Assine Já
domingo, 24 de outubro de 2021
Região dos Lagos
27ºmax
18ºmin
TEMPO REAL Confirmados: 52262 Óbitos: 2141
Confirmados Óbitos
Araruama 12321 438
Armação dos Búzios 6516 72
Arraial do Cabo 1720 92
Cabo Frio 14721 876
Iguaba Grande 5469 140
São Pedro da Aldeia 6984 288
Saquarema 4531 235
Últimas notícias sobre a COVID-19
SUSTENTABILIDADE NO CAMPO

Sítio em Cabo Frio alavanca produção de alfaces fazendo uso racional da água

Propriedade é a única do município que se utiliza das técnicas da hidroponia e aquaponia

28 setembro 2021 - 15h52Por Rodrigo Branco

Para muita gente, os caminhos para que um legume fresco ou uma hortaliça verdinha chegue à mesa do consumidor são desconhecidos. Em Cabo Frio, cidade famosa pelos cenários paradisíacos e pela atividade turística, uma propriedade rural na localidade do Chavão, no distrito de Tamoios, a cerca de 40km do Centro, se destaca por utilizar de meios sustentáveis para o cultivo de alface. O alimento é destinado ao abastecimento do comércio local e de cinco escolas públicas da rede estadual de ensino.

A produção agrícola familiar do casal Maria das Graças Chagas Coelho, 38, e Fábio Chagas, 41, dispensa agrotóxicos e o plantio direto no solo para apostar na hidroponia, técnica que usa um sistema interligado de canos dispostos em bandejas para a irrigação das plantas, cujo ciclo de desenvolvimento é de aproximadamente 90 dias, desde a semeadura até a colheita, já na fase adulta. O sítio onde moram é o único do município que faz uso do método para a plantação de alfaces.

Enquanto as sementeiras ficam numa área à parte, o ‘berçário’, local onde estão as hortaliças na fase intermediária, e os pés de alface prestes a serem colhidos encontram-se sob a mesma estufa, de sete metros de largura por 18 de comprimento. Recentemente, parte da produção de 20 mil pés de alface foi migrada para o sistema de aquaponia, que consiste na união entre a hidroponia tradicional com a piscicultura, em que os excrementos de peixes criados em um tanque servem de adubo para a fertilização da lavoura.

A hortaliça cultivada no sítio do Chavão é livre de agrotóxicos, segundo os produtores rurais                         (Foto: Mariana Ricci)

Do mesmo modo que a hidroponia, a água circula pelos dutos, impulsionada por uma bomba elétrica com um temporizador acoplado. Porém, neste caso, as plantas se alimentam dos nutrientes que existem no material orgânico expelido pelas tilápias, espécie escolhida pelos produtores para ser criada em cativeiro e posteriormente comercializada, convertendo-se em outra fonte de renda. Em ambos os casos, o sistema se retroalimenta, pois o líquido utilizado chega a um reservatório de onde será reutilizado. Toda a manobra proporciona uma economia de água da ordem de 90%, sem prejuízo para a qualidade do alimento cultivado. Pelo contrário, a alface vendida pelos agricultores familiares é inteiramente livre de pragas e de aditivos químicos que sejam nocivos à saúde humana, como explica Maria das Graças, técnica em Edificações por formação, que mora na propriedade há cinco anos.

– Não uso nada para tratamento. Falaram que era quase impossível de fazer hidroponia aqui porque a água é salobra. Mas existe alguma coisa nessa água que me ajuda. Porque olha como está a horta. Eu queria muito fazer a análise da água, até mesmo para saber o que tem nela que faz tão bem às plantas. Hoje os peixes se alimentam delas e você vê a qualidade das plantas – impressiona-se a produtora agrícola, que acorda diariamente às 4h da madrugada para dar conta dos afazeres da horta.

