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Opinião

Heranças do Sal, um acervo por ser descoberto

24 abril 2018 - 12h44Por Ivo Barreto
Heranças do Sal, um acervo por ser descoberto
Trabalhadores da estiva no Porto. Foto: Acervo Wolney Teixeira

 

Por Ivo Barreto*

Os remanescentes materiais decorrentes dos processos econômicos e sociais que mobilizam as transformações das cidades são, via de regra, espaços extremamente valorizados. Não falo aqui de valor econômico (embora no caso de Cabo Frio o binômio terra e recursos sempre tenham caminhado juntos), falo de valores que extrapolam isso, valores simbólicos, valores afetivos, valores para a memória, espaços sociais catalizadores da busca por pertencimento. É natural, portanto, que os espaços vivenciados por muitas pessoas e ao longo de muito tempo, sejam detentores do interesse coletivo e demandem atenção especial de gestores para sua preservação, na medida em que aglutinam a soma de valores de sujeitos diversos e materializam suas projeções de desejos de memória. Até por ser diverso, um mesmo bem cultural pode ter, para grupos diferentes, significados tão distintos como legítimos, ambiguidade que apenas reforça a pertinência de sua preservação.

Historicamente esta lista do que nos habituamos chamar patrimônio respondia a princípios nem sempre tão abrangentes, prevalecendo, de certa maneira, o chamado “patrimônio consagrado”: bens cuja premissa dialoga sempre com um entendimento do que representa o artístico (entenda-se, erudito) ou o histórico (entenda-se, oficial ou vitorioso), se possível, e preferencialmente, com um gostinho de excepcionalidade.

Se analisamos a história de Cabo Frio para além desta lista consagrada, indo mais a fundo e caminhando no tempo com olhar atento ao seu passo, nota-se que as heranças remanescentes, mesmo aquelas cuja resultante dialoga com os aspectos mais da tônica de escolha de nossos patrimônios, notamos rugosidades pouco tateadas, fios soltos que, uma vez puxados com a paciência e cautela de um pescador, são capazes de trazer às mãos surpresas que ignoramos. Não por vontade, longe disso, mas talvez, e em parte, pela velocidade tremenda das transformações urbanas atuais ou mesmo pela bifurcação distante de caminhos que o desenvolvimento das cidades possam ter tomado, encarregando-se de embaçar a vista para paisagens que até bem pouco tempo (e acreditem, nem tanto tempo assim) mobilizavam o cotidiano de populações inteiras.

Vila operária com capela, em salina tradicional de Arraial do Cabo. Foto: Fabrício Jotha

 

A história Sal, ou melhor dizendo, a história que nos proporciona o Sal, especialmente na Região dos Lagos, é a tradução que me parece mais literal desta catarata. Falar do processo histórico de Cabo Frio sem falar do sal e da navegação seria, em uma comparação pertinente, falar de Vassouras, sem falar do café e da ferrovia. Especificamente no caso de Cabo Frio, embora a produção tenha relatos que remontam o século XVII, é a partir do XIX que a produção torna-se avassaladora, avançando em escala crescente por mais de um século até pelo menos a década de 1970. Embora crises eventuais existissem, o que começou em Cabo Frio (abrangendo as atuais São Pedro da Aldeia, Arraial do Cabo e Araruama) como a construção de um processo pré-industrial de grandes proporções espaciais, abrangendo o agenciamento pelo homem de imensas áreas de terra nas margens da Lagoa de Araruama, adentrou a segunda década do século XIX com sede de ampliação e ímpetos de inovação com do empreendimento de Perynas (1824), esticando vida ativa na política desenvolvimentista de Vargas, com a fundação da Álcalis, tocando ainda a chegada, tão desejada e tardia, das linhas da modernidade da Estrada de Ferro Maricá, em 1937. Um projeto de desenvolvimento industrial ancorado num plano nacional e de pés fincados na produção salineira que, malogrado o planejamento por fatores variados, colheu um fim derradeiro e precoce, carregado sobre a influência assertiva do rodoviarismo crescente (que chegaria com estrada asfaltada até São Pedro da Aldeia em 1955 e a Cabo Frio em 1965) e veria naufragar seus planos embalados pelas novidades que trariam as águas de março de 1974: a inauguração da Ponte Rio Niterói e a implementação do Porto Ilha, no Rio Grande do Norte. Enquanto a ponte escancarava as portas ao turismo de praia, o porto no nordeste resolvia a logística do sal concorrente e apontava futuro a esmo para os cataventos daqui, que paulatinamente pararam de bombear as águas da Araruama para os cristalizadores de sal.

Antiga Estação Ferroviária de Cabo Frio ainda existente, em estilo Art Decó. Fonte: Ivo Barreto, 2010.

 

Capela nas proximidades da antiga casa de Miguel Couto, em Perynas. Foto: Ivo Barreto, 2010.

 

Casa de Miguel Couto, em Perynas. Foto: Ivo Barreto, 2010.

