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OPINIÃO

As areias da Praia do Forte sob os efeitos da Natureza Humana

15 janeiro 2020 - 14h22Por Flávio Costa Piccinini
As areias da Praia do Forte sob os efeitos da Natureza Humana

A Praia do Forte tem as características das praias arenosas - constituída por sedimentos finos não consolidados e pequena declividade - cuja morfologia depende de vários fatores.

Portanto, a face da praia é resultado das ondas, da granulometria das areias, das correntes marinhas e do cordão arenoso, entre outros.

As ondas de gravidade transportam energia e na arrebentação progressiva movimentam, selecionam e depositam continuamente os grãos nas areias da praia. Os ventos transportam os sedimentos finos, que formam as dunas, cobertas pela vegetação de restinga.

Esta seria a paisagem de um processo natural desejado por todos.

Em situação climática adversa - nas ressacas - o mar avança e as ondas dissipam grande quantidade de energia, erodindo a praia e o cordão arenoso.

Consequentemente, as características físicas e o perfil da praia mudam sazonalmente em resposta às mudanças no padrão das ondas. A faixa de areia da praia progride em direção à costa, até o limite alcançado pelas ondas de ressaca.
Em períodos seguintes, após a passagem dos eventos atmosféricos adversos, os sedimentos então erodidos e transportados para o mar retornam gradativamente para a face emersa.

É dessa forma que a natureza mantém o ambiente em permanente equilíbrio no decorrer do tempo. Neste contexto, o perfil praial, tanto a zona emersa como a submersa, é resultado da ação conjunta do padrão hidrodinâmico que interage reciprocamente com a morfodinâmica, em função da variabilidade do clima e do equilíbrio dinâmico das ações do mar, terra e ar.

Logo, para o desejado equilíbrio natural deste ecossistema é imprescindível a manutenção do cordão arenoso (duna frontal), que desempenha a função de uma eficiente barreira de proteção costeira.

Ocorre que na Praia do Forte, em especial no arco praial do canto esquerdo, houve uma supressão antrópica que deu “sumiço” nas dunas. Isso causou o desequilíbrio neste processo natural. O ecossistema resultou interrompido - não havia dunas no pós-praia para manter a face da praia em um gradiente equilibrado por ocasião das ressacas.

Em consequência, as águas espraiadas se depararam com as barreiras rígidas, como muros e pedras, que ao invés de dissiparem a energia das ondas, refletiram a energia solapando o assoalho arenoso.

O que vivenciamos hoje na Praia do Forte é um ambiente degradado pela inexistência das dunas frontais. Então sobrepostas pelas construções próximas da linha d’água, principalmente pela Avenida do Contorno, o que impede a mobilidade natural da faixa de areia.

Por exemplo, a Praia de Geribá, também foi atingida fortemente pelas últimas ressacas. Mas, diferentemente da Praia do Forte, naquela praia as ressacas foram contidas pelo cordão arenoso, ainda que reduzido pelas construções próximas da linha d’água. Assim, a famosa Praia de Geribá mantém uma satisfatória faixa de areia para seus habituais apreciadores. Igualmente, a Praia das Dunas do Peró, ainda preservada, é outro exemplo satisfatório.

Relembrando, em passado recente, em meados do ano de 2010, uma forte ressaca causou danos significativos e levou por água abaixo metade da pavimentação da Avenida do Contorno. As águas do mar somente não atingiram o Hotel Malibu devido à dissipação gradativa da energia que gerava as forças adversas. Na ocasião, a altura significativa das ondas atingiu cerca 4 metros. Coincidência ou não, poucos anos antes fora realizada a dragagem no Canal do Itajuru, mas em 2010 já se observava novamente assoreado.

A história mostra que a ocupação da orla da Praia do Forte teve origem nas adjacências do arco praial, canto esquerdo, e proximidades da Avenida Nilo Peçanha. A partir da segunda metade do século XX ocorreu a urbanização da orla, com edificações, arruamentos e infraestrutura. Seguiram-se os prédios de múltiplos andares, o alargamento da Avenida do Contorno e o deck em madeira. Mais recentemente, a Praça das Águas e os quiosques deram sequência à ocupação – tudo avançando em direção ao mar.

Estas obras confinaram as areias que constituíam o eficiente depósito arenoso para atenuar as ressacas.

Destarte, os idealizadores destas ações ignoraram, em passado recente, o conflito que haveria no presente.

A urbanização que avança em direção ao mar é incompatível com a hidrodinâmica marinha!

O resultado desta recorrente e infeliz ação humana também contribuiu para os veios acinzentados que hoje escurecem as alvas areias quartzosas da praia. As pedras então espalhadas têm componentes de pigmentação escura: mica e feldspato. A vegetação exótica, não edáfica, entrou em decomposição. A estrutura metálica do deck se encontra em processo de corrosão, com a deposição do óxido de ferro nas areias, entre outros fatores. Consequentemente, o atual estado da coisa decorre do descaso dos agentes públicos e da sociedade, apesar dos ditames legais. Tal conduta decreta paulatinamente a falência das praias e a perda do potencial turístico-econômico.

Logo, podemos afirmar com certeza que a orla marinha – zona marinha e a faixa terrestre – se constitui em um ecossistema indissociável. Sendo a duna frontal ou cordão arenoso, um fator abiótico inserido na zona ativa da orla que não pode ser suprimido.

Paradoxalmente, sob um viés inverso, costumeiramente os gestores públicos fazem propaganda denominando as suas obras na orla de revitalização.

O Código Florestal de 1934 já estabelecia que a vegetação que servia para fixar as dunas era considerada “florestas protectoras”, “consideradas de conservação perenne e inalienáveis”. O Código seguinte, em 1965, definiu as restingas como Área de Preservação Permanente, seguindo-se este mesmo entendimento no Novo Código Florestal. Na orla da Praia do Forte há uma placa comemorativa à NOVA ORLA, com data em dezembro de 2010. Ocorre que em 2004 o Decreto Federal 5300 já havia definido as regras de uso e ocupação da zona costeira. Logo após veio o Projeto Orla, em 2006, no âmbito do Governo
Federal, com as recomendações que deveriam ser seguidas pelos Municípios para a implementação do Plano Municipal de Gerenciamento Costeiro.

Apesar de todas as ocorrências, na atualidade presenciamos as obras de recomposição da orla de Tamoios, erigidas sobre a duna frontal - Área de Preservação Permanente - sob a fictícia pretensão de conter o avanço do mar.

Assim, aguarda-se para um futuro breve a notícia de mais um “novo desastre ambiental”.

Semelhante situação de risco está exposta a faixa da Praia do Forte em frente à Praça das Águas. O depósito arenoso ali existente foi totalmente suprimido para dar espaço às atividades esportivas e aos shows musicais.

A persistir tal status quo – desproteção total contra o avanço do mar – em um futuro breve, o espetáculo será sinistro. O avanço do mar literalmente despejará as águas na Praça das Águas, que alcançarão os pilotis dos edifícios recentemente construídos e, possivelmente, a Praça da Cidadania.

Enquanto isso, esperamos que em algum dia os gestores públicos passem admitir que “a vida vem em ondas”..., como nos versos de Lulu Santos,

“Nada do que foi será de novo

Do jeito que já foi um dia Tudo muda o tempo todo no mundo

 Não adianta fugir

Nem mentir pra si mesmo...”

 

(*) Flávio Costa Piccinini é engenheiro.

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