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cultura

Artistas criticam desvalorização da Cultura

Cabofrienses pedem mais políticas em âmbito federal e local

21 maio 2016 - 13h23Por Rodrigo Branco
Artistas criticam desvalorização da Cultura

 É possível que na história re­cente do país jamais tenha se fa­lado tanto – embora nem sempre debatido – sobre Cultura como nas últimas semanas, a reboque da decisão do presidente interino Michel Temer de transformar o antigo ministério em secretaria.

O fato é que a notória queda de prestígio do setor na nova ges­tão federal serviu para aumentar a insatisfação da classe artística, movimento potencializado pe­las discussões políticas no calor do processo de impeachment da agora presidente afastada Dilma Rousseff. Entre os agentes cul­turais ouvidos pela Folha, a per­cepção geral é de retrocesso.

– Inegável a importância do MinC e do investimento em cul­tura para o desenvolvimento do país. A palavra retrocesso tem sido muito usada, mas é a que melhor descreve este momento lamentável e triste até. Extinguir cultura de um país é extinguir cuidados com a memória nacio­nal, com o patrimônio, com sua língua, seu folclore, seu povo – constata a dramaturga e diretora teatral Silvana Lima, para quem o governo Temer é ‘ilegítimo’.

Já o ator Ravi Arrabal Heluy lamenta que a Cultura seja colo­cada em segundo plano. Para o artista, isso compromete a for­mação de um pensamento críti­co na população.

– O Brasil, um país rico em sua diversidade social, sempre foi um país rico em cultura e, con­sequentemente, na arte. Negar isso é negar a criatividade, negar a liberdade, negar a expressão. A cultura é essencial para a for­mação do senso crítico que está faltando não só a classe política e à mídia, mas à população, que reproduz discursos tão perigosos para o crescimento da identidade brasileira – teoriza ele, que não vê semelhanças com as dificul­dades no setor, em Cabo Frio.

– Aqui a meta era a criação de uma Fundação de Cultura, que é um organismo mais independente das canetadas do Poder Executivo – explica.

Por aqui – A escassez de recursos na área se reflete também em Cabo Frio, onde a antiga pasta se fundiu a outras três. O Teatro Municipal, que será reaberto na próxima semana, ficou um período fechado aguardando reformas. Por sua vez, o antigo solar dos Massa, onde funcionava a biblioteca municipal Professor Walter Nogueira, agoniza, sem data para voltar a receber o acervo. Programas de fomento como o Proedi correm o risco de não acontecer. Agora titular da secretaria, Walcir Alegre ainda se ambienta e conhece os problemas tenta ser otimista.

– O Plano Municipal de Cultura, que nunca tinha sido feito, acabou de sair. Eu e o prefeito estamos trabalhando para que todas as outras coisas saiam do papel – promete.

O diretor do teatro, Yuri Vasconcellos, aposta na regulamentação do trabalho dos artistas de rua para superar a falta de espaços culturais na cidade.

– O problema é que aqui o metro quadrado é muito caro – explica Yuri.

Produtora do Santo Samba lamenta fim de apoio ao evento

Considerado um dos eventos culturais de mais prestígio da cidade, o Santo Samba deixou há algumas edições a bucólica praça São Benedito, na Passagem, para se tornar um evento fechado e com cobrança de ingresso em um clube.

O projeto foi criado em 2012 pela produtora cultural e colunista da Folha, Luciana Branco, e desde então recebeu mais de cem artistas convidados e teve público de mais de 40 mil pessoas de toda a região. Mas as dificuldades começaram depois que a prefeitura deixou de ceder parte da estrutura. Luciana chegou a promover uma campanha de financiamento coletivo, mas no fim o evento precisou mudar de endereço.

– Tenho pena. Tanta gente boa, tanto talento, tanta diversidade de arte... O que falar? Já reclamei, pedi ajuda para o Santo Samba, que valoriza e empodera os músicos locais. Criado para as ruas, está engaiolado, como um pássaro. Sinceramente, não sei o que fazer e o que pensar. Só torço para que os próximos gestores fujam deste modelo político falido e vergonhoso, para que, junto de nós, a classe artístico cultural da cidade, possa fazer cultura com acesso a todos – desabafa a produtora.

Mesmo com as restrições financeiras que inviabilizam momentaneamente o evento ao ar livre, Luciana não desiste de levar música e arte para as pessoas. Para ela, que cita o famoso educador Rubem Alves, Cultura e Educação andam juntas.

– É isso. Cultura educa, forma e transforma – sentencia.

