinho e Buchecha. Só que o disco mudou quando Tê – pupilo, primo, ex-secretário de Governo e candidato de Andinho em 2016 – viu o ex-prefeito bater o martelo com a pré-candidatura do irmão, Davidson Cardoso de Britto, o Deivinho (PSD):

– Por que não eu? – perguntou Tê, remetendo desta vez ao conhecido refrão do cantor Leoni. 

Ele disse que reagiu assim, com surpresa, à decisão. Em entrevista ao programa Bom Dia Litoral, na Rádio Litoral, ontem de manhã, lamentou o fato de não ter conseguido sentar com Andinho para acertar os ponteiros.  Horas depois, Andinho afirmou por telefone à Folha que Tê não o procurou. Por sua vez, Tê garantiu que sustentou até o último momento a candidatura do primo. Mas, no momento em que se confirmou a inviabilidade jurídica de Andinho (as contas do ex-prefeito foram reprovadas na Câmara, deixando-o inelegível), ficou sinalizado que seria Tê o candidato do grupo. A mensagem, ainda segundo a versão de Tê, veio através do advogado de Andinho. 

– Sempre fiz parte do grupo do Andinho. Andinho é o padrinho da minha filha. Temos uma história de vida juntos. Somos primos. Sustentamos uma candidatura dele, até um certo ponto em que o advogado me falou: “você precisa ir para rua porque nosso candidato vai ser você”. Foi por uma questão jurídica. Não tenho o menor problema com Andinho. Mas não consigo conversar política com ele. Parece que ele evita. E eu respeito. No namoro, no casamento, em qualquer lugar, é assim: quando um não quer, dois não brigam. 

Já Andinho joga o rompimento na conta de Tê.

– Ele buscou o caminho dele. Tenho que respeitar. Tomou a decisão sem participar de nada com a gente. Disse que ligou para mim. Disse que tentou falar comigo. Em Arraial, a gente consegue falar com todo mundo. Se ele quisesse tanto falar comigo, teria ido na minha casa ou em qualquer outro lugar – alfinetou.

A trilha sonora, nesse caso, seria ‘Vou Festejar’, famosa na voz de Beth Carvalho? Quem não se recorda da letra: “você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão”? Diante da proximidade que sempre teve com Tê, Andinho disse ver com estranheza a  falta de diálogo. Disse, inclusive, que um entendimento teria sido possível se houvesse conversa. 

– O cara foi criado do meu lado. Trabalhamos juntos. Lançamos o cara. O cara precisa mandar recado para falar comigo? Ele tem acesso à minha casa. Tem acesso a tudo. Se quisesse ter falado comigo, talvez teríamos até entrado num entendimento. Ele tomou a decisão.  Política tem dessas coisas. Quando se entende que os caminhos não são os mesmos, temos que respeitar. 

No término, cada um reage de uma forma. Se Tê se disse surpreso, Andinho comentou que viu a separação com naturalidade.

– Aprendi, na minha vida, a aceitar as coisas. Já tomei tanta pancada. Recebi tanta ingratidão...  O ser humano é isso. Temos que esperar tudo. 

Ele, no entanto, preferiu não responder com veemência se considera que Tê foi ingrato.

– Cada um tem seu ponto de vista. Estou falando de um assunto que nem tenho tocado. Faço a minha parte. Estamos trabalhando.

Mas os desafinados, como ensinou a bossa composta por Tom Jobim e Newton Mendonça, também têm coração. Durante a entrevista na rádio, Tê fez questão de tratar Andinho com reverência. Disse que o ex-prefeito é uma liderança nata e que, não à toa, foi prefeito por dois mandatos. Mágoa, garantiu, não existe. Pelo contrário: afirma que nutre “amor” e “paixão” por Andinho. E revelou que ainda tem aquela ponta de esperança de que o ex-prefeito volte atrás.

– Ninguém é prefeito duas vezes por acaso. Mas um líder tem que saber diferenciar a liderança da parte política. Ulysses Guimarães, por exemplo, foi líder a vida inteira e nunca foi presidente da República. Isso de alguma forma minimizou a liderança dele? De forma alguma. Andinho é o líder. Mas, em determinado momento, emocionalmente, pode ter se desagradado com alguma coisa. Na hora que ele parar de ser político e ser líder, vai olhar para o espelho e falar: “vou com o Tê”.

Quais serão as próximas músicas desse repertório político-sentimental? A plateia há de descobrir até outubro – seja com aplausos ou com as famosas vaias do Cabo: “uuuusca”. 

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