A família trabalha para expandir o negócio, com novas estufas e a utilização total dos seis tanques, com capacidade para cinco mil litros cada. A quantidade de peixes a serem utilizados na expansão do sistema ainda está em estudo por Maria das Graças e Fábio. Mas, se a pretensão ainda não se concretizou, o casal já conseguiu dar um passo adiante quanto ao uso eficiente de água. Uma estrutura composta por calhas, canos e um reservatório de 35 mil litros foi construída para captar a água da chuva, que é reaproveitada inclusive para as tarefas domésticas, como para a lavagem da louça.

Hidroponia salvou família de perder toda a produção

Fábio explica que a opção pela hidroponia em Tamoios foi uma aposta de risco, pois não se sabia qual a qualidade da água seria encontrada no subsolo da propriedade. Além disso, a estrutura para captação da água do poço poderia resultar inócua, por causa dos grandes períodos de estiagem na região. Antes do casamento, Maria das Graças já tinha experiência com a técnica de cultivo onde morava, em Barra de São João, enquanto o técnico em segurança Fábio tinha uma horta hidropônica, no apartamento em que vivia, em Rio das Ostras.

Por fim, a escolha revelou-se acertada não apenas pela economia de água e pela qualidade dos produtos cultivados, mas por evitar uma verdadeira catástrofe. Há cerca de dois anos, um temporal inundou o sítio, que fica situado nas proximidades do Rio São João e da bacia de Juturnaíba. A produção só não foi perdida porque as bandejas estavam suspensas, pois o nível da água da chuva ultrapassou a altura de um metro. Como se isso não bastasse, o aproveitamento quase total da água usada no processo tirou qualquer dúvida de que a opção pela hidroponia e, sobretudo, pela aquaponia, poderia ser um erro.

– Apesar de funcionar toda na água, a gente usa 5% de uma horta convencional. Porque a água tem um giro, ela circula. A gente só completa a caixa. Tem a evaporação, a planta absorve uma parte da água, vira e mexe tem uma goteira ou outra. Então, o consumo de água em si é muito pouco. Pra fazer uma irrigação tradicional no chão, com 10 mil litros de água, você nem molha a horta toda, e tem que molhar de manhã e de tarde. Então, por dia, ali brincando, dependendo do tamanho da horta, seriam usados 20 mil litros d’água – pondera.

 

"Não uso nada para tratamento. Falaram que era quase impossível de fazer hidroponia aqui porque a água é salobra. Mas existe alguma coisa nessa água que me ajuda. Porque olha como está a horta.

MARIA DAS GRAÇAS CHAGAS COELHO, PRODUTORA RURAL

 

Mas se o consumo de água não chega a ser um problema, a família tem que lidar com a dificuldade na compra das sementes, que são encontradas apenas em Teresópolis, cidade da Região Serrana, que é referência do estado do Rio de Janeiro no cultivo de hortaliças. O transtorno se repete para a aquisição de adubos e produtos como cálcio e magnésio, problema que já foi contornado em parte, com a transição da hidroponia para aquaponia, em função do caráter fertilizante dos excrementos dos peixes.

Para os especialistas, contudo, os benefícios do uso de métodos de irrigação compensam os possíveis percalços. Para o supervisor da parte agrícola da Secretaria Municipal de Agricultura, Fanini Lopes, é fundamental que os produtores rurais da região desenvolvam meios de expandir o uso da água em suas lavouras.

– Sabemos que o uso da água e a atividade agropecuária são dois assuntos intrínsecos. Eles estão completamente unidos, até porque nós dependemos desse fator para a produção agropecuária, seja por meio de irrigação, seja por meio de hidroponia, seja por meio de outros tipos de uso da água. E isso faz com que a produção tenha maior celeridade, a produtividade aumente e o produtor consiga ter uma produção anual. Se ficarmos dependentes apenas das precipitações, principalmente no município de Cabo Frio, vamos ter algumas culturas que vão definhar, porque precisam de regas constantes – explica.

Descubra por que a Folha dos Lagos escreveu com credibilidade seus 30 anos de história. Assine o jornal e receba nossas edições em casa.

Assine Já*Com a assinatura, você também tem acesso à área restrita no site.