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CALAMIDADE SOCIAL

Região dos Lagos tem 96 mil pessoas que sobrevivem com até R$ 89 mensais

Araruama e Cabo Frio integram lista dos 20 municípios com maior vulnerabilidade social 

26 junho 2021 - 13h07Por Rodrigo Branco

“O senhor pode comprar uma bala que é para eu poder levar um alimento para a minha casa?” A abordagem de Gustavo [o nome é fictício], de 17 anos, ao repórter na Praça Porto Rocha, no centro de Cabo Frio, é tímida, feita com a voz quase sussurrante. Ela ocorreu na tarde desta quarta-feira, dia 23 de junho, mas poderia ter sido feita em uma tarde qualquer dos últimos meses, quando a cena se tornou cada vez mais recorrente. Nas ruas da cidade, a face cruel da desigualdade social se revela pelo aumento perceptível de ambulantes, pedintes e pessoas em situação de rua. 

Segundo um estudo da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), baseado nos dados de janeiro do Ministério da Cidadania, os sete municípios da Região dos Lagos possuem 96.394 pessoas em situação de pobreza ou extrema pobreza, o que representa um percentual de 14,7% do total da população total estimada de Cabo Frio, Arraial do Cabo, Armação dos Búzios, São Pedro da Aldeia, Iguaba Grande, Araruama e Saquarema, que é de 655.210 habitantes.

Na lista dos 20 municípios do estado do Rio com o maior absoluto de pessoas em condição de extrema pobreza, Araruama e Cabo Frio figuram na 18ª e 19ª posições, com 29.928 e 29.093 cidadãos, respectivamente. O Ministério da Cidadania define como pessoas de famílias em situação de extrema pobreza aquelas com renda mensal por pessoa de até R$ 89, e em situação de pobreza aquelas com renda mensal por pessoa entre R$ 89,01 até R$ 178 por pessoa.

Com base nesse critério, em janeiro de 2021, 15,1% da população do estado do Rio estava abaixo da linha da extrema pobreza [abaixo de R$ 89 per capita], um quantitativo equivalente a 2,61 milhões de cidadãos fluminenses. Desses, 1,93 milhão estão na Região Metropolitana, o que equivale a 14,7% da população da região. Os números apontam que, percentualmente, o problema social é ainda mais grave do que na média do estado do Rio.

De acordo com o analista de Responsabilidade Social da Firjan Sesi, Wagner Ramos, o Rio de Janeiro é um dos estados da federação mais afetados em um país já severamente impactado pela pandemia do novo coronavírus, a partir de março do ano passado. O estudioso aponta que o contexto pandêmico empurrou milhares de pessoas para a zona de pobreza e extrema pobreza, inclusive na Região dos Lagos.

– Grande parte dessa população [em situação de pobreza] se concentra na capital e na Região Metropolitana, o que não quer dizer que os municípios do interior tenham dramas proporcionais à sua realidade social e econômica. Na Região dos Lagos, a gente percebe olhando para Cabo Frio e Araruama, que figuram entre os 20 municípios com maior índice de pessoas nessa situação. Isso por si só, é gravíssimo, mas não quer dizer também que municípios como São Pedro da Aldeia, Iguaba e Arraial, que são menores, não estejam vivendo seus próprios desafios. Isso significa que quando a população é empurrada para essas faixas, passa a viver em situação indigna. Passa a ter pessoas que não conseguem se alimentar – explica Wagner, que também é assessor do Conselho Empresarial de Responsabilidade Social da Firjan.

Saída da escola para trabalhar

Gabriel, o jovem citado no começo desta reportagem relatou a dificuldade de ter que abordar estranhos na rua para conseguir levar o sustento não apenas para si, mas para as gêmeas que sua mulher carrega na barriga, em plena gestação de sete meses. O casal mora com a mãe dele, no bairro Jacaré, a poucos quilômetros de onde ocorreu esse diálogo. 

O jovem relata que precisou parar de estudar assim que começou a pandemia para trabalhar. Somente vendendo doces e jujubas na rua, tem quatro meses. Nesse meio tempo, saiu do conjunto Minha Casa, Minha Vida, no Jardim Esperança para a casa da mãe.

“Fazia biscates em obras, mas agora arrumei um emprego numa pousada na Gamboa, só que é mais para o fim de semana. E agora com esse tempo, no inverno, tá fraco. Parece que está piorando cada vez mais. Espero que isso tudo passe para a gente ´poder trabalhar tranquilo e levar alimento para dentro de casa”.

