A partir de 1º de janeiro de 2027 Cabo Frio terá duas mulheres ocupando o cargo de deputada estadual na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Uma delas é a jornalista Ana Paula Mendes. Nascida em São Paulo e criada em Minas Gerais, ela mora em Cabo Frio há mais de 16 anos. Nesse tempo, ficou conhecida ao apresentar telejornais na Região dos Lagos, incluindo uma passagem pela Inter TV, afiliada da Rede Globo, antes de se dedicar ao jornalismo digital.
No último dia 4 Ana Paula foi eleita deputada estadual com 43.356 votos em sua primeira disputa eleitoral. Em entrevista exclusiva à Folha, ela contou que pretende levar para o mandato a mesma disposição que marcou sua carreira no jornalismo: “ouvir, investigar, fiscalizar e cobrar”. Entre as prioridades para os próximos quatro anos Ana citou a ampliação e descentralização dos serviços de saúde, com a defesa de um hospital pediátrico regional em Cabo Frio e de atendimento oncológico completo na cidade.
– Meu compromisso não termina na Região dos Lagos. Fui eleita deputada estadual e minha responsabilidade será com o conjunto do Rio de Janeiro, especialmente com as regiões do interior que muitas vezes sentem que suas demandas não recebem a atenção necessária. Questões como a duplicação da RJ-106, a revisão da tarifa da ViaLagos, o atendimento oncológico, a conclusão e o funcionamento do Hospital do Câncer de Nova Friburgo e a recuperação das rodovias do Noroeste precisam de articulação e cobrança permanente. Sei que assumir uma cadeira na Alerj significa aprender o funcionamento do Legislativo, estudar, dialogar e construir caminhos para transformar demandas em medidas concretas. Quero levar para esse trabalho a experiência de mais de 20 anos de jornalismo: ouvir, investigar, fiscalizar e cobrar. A eleição foi uma conquista importante, mas o que vai definir o mandato será o trabalho realizado a partir de agora - revelou a jornalista.
Ana também disse que pretende criar uma frente parlamentar com deputados de diferentes partidos e regiões para tratar de demandas comuns do interior e afirma que usará as redes sociais para prestar contas diariamente à população sobre projetos, fiscalizações, agendas, cobranças e respostas dos órgãos públicos. Além de Ana Paula, a Folha também tentou entrevistar todos os demais deputados estaduais eleitos pela Região dos Lagos, mas eles não responderam os questionamentos feitos.
Folha - Você atuou por cerca de 16 anos como apresentadora de telejornal na região e sempre usou sua voz e sua imagem para cobrar dos governantes. Em que momento você decidiu fazer essa transição do jornalismo para a disputa eleitoral?
Ana Paula - Foram mais de 20 anos de jornalismo no interior do Rio, ouvindo as pessoas, mostrando problemas e cobrando respostas das autoridades. Ao longo dessa trajetória, percebi que muitas das dificuldades que chegavam até mim se repetiam de cidade em cidade. A população precisava de atendimento de saúde, estradas melhores, segurança, oportunidades e serviços públicos que funcionassem. A candidatura surgiu como uma possibilidade de levar essa experiência para outro espaço de atuação. E foi de uma forma bem orgânica. Em fevereiro, em conversa com amigas íntimas, chegamos a conclusão de que havia poucas mulheres representativas na política. As que estavam ocupando cargos públicos ou que poderiam entrar na disputa eleitoral geralmente estavam associadas a um homem, como marido, pai, irmão, tio. E chegamos a conclusão que eu poderia ter alguma chance na disputa pelo trabalho de credibilidade que exerci no jornalismo. E sendo Ana de Ana, sem associação alguma a um homem. Daí surgiu a semente para a candidatura, que só veio florescer após conversas intensas com personagens importantes da política na Região dos Lagos: o advogado especialista em política Pedro Canelas, o articulador Aquiles Barreto e o médico e especialista em política, Marcelo Paiva. Foram os três que validaram a minha intenção. Mas não quero abandonar o espírito do jornalismo que sempre fiz. Quero levar para a política a disposição de ouvir, fiscalizar, questionar e buscar soluções. É uma nova etapa, com responsabilidades diferentes, mas com o mesmo compromisso com a população.
