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"Sou um dos culpados pelos presídios lotados", diz policial Mauro Bernardo

Ícone da região, com 33 anos de PM, subtenente fala que 'só teme a morte'

08 maio 2015 - 22h00
"Sou um dos culpados pelos presídios lotados", diz policial Mauro Bernardo

Repórter: Fernanda Carriço

O jeito franco, sério e austero de ser não agrada muita gente, mas ele não liga para isso. Para ele, o que mais importa é prender quem está cometendo algum delito. Mauro Bernardo, um dos policiais mais conhecidos da região, que tem 33 anos dedicados à Policia Militar, solta o verbo nessa entrevista e admite: não é nada sociável. Não gosta de música, de churrasco, de festa e não gosta de gente na casa dele, ou de ir na casa dos outros. Para Bernard, em hora de lazer, o que vale é assistir algum filme policial “sem muita mentira” e dormir. Ele não é riso frouxo, mas sabe que dispara pérolas com a coragem de poucos: “O que Romário fez por Cabo Frio para ter título de cidadão?”.  

Folha dos Lagos – Como você se definiria?

Mauro Bernardo – Mauro Bernardo é um cidadão comum, do povo, com cinco filhos, seis netos, e que gosta de combater a criminalidade. Não me aposentei porque eu amo o que faço. Quando o cara ama o que faz, só sai quando não tiver mais jeito mesmo, quando não tiver condições físicas. Enquanto eu estiver bem fisicamente, eu vou continuar combatendo. Bernardo é isso, é um cara que respeita a família do traficante, do bandido, tanto que os familiares não têm raiva de mim.

Folha – Você nasceu na cidade do Rio de Janeiro, mas se sente cabofriense?

Bernardo – Ah, eu me sinto. Vários vereadores já quiseram me dar titulo de cidadão. Eu recusei porque já me considero cidadão. Por quê? Eu tenho seis netos aqui e três filhos. E o cidadão cabofriense é aquele que faz por Cabo Frio. Eu vejo pessoas ganharem título de cidadão que não fazem nada por Cabo Frio. Romário, o que fez por Cabo Frio? Renato Gaúcho, o que fez por Cabo Frio? Só passou aqui, é famoso e tem título? 

Folha – Tem noção de quantas pessoas você já prendeu? 

Bernardo – Eu sou um dos culpados pela lotação dos presídios (risos). Faz um calculo aí... Todo serviço tem média de duas pessoas presas. Se eu trabalho dez dias por mês e tenho 33 anos de PM, multiplica em 33 anos e vê quantas pessoas foram presas [7.920]. 

Folha – Alguma prisão que tenha te marcado?

Bernardo – Uma que marcou foi em São Pedro, que nós apreendemos 7 mil cápsulas de cocaína, 60 quilos de maconha, prendemos oito pessoas de uma vez, sem dar um tiro, todos do Jacarezinho. E outra ali na Favela do Lixo...Várias prisões. Para mim qualquer prisão é boa, desde que eu tire o traficante da rua. Se tirei o traficante da rua, estou salvando meus filhos, meus netos,  o filho de vocês e o neto de vocês, para que não entrem para o tráfico. 

Folha – Você é um avô babão?

Bernardo – Não, eu sou meio antissocial. Não gosto de visita, não gosto de churrasco, não bebo, não fumo. Não sou muito aquele avô que fala: “ah, meu netinho”. É isso aí que eu sou como você me vê na rua. “Oi, tudo bem? Tudo bem”. Acabou. 

Folha – Você é bem humorado? 

Bernardo – Ah, eu me considero. Acho que eu poderia, depois de me aposentar, contar umas piadas por aí [risos].

Folha – Vai à Igreja?

Bernardo – Só quando passo em frente. Todo dia estou na Igreja, porque estou aqui na Praça Porto Rocha. E acho que sou mais frequentador da Igreja do que qualquer católico. Agora mesmo estamos em frente a ela. 

Folha – Mas acredita em Deus?

Bernardo – Eu posso não ser aquele católico demais. Mas acredito em Deus. Já passei por alguns problemas, rezei, pedi e resolveu, tanto que estou aqui. Nunca me acertaram um tiro. Já deram, mas nunca acertaram. Então, tem que acreditar. 

Folha – Você anda livremente, sem colete à prova de balas.... Não tem medo?

Bernardo – Eu não tenho medo porque tem uma frase que eu guardei: “Quem quer vitória, vai à guerra. Pode morrer ou pode ter vitória. E quem não vai  já está morto”. Então é o que eu falo: vou à guerra. 

Folha – Qual a pior facção criminosa pra você?

Bernardo – Olha, para mim, em Cabo Frio, a pior é o Comando Vermelho, porque administra 90% das favelas. Eles são os únicos que dão problema, que trocam tiro. A outra facção está quieta. Com isso, está ganhando espaço no Rio de Janeiro, em tudo o que é lugar, porque  não dá problema. Eu não gosto do pessoal do Comando Vermelho porque acho eles folgados, mas no final é tudo frouxo. 

Folha – Qual é o pior tipo de bandido?