Cobrada para amenizar o problema social na cidade, a Prefeitura de Cabo Frio aposta no lançamento da moeda social Itajuru, projeto nos moldes da moeda Mumbuca em Maricá. Segundo a Prefeitura, a princípio, cada família receberá 200 Itajurus, o que equivale a R$ 200, para compras em estabelecimentos comerciais que estão sendo cadastrados no bairro Manoel Corrêa, onde será implantado o piloto do programa. O projeto de lei que institui a moeda foi aprovado na semana passada pela Câmara Municipal, mas ainda precisa ser sancionado pelo prefeito José Bonifácio (PDT), de modo a ser implantado em até 120 dias. 

Em nota, a Prefeitura informou que, entre os projetos em andamento para redução das desigualdades sociais está o Polo e Desenvolvimento Econômico, que irá abrigar diversas empresas nos ramos comercial, industrial e de serviços, em uma área de 28 mil metros quadrados no Grande Jardim Esperança. O projeto está em tramitação na Câmara Municipal.

O governo municipal disse ainda que conta com equipamentos como o Centro de Acolhimento e Casa de Passagem, que de janeiro de 2021 até o dia 24 de junho, realizaram um total de 1.895 atendimentos individualizados às pessoas em situação de rua. Deste número 741 usuários foram acolhidos, 118 utilizaram o espaço apenas para higienização, 733 foram encaminhados, 85 receberam o benefício eventual de retorno às suas cidades de origem, 20 foram encaminhados para clínicas de recuperação, 240 retornaram para as ruas e 54 conseguiram se emancipar e alugar o próprio imóvel.

O texto cita ainda o projeto Cidadão em Construção, criado através de convênio entre a Prefeitura e o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), o objetivo é oferecer a oportunidade do primeiro emprego a 100 jovens cabo-frienses em situação de vulnerabilidade social, com idade entre 14 e 18 anos, sendo 50 meninas e 50 meninos de Cabo Frio e Tamoios. Por fim, a Prefeitura já licitou a compra de 31.863 kits de alimentação para alunos da rede municipal de ensino, com recursos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), relativo ao ano de 2020. Em breve, será divulgado o cronograma de distribuição.

"Ação não é só dos governos"

Na esfera estadual, acaba de ser implantado o Supera RJ, programa de auxílio emergencial que vai pagar R$ 200 mensais, acrescido de R$ 50 extras por filho. Receberão a ajuda pessoas cuja renda familiar per capita é igual ou inferior a R$ 178 e que estejam inscritas no Cadastro Único do Governo Federal (CadÚnico), responsável por reunir dados da população de baixa renda e subsidiar a operacionalização de programas sociais.

Contudo, apenas as ações governamentais são insuficientes na opinião do analista de Responsabilidade Social da Firjan Sesi, Wagner Ramos.

– É fundamental, nesses casos, uma rede de apoio humanitário que transcenda a própria capacidade do poder público. A gente sabe que existem inúmeras críticas sobre a atuação do setor público no nosso país, mas a pandemia que se instala transcende a capacidade de um setor, isoladamente, dar conta. Então a gente fala da necessidade de articulação multissetorial que fortaleça esse tecido social nos municípios. Ações em parceria que envolvam a sociedade e as empresas são fundamentais nesse momento.

A Firjan Sesi, empresários fluminenses e entidades parceiras prosseguem com a campanha Sesi Cidadania Contra a Fome, que completou dois meses nesta semana. O objetivo é ajudar a minimizar os efeitos da pandemia sobre pessoas em situação de fome e pobreza extrema através de doações de cestas básicas. Viva Rio, Movimento União Rio e Caminhão da Misericórdia, da Comunidade Olhar Misericordioso, são parceiros da Firjan Sesi nesta iniciativa de mobilização da sociedade.

Em pouco mais de 60 dias, foram arrecadados mais de R$ 420 mil, revertidos na aquisição de mais de 6 mil cestas básicas, beneficiando cerca de 25 mil pessoas. Além disso, houve ainda a doação de mais de 22 mil itens de alimentos não perecíveis nas unidades Firjan Senai Sesi em todo o estado. Em Cabo Frio, a Sal Cisne realizou, no último dia 14, a doação de outras 100 cestas básicas para a campanha, que serão distribuídas nos próximos dias para famílias carentes do bairro São Cristóvão.

Para contribuir com a campanha, basta acessar o site firjan.com.br/sesicidadaniacontrafome e fazer a doação de qualquer quantia via PIX ou transferência bancária. Alimentos não perecíveis também serão recolhidos em 29 endereços da Firjan Sesi e Firjan Senai espalhadas pelo estado.

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