Folha - Em sua primeira disputa por um cargo público, você garantiu uma cadeira na Alerj com mais de 40 mil votos, superando inclusive figuras que possuem histórico político. Como você avalia a votação que recebeu?
Ana Paula - Recebo os 43.356 votos com muita gratidão e, principalmente, com um enorme senso de responsabilidade. Foi minha primeira eleição, uma campanha de aproximadamente seis meses, com uma estrutura modesta e muitos desafios. Construímos essa caminhada com uma equipe pequena, com pessoas que acreditaram no projeto e com muito contato direto com a população. O resultado mostrou que uma candidatura sem grandes demonstrações de estrutura pode conquistar espaço. Não encaro esses votos como um prêmio pessoal, mas como uma responsabilidade com cada pessoa que confiou em mim. Agora, preciso transformar essa confiança em trabalho. Vale ressaltar que meu voto é orgânico, diferentemente de muitas candidaturas que se apoiam no dinheiro e na troca de favores com os eleitores. E isso fez diferença. O voto em mim foi o voto da confiança, o voto da esperança, o voto de quem quer uma política diferente e acredita que eu possa ser uma representante disso.
Folha - Quando for oficialmente empossada na Alerj qual será o seu primeiro ato?
Ana Paula - Antes de anunciar um primeiro projeto de lei quero ouvir o que o eleitor quer e estudar a legislação, entender os instrumentos disponíveis na Assembleia e avaliar com responsabilidade quais medidas podem produzir resultados concretos. Já existem questões regionais que precisam de atenção como a saúde, o tratamento oncológico, as rodovias e o saneamento. Também quero dialogar com especialistas, gestores, representantes da sociedade civil e outros parlamentares para identificar os caminhos legislativos mais adequados. Não quero apresentar um projeto apenas para marcar posição. Quero que as iniciativas do mandato tenham fundamento, viabilidade e relação direta com os problemas da população.
Folha - E para o primeiro ano de mandato na Alerj, quais são suas prioridades?
Ana Paula - Minha prioridade é trabalhar por melhorias concretas para o interior do estado. Na Região dos Lagos, temos questões urgentes de saúde, infraestrutura, saneamento e mobilidade. Também quero acompanhar as demandas das regiões Serrana, Norte e Noroeste, que enfrentam desafios próprios e precisam de atenção permanente do governo estadual. No momento, o trabalho é conhecer a Casa e seu funcionamento. Mas pretendo estudar a composição e as atribuições das comissões permanentes para definir onde minha participação poderá contribuir mais diretamente. Saúde, Transportes, Obras Públicas, Defesa do Meio Ambiente e Assuntos Municipais e de Desenvolvimento Regional são áreas relacionadas às pautas que considero importantes. A definição dos assentos, porém, depende da composição política e da organização da Casa. Meu objetivo é ocupar espaços nos quais seja possível fiscalizar, propor medidas e acompanhar a execução das políticas públicas.
Folha - A Lagoa de Araruama é o maior patrimônio ambiental e econômico da Região dos Lagos, mas sofre com episódios de extravasamento de esgoto e falhas na rede em tempo seco operada pelas concessionárias Prolagos e Águas de Juturnaíba. Como você pretende atuar junto à Agenersa para fiscalizar o cumprimento dos contratos de concessão e garantir o avanço da rede separativa absoluta nos municípios banhados pela laguna?
Ana Paula - A Lagoa de Araruama é fundamental para o meio ambiente, o turismo, a pesca e a economia da nossa região. Não podemos tratar episódios de extravasamento de esgoto como se fossem situações normais. Como deputada, quero acompanhar de perto a atuação das concessionárias e cobrar da Agenersa informações sobre o cumprimento dos contratos, as metas de saneamento, os investimentos previstos e as providências adotadas diante das falhas. Também considero importante promover debates e audiências públicas com os órgãos reguladores, as concessionárias, os municípios e a sociedade civil. A rede separativa absoluta e a destinação adequada do esgoto precisam ser tratadas com planejamento, fiscalização e transparência. Meu papel será cobrar informações, acompanhar os compromissos assumidos e buscar medidas para que a população saiba o que está sendo feito, quais são os prazos e quem responde pelos resultados. Destaco aqui também a luta pela revisão da tarifa mínima de água. Está no contrato. Mas precisamos discutir essa situação. Não é possível que uma família que gasta apenas três metros cúbicos de água continue pagando pelo uso de 10 metros cúbicos. Isso não é justo. Esse ponto pretendo discutir com a Agência Reguladora e a concessionária. E para isso, vou propor uma frente parlamentar com deputados eleitos da Região dos Lagos para que possamos lutar, juntos, por essa mudança.