Bernardo – Ah, para mim o pior tipo de bandido é aquele que mata criança, né?! Esse eu não perdoo de jeito nenhum. Estuprador e assassino de criança, para mim, não existe pior. Já que não tem pena de morte, deveria ser prisão perpétua, mas prisão de verdade. Prisão que o cara vê a família, tem relações sexuais com a esposa, não... Prisão é prisão, não tem que ter nada. 

Folha – Qual a pior droga?

Bernardo – É o crack.

Folha – Você vê muito crack em Cabo Frio?

Bernardo – Hoje duas facções vendem crack. O resto não vende. O crack é ruim até para o traficante. Nós, policiais, quando vemos os viciados andando, sabemos onde tem a boca. A gente fica escondido e rapidamente prende o traficante. Os próprios traficantes não querem mais os ‘cracudos’ por perto. Só tem duas favelas que vendem crack em Cabo frio.

Folha – Quais são?

Bernardo – Não posso dar o endereço, senão os cracudos vão querer ir lá comprar [risos].

Folha – Concorda que a região piorou depois das UPPs no Rio? 

Bernardo – Não. A questão é um problema social. Eu posso dizer isso porque já estou há 33 anos na PM, trabalhando direto na rua. Não sou aqueles filósofos que ficam lendo livros, que ficam procurando razões na historia. Eu vivo. Como é o problema social? Primeiro, você vai na favela, agora, e tem uma porção de criança pelas ruas. E os pais? Onde estão? Ninguém sabe. Deveria haver uma lei para que essas crianças fossem levadas para o colégio, para ficar das 7h às 19h, e no sábado e domingo passear no jardim zoológico, num parque, para não entrar na droga. As crianças ficam lá na rua sem ter o que fazer. Aí o cara passa e fala: faz isso aqui para mim, dá dez reais. E aí já viu...

Folha – Qual o pior problema hoje em  Cabo Frio? Assalto, tráfico...?

Bernardo – Ah, é o tráfico, não tem nem comparação. O roubo vocês têm que entender que não tem como não ter. Como a cidade é pequena, dois, três roubos por semana, parece que é o fim do mundo, mas não é. Você vê: tem muita gente trabalhando que já foi envolvida com tráfico, com roubo, e que largou essa vida para trabalhar. Se perdem os empregos, voltam de novo. 

Folha – Você daria emprego para um ex-detento?

Bernardo – Para trabalhar na sua casa, na minha não [risos].

Folha – Acha que as pessoas têm medo de você? Você gosta de causar isso?

Bernardo – Não acho que têm medo. Eu passo na rua, vem uma mãe com uma criança... A mãe chama: “ah, esse aqui está doido para conhecer o senhor, seu Bernardo”. Elas não têm medo. Têm respeito. A própria família do traficante me respeita porque sou policial e o cara é traficante. Não tem jeito. Você vai na delegacia e não tem nenhum registro de ocorrência de que eu bati em alguém. Não sou violento. Sou justo. Tá preso, tá preso.

Folha – Tem algum super herói que você admire?

Bernardo – Não gosto disso, mas, se eu pudesse ser algum super herói, eu seria o Batman. 

Folha – Por quê?

Bernardo – Ah, porque acho bonita a roupa dele, toda preta. E gosto da musica [canta]: tananananananam, batman [risos].

Folha – É verdade que você vai ser candidato a prefeito?

Bernardo – Lógico que não. Como eu falei, eu sou meio antissocial, eu não gosto de ficar rindo para todo mundo, de apertar a mão de todo mundo, não gosto de ir na casa de ninguém, não gosto de ninguém na minha casa, não gosto de musica alta, não gosto de festa, não gosto de nada. Como vou ser prefeito? 

Folha – O que você gosta de fazer quando está de folga?

Bernardo – Vejo um pouco de televisão, uns filmes policiais, sem muita mentira. 

Folha – Como surgem os nomes das operações?

Bernardo – São para desmoralizar o tráfico. Por exemplo: “O que você foi fazer no mato, Maria Chiquinha?, “Ciranda, Cirandinha”, “Levanta, Maria Bonita”, quando é de manhã. A última foi “Isso aqui não é meu, mamãe”. O cara dentro da boca de fumo, quando viu a gente, correu, sentou na barbearia e fingiu que estava cortando o cabelo. Quando nós chegamos com a droga, ele falou: não, mamãe, isso aqui não é meu não. 

Folha – Quando você acorda para ir ao trabalho, qual a primeira coisa que vem à cabeça?

Bernardo – Fico doido para prender. Já fico pensando assim: “Quem será que vai preso hoje?” 

Folha – Alguém já tentou te subornar?

Bernardo – Agora, não mais. Quando leem meu nome já [na farda],  não tentam. 

Folha – Qual um recado seu para a sociedade?

Bernardo – Você que é pessoa do bem, que trabalha, que estuda, que não está no tráfico, continue tranquilo. Agora, você que está no trafico, não fique tranquilo porque sua hora vai chegar.

Folha – Você tem medo de alguma coisa?

Bernardo – Só da morte.