 

Remanescentes da antiga Refinaria de Sal de Perynas. Foto: Ivo Barreto, 2010.

 

Sim, esta mudança aconteceu rápido demais. Em pouco mais de 15 anos, as imagens aéreas da cidade recentemente descobertas já revelam, entre 1955 e 1966, a abertura de vias urbanas em áreas ainda sem ocupação, vetores novos do crescimento da cidade em atuação. Consultando ainda o fabuloso acervo de Márcio Werneck da Cunha, uma pasta suspensa de etiqueta “Sal” revela reportagens que tratam de maneira recorrente da ampliação do estoque imobiliário avançando sobre as antigas áreas de salinas, publicadas com constância desde 1979 em jornais variados.

Imagem aérea de 1955, entre São Pedro da Aldeia e Cabo Frio. Áreas majoritariamente rurais, e núcleo urbano discreto em SPA, e imensas áreas de salinas (em destaque). Fonte: Acervo IBGE, edição Ivo Barreto.

 

Imagem aérea de 1966. Ainda contendo imensas áreas dedicadas à atividade salineira (em destaque azul), novos arruamentos, ainda sem edificações, mostram vetores de um novo crescimento urbano já em atuação. Fonte: Acervo IBGE, edição Ivo Barreto.

 

Embora o registro seja do início de um trajeto trágico ao sal fluminense, felizmente o olhar atento não deixa escapar o fio a ser puxado. Se do período pré-industrial são imensamente conhecidos os cataventos, muitos deles centenários, nem tão conhecidas e estudadas são as vilas operárias deste período que se espalham pela atual Arraial do Cabo, então Cabo Frio, revelando uma estratégia urbanística de ocupação das áreas salineiras em suporte ao cotidiano dos trabalhadores, muitas dotadas de capela e padrão de casas. O que comentar ainda dos remanescentes da pioneira Refinaria de Perynas, a capela de torre única ou a própria casa de Miguel Couto, um de seus antigos proprietários, e todo o complexo de casas de operários e equipes técnicas de chefia e engenharia, que estruturavam uma vida social atrelada à fábrica? Saberão todos os cabofrienses que a antiga Estação Ferroviária de Cabo Frio ou que no antigo Porto do Sal ainda resistem ao tempo, modais logísticos fundamentais para o escoamento da produção do sal por séculos, espaços sociais marcadamente ligados e vivenciados pela população negra e pobre como alternativa de trabalho, e nos quais os arranjos de solidariedade privilegiavam, por acordos socialmente estabelecidos entre os trabalhadores, aqueles que estavam há mais tempo sem desempenhar atividade remunerada?

Atividade da Estiva no Porto de Cabo Frio, meados do século XX. A pujança e a dinâmica do porto contrasta com a precariedade das condições de trabalho. Fonte: Acervo Wolney Teixeira.

 

Todos estes bens culturais ainda existem e, dentro do novelo da história, ainda lutam para se desvencilhar dos fios da invisibilidade, aguardando que puxem a ponta solta da linha. Muitas pautas da cidade conectam-se a eles e deles podem coletar solução, desde o problema da habitação de interesse social, que carece de estoques de terra disponíveis para a solução de mazelas habitacionais, sem implicar em imensos deslocamentos dos grupos residentes, ou até mesmo pautas estratégicas como o tão demandado Centro de Convenções, que auxilie a tornar o turismo da cidade menos predatório, ampliando possibilidades de arrecadação e o giro econômico interno, e que poderia se valer da reutilização de grandes edificações industriais. Para isso a política urbana precisa avançar, abordar com seriedade e prioridade a implementação das leis complementares do Plano Diretor, implementar o Plano Local de Habitação de Interesse Social - PLHIS, este último já elaborado, mas empoeirando em alguma estante sem atenção.

Seja como for, este é um novelo que não se puxa de uma só vez. É uma linha tênue, um patrimônio frágil e amplo demais, cuja preservação exige um recorte necessário de encarar, reconhecendo o valor daquilo que compõe a espinha dorsal e irrevogável do complexo de produção e logística e de escoamento do Sal, perfazendo uma linha de leitura de seu processo histórico, sem ceifar pedaços fundamentais. Como falávamos de início, tal qual boa parte do Patrimônio Industrial, o Patrimônio do Sal nem sempre mira o artístico, caminha pela simplicidade de formas e soluções. Sua utilização é diversa e a escolha do recorte a ser preservado deve ser sensível a esta sua característica, sem menosprezar seu valor, sem se render a vícios de condutas já superadas. É necessário prezar pela diversidade de narrativas, sejam elas protagonistas políticas ou de base popular. Em tempos de ataques vorazes e perda de direitos, definitivamente não é tempo de abrir mãos da nossa memória. É tempo de pensarmos caminhos para sua preservação integrada à vida cotidiana de nossas cidades.

 *Ivo Barreto é arquiteto e urbanista, Mestre em Projeto e Patrimônio.