Folha - A população da Região dos Lagos enfrenta diariamente gargalos na regulação de leitos pelo SISREG, escassez de atendimento especializado e filas para exames e cirurgias de alta complexidade. Como será a sua atuação na Alerj para descentralizar os serviços de saúde do estado e melhorar o atendimento na região?
Ana Paula - A saúde é uma das questões que mais ouvi ao longo da minha trajetória no jornalismo. O paciente não pode ficar sem informação sobre uma consulta, um exame, uma transferência ou uma cirurgia. E não é razoável que moradores do interior precisem percorrer grandes distâncias para ter acesso a atendimentos especializados. Quero trabalhar pelo fortalecimento da atenção básica, pela ampliação da oferta de especialistas e exames no interior e pelo fortalecimento dos polos regionais de atendimento. Também será necessário cobrar transparência na regulação, critérios claros de prioridade e informações acessíveis sobre a situação dos pacientes na fila. Outra preocupação é o atendimento oncológico, que exige diagnóstico e tratamento no tempo adequado. A atuação parlamentar deve combinar fiscalização, diálogo com os municípios e cobrança ao Governo do Estado para que a distribuição dos serviços seja menos desigual. O ideal é que Cabo Frio tenha atendimento oncológico completo, evitando que pacientes da região tenham que precisar de transporte para tratamento na capital ou até em outras cidades, como Campos e Macaé. Outro gargalo importante é a falta de atendimento pediátrico de urgência e emergência na Região. São poucas vagas e muitas vezes, as crianças são transferidas para unidades em Araruama, Niterói, São Gonçalo e Rio. São poucas unidades na Região dos Lagos com UTI infantil e neonatal. Minha meta é conseguir um Hospital Pediátrico Regional, com sede em Cabo Frio, para atender crianças que precisam de atendimentos mais complexos, sem necessidade de se deslocar para outra cidade. Esse trabalho também será feito em parceria com outros deputados eleitos pela região.
Folha - Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP-RJ) mostram a expansão de facções e a alta nos índices de criminalidade em bairros periféricos dos municípios da Região dos Lagos. De que forma o seu mandato pretende cobrar do Governo do Estado o reforço do efetivo do 25º BPM e do novo 42º (Araruama), a valorização das polícias e investimentos em inteligência policial para a nossa região?
Ana Paula - Segurança pública exige planejamento, presença do Estado, inteligência e valorização dos profissionais que atuam diariamente nas ruas. A população da Região dos Lagos precisa ter o direito de viver e trabalhar com tranquilidade, e os policiais precisam de condições adequadas para exercer suas funções. Quero ouvir os comandos das forças de segurança, os profissionais que estão na linha de frente e os municípios para compreender as necessidades de cada área. A partir desse diagnóstico, será possível cobrar do Governo do Estado informações sobre o efetivo disponível, a distribuição do policiamento, os recursos destinados à região e as estratégias de enfrentamento ao crime organizado. Também considero fundamental acompanhar os investimentos em inteligência e integração entre as forças de segurança. O mandato deverá fiscalizar as ações e cobrar resultados, respeitando as competências de cada órgão.
Folha - Muitas escolas da rede estadual na Região dos Lagos enfrentam problemas recorrentes com falta de climatização nas salas, falta de energia elétrica, déficit de professores em disciplinas exatas e evasão escolar no ensino médio. Quais propostas você pretende levantar na Alerj?
