O historiador Paulo Cotias afirmou que o campo progressista precisa recompor sua relação com sindicatos, grêmios estudantis e associações de bairro para voltar a disputar o poder na Região dos Lagos (RJ), onde o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) superou o presidente Lula (PT) no segundo turno nas sete cidades.
“A esquerda perdeu o contato e o vínculo com aqueles que eram das suas bases mais fundamentais”, disse Cotias ao “Canal do Cabral”, programa de entrevistas apresentado pelo jornalista Moacir Cabral.
Lula foi reeleito com 51,8% dos votos válidos, ante 48,2% de Flávio. Na Região dos Lagos, Flávio teve a maioria dos votos. Somadas as sete cidades, o senador recebeu 269.355 votos (64,2%), e Lula, 150.378 (35,8%). No Estado do Rio, Flávio teve 53,1%.
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Cidade |
Flávio Bolsonaro (PL), votos |
Flávio (%) |
Lula (PT), votos |
Lula (%) |
|---|---|---|---|---|
|
São Pedro da Aldeia |
38.739 |
68,2 |
18.025 |
31,8 |
|
Iguaba Grande |
15.701 |
65,6 |
8.216 |
34,4 |
|
Araruama |
53.426 |
64,8 |
29.032 |
35,2 |
|
Saquarema |
44.444 |
63,4 |
25.684 |
36,6 |
|
Armação dos Búzios |
17.368 |
63,0 |
10.206 |
37,0 |
|
Cabo Frio |
83.555 |
63,0 |
49.113 |
37,0 |
|
Arraial do Cabo |
16.122 |
61,5 |
10.102 |
38,5 |
|
Total |
269.355 |
64,2 |
150.378 |
35,8 |
Segundo turno, votos válidos. Fonte: TSE
Cotias disse que o impacto desses números na política municipal é relevante e que a direita dispõe hoje de uma estrutura consolidada na região. Cabo Frio e São Pedro da Aldeia são governadas por prefeitos do PL: Sérgio Azevedo Filho, conhecido como Dr. Serginho, e Fábio do Pastel, respectivamente.
O historiador destacou o crescimento do voto em Lula entre os turnos. Em Cabo Frio, o petista passou de 39.944 para 49.113 votos, 9.169 a mais. Flávio somou 342 votos ao total do primeiro turno.
Para Cotias, a mobilização de rua precisa ter objetivo definido. “Mobilizar por mobilizar não é um caminho muito inteligente. É importante que haja pautas”, afirmou. Ele defendeu que a esquerda lance uma candidatura competitiva à Câmara Municipal de Cabo Frio. “Nós já estamos há muito tempo sem uma representação do campo progressista na Câmara Municipal.”
Segundo o historiador, a direita se mantém coesa nas disputas locais, e a esquerda só terá chance se priorizar a unidade entre partidos e movimentos.
Saída de Flávio Bolsonaro
Cotias também comentou a saída de Flávio do Brasil. O senador desembarcou na região de Miami (EUA) na quarta-feira (28), com a mulher e as filhas. “Ele não é um exilado, ele não é um perseguido político”, disse o historiador. Para ele, a viagem está relacionada às investigações a que Flávio responde.
O senador é alvo de dois inquéritos no STF. Um apura suspeita de lavagem de dinheiro em operações ligadas ao advogado Willer Tomaz. Outro investiga o financiamento do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, com recursos atribuídos ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Flávio nega irregularidades, e sua defesa afirma que a relação com Tomaz se limita à amizade entre as famílias. Aliados descrevem a viagem como exílio motivado por perseguição política. Na noite da eleição, o senador disse que não reconheceria o resultado e que pediria a anulação do pleito.
A PF afirmou que a decisão de Moraes não autorizava a prisão do senador. Deputados do PT pediram a prisão preventiva de Flávio por descumprimento da ordem judicial.
Governo do Rio
Questionado sobre a possibilidade de segundo turno para o governo fluminense, Cotias avaliou ser difícil que o STF mude seu entendimento por pressão política. O TSE anulou os 274.411 votos de Anthony Garotinho (Republicanos), que teve o registro de candidatura indeferido, e Douglas Ruas (PL) foi proclamado eleito no primeiro turno com 50,88% dos votos válidos. O PSD, de Paes, pediu ao Supremo a realização do segundo turno. O relator, ministro Cristiano Zanin, ainda não decidiu.
Livro
Cotias é professor, mestre em educação e colunista do jornal Folha dos Lagos. É autor de “12 Lições contra o Neofascismo” (Sophia Editora), lançado em 2024, que descreveu como um ensaio, e não um tratado acadêmico.
Segundo ele, o livro parte do conceito de “ur-fascismo” do escritor italiano Umberto Eco, para quem o fascismo reaparece sob novas formas, e propõe maneiras de identificá-lo e combatê-lo. O próximo livro, disse, tratará de democracia.
O historiador afirmou que a democracia brasileira vive um de seus momentos de maior solidez e citou crises anteriores, como a Revolução de 1930, a ameaça à posse de Juscelino Kubitschek em 1955, a renúncia de Jânio Quadros em 1961 e o golpe de 1964. “Ela pode ser resistente, mas ela não é indestrutível.”