Depoimentos:

"Na verdade vou responder o que muitos artistas já tem falado sobre a extinção do MinC porque a grande maioria está bastante revoltada com a ação do presidente (ilegítimo) interino. Inegável a importância do MinC e do investimento em cultura para o desenvolvimento do país. A palavra retrocesso tem sido muito usada, mas é a que melhor descreve este momento lamentável e triste até. Extinguir cultura de um país é extinguir cuidados com a memória nacional, com o patrimônio, com sua língua, seu folclore, seu povo. É acabar com incentivos à dança, às artes cênicas, música, literatura, cinema ... é deixar de investir em pesquisa, em projetos, em novas linguagens artísticas. Cultura é a vida repensada, ressignificada, olhada por muitos ângulos. A direita trata a cultura como uma soma de coisas desfrutáveis, como entretenimento. Então, agora, é lutar. Mais ainda. Por isso é retrocesso, porque temos 

que lutar por aquilo que já havíamos conquistado. Mas somos fortes. E criativos. Preciso destacar a importância da sociedade lutar conosco pela manutenção da política cultural implantada nesta última década ara garantir o acesso da população a bens culturais que são tão importantes quando a educação letrada, aprendida na escola. Em Cabo Frio não aconteceu diferente. Na hora em que as contas apertaram a Secretaria de Cultura caiu. E caiu também o Proedi (Programa de Editais) que nas suas duas edições beneficiou inúmeros projetos em várias áreas, permitindo o acesso de alunos e da comunidade aos bens culturais e remunerando artistas que vivem de seu trabalho. Infelizmente estas ações estão paradas." (Silvana Lima, dramaturga e diretora teatral)

 

"Não há semelhança (entre o que acontece no país e no município) pois aqui a meta proposta pela comunidade cultural, em fóruns e conferências, era a criação de uma Fundação de Cultura, que é um organismo mais independente das canetadas do poder executivo, tendo autonomia juridica, contabil e de captação de recursos pela iniciativa privada, o que não é possibilitado na estrutura de uma secretaria municipal. O que ocorre a nivel nacional é o oposto: o rebaixamento da categoria. Um ministério deixa de existir para virar um penduricalho da pasta de educação, que já enfrenta diversos desafios. Um verdadeiro retrocesso.

Sobre a campanha em vigor no Brasil, que tende a colocar a cultura como algo supérfluo, só tenho a lamentar. demonstra a falta de conhecimento e estudo. cultura é a identidade de um povo. formas de expressão e de formações simbólicas. o brasil, um país rico em sua diversidade social, sempre foi um país rico em cultura e, consequentemente, na arte. negar isso é negar a criatividade, negar a 

liberdade, negar a expressão. a cultura é essencial para a formação do senso crítico. senso crítico que está faltando não só a classe política e à mídia, mas à população, que reproduz discursos tão perigosos para o crescimento da identidade brasileira." 

  (Ravi Arrabal Heluy, ator e músico)

 

 

"O que acho mais triste no fim do MinC, não é, propriamente, o fim do MinC, mas o escárnio, o deboche, a desconsideração e a total falta de cuidado para com um segmento dos mais importantes dentro de uma sociedade. A Cultura, ao contrário dos que pensam no atual governo, favorece o conhecimento e com ele, estabelece uma coisa importantíssima para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e igualitária: o senso crítico. Precisamos pensar, decidir sobre o que pensamos e fazer as transformações necessárias. A cultura nos joga pra fora, nos apresenta o mundo, nos faz ser melhores coletivamente. Tenho visto um post aqui na rede, equiparar importâncias, como " Se o fim do MinC te incomoda mais que o fechamento de hospitais; como se pudéssemos assim fazê-lo. Tenho 

certeza de que um povo com acesso a boa educação e a cultura terão muito mais oportunidades na vida e condições também. E mesmo que morem em periferias, as transformarão para melhores, porque são pessoas mais esclarecidas, críticas e saberão escolher bem melhor seus representantes." (Luciana Branco produtora cultural) 

 

 

"O principal problema da cidade é o histórico. Tem muita especulação imobiliária. O valor dos espaços é muito caro. Não há oferta de imóveis como no Rio, onde por exemplo o governo compra um espaço em Santa Teresa e abre um teatro de bolso. O poder público pode arrendar e fazer um equipamento cultural. Aqui o metro quadrado é muito caro. Isso não se resolve de uma hora para outra. O primeiro passo seria regulamentar uma lei municipal para regular a atividade dos artistas de rua e ordenar o uso do espaço público. Outra questão urbanística seria seria dotar a cidade de mais praças, arenas e espeços adaptados com pontos de luz e acústica adequada. (Yuri Vasconcellos, ator e diretor  do Teatro Municipal de Cabo Frio) 

 

"Voltou a ser tudo como era antes. Em vez de progredir, regrediu tanto na esfera federal como na municipal. Aliás, a Cultura tem sido desprezada há muito tempo. Não tem tido a devida atenção, haja vista que nos 400 anos da cidade se fez uma comissão, muito boa por sinal, mas que com essa confusão e com a falta de dinheiro, não saiu como o esperado.

(Célio Mendes Guimarães, escritor)

 

"Parece que a Cultura não é importante. Colocada sempre em segundo plano e abaixo de outras prioridades. Isso prejudica tudo e contribui para a má formação da pessoa, que vota mal e escolhe mal os nosso representantes." (Rodrigo Rodrigues, ator)