Ana Paula - A escola pública precisa oferecer condições dignas para estudantes, professores e funcionários. Não podemos falar em qualidade da educação quando existem problemas de infraestrutura, falta de professores e dificuldades que prejudicam o aprendizado. Denunciei neste ano que, em junho, no meio do ano, o Colégio Estadual Miguel Couto, o maior da Região dos Lagos, estava sem professores de português e matemática. Ou seja, os alunos perderam metade do ano letivo sem essas aulas. Só depois dessa denúncia é que os profissionais foram contratados. E não é uma realidade só de Cabo Frio. Várias escolas ainda sofrem com a falta de professores, motivada pela desvalorização da classe. Quero acompanhar a situação das escolas estaduais da Região dos Lagos e cobrar da Secretaria de Estado de Educação informações sobre manutenção, climatização, fornecimento de energia e preenchimento das vagas docentes. Também considero necessário discutir medidas para reduzir a evasão escolar, com atenção às dificuldades econômicas e sociais que levam muitos jovens a abandonar os estudos. A fiscalização do orçamento, a cobrança por cronogramas de melhorias e o diálogo com as comunidades escolares serão instrumentos importantes. As propostas legislativas deverão partir das necessidades identificadas e de medidas que possam ser efetivamente implementadas.
Folha - Sua trajetória pessoal e profissional ganhou forte repercussão pública após os desdobramentos do seu retorno da licença-maternidade na Inter TV. De que forma a pauta dos direitos da mulher trabalhadora, do combate à discriminação materna no mercado de trabalho e do apoio à primeira infância será trabalhada por você na Alerj?
Ana Paula - A maternidade é uma experiência que traz questões muito concretas para a vida das mulheres, inclusive no mercado de trabalho. Nenhuma mulher deveria ser prejudicada profissionalmente por se tornar mãe. O que aconteceu comigo também acontece com metade das mulheres que voltam da licença-maternidade. Elas são demitidas, muitas vezes, porque a maternidade vai interferir na produtividade delas, segundo os patrões. E isso é um absurdo. Eu me vi em uma situação muito difícil, com um filho pequeno para criar. Mas, felizmente, tive a oportunidade de me reerguer e ter uma outra atividade independente como jornalista. Mas não é o que acontece com a maioria das mulheres, que enfrentam dificuldades para voltar ao mercado simplesmente pelo fato de terem crianças pequenas. É preciso garantir respeito aos direitos trabalhistas, combater a discriminação e ampliar as condições para que as mulheres possam conciliar trabalho, cuidado e vida familiar. Quero dar atenção a essas questões na Alerj, acompanhando a aplicação das leis, debatendo políticas públicas e buscando medidas que apoiem as mães e a primeira infância. A oferta de creches e o acesso a serviços que apoiem o desenvolvimento das crianças são temas importantes nesse debate. Minha trajetória profissional e a experiência da maternidade me aproximam dessas questões, mas sei que elas não são individuais: fazem parte da realidade de muitas famílias. Quero contribuir para que essas demandas sejam ouvidas e tratadas com seriedade.
Folha - Com quase 200 mil seguidores nas redes sociais e uma carreira consolidada na comunicação, de que maneira você pretende utilizar esses canais para garantir a transparência do seu gabinete e manter a população da Região dos Lagos participando diretamente das decisões e fiscalizações do seu mandato?
Ana Paula - A comunicação será uma ferramenta importante para aproximar o mandato da população. Ao longo da minha carreira, aprendi que as pessoas precisam de informação clara, acesso às decisões e respostas sobre os problemas que enfrentam. Quero usar as redes sociais para prestar contas do trabalho, explicar projetos, divulgar agendas, mostrar fiscalizações e informar quais providências foram solicitadas aos órgãos públicos e quais respostas foram recebidas. A meta é ter, literalmente, um jornal diário via redes sociais, fazendo uma prestação de contas com o eleitor sobre o trabalho desenvolvido. Também quero manter canais de escuta, com espaço para sugestões, reclamações e demandas dos moradores. As redes sociais não podem servir apenas para divulgar o que o mandato faz; elas precisam ajudar a identificar o que a população espera e acompanhar o encaminhamento dessas questões. A transparência exige mostrar não só os resultados, mas também as dificuldades, os prazos e o andamento de cada demanda. Quero que as pessoas consigam acompanhar o mandato e cobrar de mim o mesmo compromisso que sempre cobrei das autoridades como jornalista.




