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MEMÓRIA E CULTURA

Terceira temporada do projeto "Nossas Ruas", em Cabo Frio, está confirmada para outubro

Iniciativa do programa Amaury Valério, que resgata a história por trás dos nomes das vias da cidade, encerrou sua segunda fase recentemente e já prepara novos episódios

01 março 2026 - 11h05Por Redação
Terceira temporada do projeto "Nossas Ruas", em Cabo Frio, está confirmada para outubro

O resgate da identidade e da alma cabo-friense pelo programa Amaury Valério, na Rádio Ondas FM, ganhará um novo capítulo em breve. Após finalizar sua segunda fase no último dia 14 de fevereiro, o projeto documental "Nossas Ruas" já tem data para retornar: a estreia da terceira temporada está programada para outubro deste ano. Idealizado pelo radialista Amaury Valério, o projeto nasceu com a missão de impedir que a história do município se apague, criando uma ponte entre o passado e as novas gerações ao revelar quem foram as personalidades que dão nome às principais ruas da cidade.

Em conversa com a Folha, Amaury explicou que devido à grande quantidade de homenageados, o projeto precisou ser dividido em temporadas. Revelou, também, que tem como objetivo futuro expandir a cobertura para toda a Região dos Lagos. A primeira temporada foi exibida ao longo de 2024. A segunda estreou em 13 de outubro de 2025 e foi finalizada recentemente. A apresentação do projeto fica por conta da produtora Patrícia Bernardo.

– No final da década de 1980, no Brasil, a nomeação de ruas se consolidou como um importante ato político e de reconhecimento a líderes comunitários, vereadores e famílias tradicionais. Em Cabo Frio o "Nossas Ruas" já documentou a trajetória de mais de 20 dessas figuras ilustres, incluindo Adolpho Beranger Junior, Ézio Cardoso da Fonseca, Rosalina Cardoso da Fonseca, Antônio Feliciano de Almeida, Irmã Josefina da Veiga, Lecy Gomes da Costa, Alexis Novelino, Omar Fontoura, Henrique Terra, Hilton Massa, Victor Rocha, Joaquim Nogueira e Jorge Lossio - explicou Amaury.

O processo de apuração, no entanto, esbarra na escassez de registros. Segundo ele, a pesquisa se inicia nas atas da Câmara Municipal, “que frequentemente carecem de detalhes sobre quem foram os homenageados e os motivos da honraria”. 

– A busca pelas famílias também apresenta obstáculos: muitos descendentes já faleceram, mudaram-se da cidade ou não preservaram a memória de seus antepassados.

Para contornar essa lacuna, o projeto conta com o trabalho de pesquisadores, arquivistas e historiadores. Amaury destaca as contribuições de Agilson Garcia, um dos poucos cabo-frienses natos no grupo de apoio, detentor de um vasto acervo fotográfico e literário, e também do historiador José Francisco de Moura, de Margaret Alves (que atua na preservação dos arquivos da Câmara) e de Luciano Ribeiro, do Sebo Ventura, que forneceu obras raras sobre a região. Em alguns momentos o trabalho de apuração atravessou as fronteiras da cidade, exigindo consultas à Hemeroteca da Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, onde a equipe de produção buscou registros civis, certidões de batismo e fez pesquisas de campo.

– Durante a pesquisa de campo nas principais vias (como Henrique Terra e Major Belegard), nossa equipe constatou que 98% dos moradores, incluindo cabo-frienses, desconhecem quem são as pessoas por trás das placas - revelou o radialista.

Para atrair a atenção do público, tanto a produção como a apresentadora Patrícia Bernardo trouxeram uma inovação de formato na segunda temporada. Saindo do modelo estritamente documental da primeira edição, o projeto adotou a contação de histórias interativa e a dramaturgia, aproximando a narrativa não apenas dos amantes de história, mas também do público jovem.

– Para isso introduzimos a personagem Valéria, uma estudante recém-chegada a Cabo Frio que questiona o mundo ao seu redor. Patrícia, que é autista, trouxe para a personagem sua vivência pessoal: a paixão pelo conhecimento aliada a dinâmicas únicas de aprendizado. A interação bem-humorada de Valéria com o "narrador", suas infinitas perguntas e até mesmo seus "tombos" literais pelas ruas esburacadas e sem sinalização da cidade, geram imediata identificação no público e promovem uma reflexão crítica sobre a falta de preservação do espaço urbano. O questionamento central de Valéria - "O que vai mudar na minha vida saber quem são as pessoas que dão nome às ruas?" - instiga o público a entender que, sem olhar para o passado, é impossível projetar o futuro - explicou Amaury.

O rigor jornalístico do projeto já revelou curiosidades intrigantes e corrigiu distorções históricas. Durante a pesquisa sobre Antônio Feliciano de Almeida, por exemplo, a equipe encontrou registros de um vereador do século XIX. No entanto, um ouvinte contestou, afirmando tratar-se de seu avô, um comerciante da década de 1960. A falta de documentos por parte da família levou Patrícia e o historiador José Francisco a aprofundarem a apuração, descobrindo em jornais da época a existência de dois "Antônios Felicianos de Almeida", um fato que serviu de alerta sobre a necessidade de as próprias famílias documentarem seus legados.

Acessível e didático, com episódios de cinco minutos disponíveis no canal do Programa Amaury Valério, no YouTube, o material tem sido adotado por professores em salas de aula. O impacto gerou forte mobilização popular, com pedidos de moradores para que as secretarias de Educação, Turismo e Cultura transformem o conteúdo em material oficial para escolas e pontos turísticos.

Realizado de forma independente, o "Nossas Ruas" conta com o patrocínio da Engeluz, SuperFricarnes, Posto Estrela Dalva, Escola Menino Jesus, Salineira e OnkoSol. 

– É fundamental destacar que o projeto “Nossas Ruas” não é apenas sobre geografia ou urbanismo: é sobre identidade e pertencimento. Muitas vezes, caminhamos por ruas cujos nomes repetimos automaticamente, sem nos darmos conta de que ali, naquela placa, existe a história de alguém que ajudou a construir o que somos hoje. Quando revelamos quem foi aquela pessoa - um professor, um pescador, uma liderança comunitária -, nós devolvemos a humanidade à cidade. O mais emocionante nesse trabalho, realizado com tanto carinho no Programa Amaury Valério, é ver o brilho nos olhos dos moradores. É perceber que, ao conhecer o passado, as pessoas passam a cuidar melhor do presente e a ter mais orgulho de viver aqui. No fundo, este projeto é um convite para que a gente pare de apenas “passar” pelos lugares e comece a “sentir” a história viva de Cabo Frio sob os nossos pés. É um resgate da nossa alma cabofriense - relatou Patrícia.