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FAZER O BEM SEM OLHAR A QUEM

Projeto Arvorear: solidariedade para germinar um novo amanhã

Presidida pelo padre Edmar da Silva, ONG leva alento a moradores em situação de rua

03 julho 2021 - 09h46Por Rodrigo Branco

Fazer o bem sem olhar a quem. O dito popular é a premissa do trabalho do Instituto Arvorear, criado em outubro de 2020, em Cabo Frio, na esteira da crise social intensificada pela pandemia do novo coronavírus. A organização não-governamental é presidida por Edmar da Silva, padre da Igreja Católica Brasileira de São Jorge, mas não se trata de uma empreitada religiosa. Segundo ele, a iniciativa congrega cerca de 70 pessoas de todos os credos, e até mesmo ateus, na missão de entregar quentinhas para a população de rua da cidade, todas as segundas-feiras. 

Nas visitas feitas pelo grupo, também são entregues material de higiene, medicamentos e outras necessidades. Aos que desejarem, também, é dada assistência espiritual, psicológica e jurídica. Mas é dado, sobretudo, um olhar de compaixão a quem muitas vezes é tratado como ‘invisível’ pela sociedade. Nesta entrevista, o padre Edmar fala do trabalho da ONG, que começa a se expandir a partir deste mês, com a abertura de cursos na sede da entidade, que fica na Rua Curitiba, nº 13, no bairro Jardim Olinda, em Cabo Frio.

As doações de mantimentos podem ser feitas no local ou retiradas pela equipe da ONG. As contribuições financeiras podem ser feitas por PIx, que é o CNPJ da ONG: 41.429.154/0001-80.

Folha dos Lagos – Como surgiram os trabalhos assistenciais na vida do senhor?

Padre Edmar da Silva – A opção de fazer trabalhos assistenciais para as pessoas que estão à margem da sociedade é uma questão muito ‘cristológica’, que coloca Cristo como centro. Ele disse: “eu estava com fome e não me deste de comer, eu estava com sede e não me deste de beber”. E os discípulos perguntam: “Mestre, como foi isso, já que estávamos contigo o tempo todo e não vimos”. E ele responde: “com aqueles que sofrem”. Então é um sentido de Cristo entender que aquelas pessoas estão na rua. Algumas estão por querem, outras por questões familiares e assuntos diversos. O que me leva a dar um prato de comida, o que é pouquíssimo, é esse processo de querer que Cristo apareça. Que eu diminua e Cristo apareça.  Dentro desse processo todo, surge a organização da sociedade civil. Em Paudalho, em Pernambuco, de onde eu vim, já fazia parte de algumas instituições e eu sinto falta dessa mobilização em Cabo Frio. Foi quando a gente começou a preparar essas histórias. 

Folha – Nesse contexto, como surgiu o Arvorear?

Padre Edmar – O Arvorear surge de um desejo que o padre pernambucano traz no seu coração de ajudar as pessoas, de aproximar o mistério de Cristo das pessoas. De trazer pelas pessoas um Cristo que pede que cada pessoa se doe um pouco daquele Cristo que está escondido. Cada pessoa, pelo batismo, se torna um cristão. Então é esse mundo que nós precisamos entender. Então o outro é importante, independe da situação econômica, da opção sexual e da questão religiosa. Ele é Cristo. Então toda segunda-feira, a gente distribui quentinhas pela cidade e uma garrafinha de água. Em São Cristóvão, no Centro, no Itajuru, naquelas redondezas. A gente percebe que outros dias da semana, outros grupos se colocam à disposição para fazer suas caridades.

Padre Edmar: "Esse momento é de olhar para o outro, e entender que precisamos ajudar".

Folha – Qual o perfil das pessoas que fazem parte do trabalho assistencial do Arvorear?

Padre Edmar – Diversos profissionais compõem o Arvorear, se colocando à disposição do outro. Temos profissionais de saúde, como médicos, técnicos de Enfermagem, auxiliares de Enfermagem, advogados, preparadores físicos, educadores físicos, pedagogos, teólogos, donas de casa, pessoas aposentadas, administradores de empresa, professores de Português, de Matemática, bombeiros. Tempos vários membros que se colocam à disposição, mas a associação é laica. Mesmo tendo um padre como presidente, não pertence a nenhuma instituição religiosa. Ela é formada pela sociedade civil. Tem eu como padre, outros católicos, protestantes, ateus, gente do candomblé, da umbanda, tem espiritualistas. O importante é a agregação da pessoa e não o rótulo da religião.

Folha – O que vocês recebem como doações?

Padre Edmar – A gente recebe através de doações materiais, as pessoas entregam ou marcam e a gente vai buscar. Podem ser utensílios de cozinha, mantimentos. Podem ser recursos financeiros, podem ser roupas, sapatos. Tudo que a pessoa não quer, a gente traz, trata e coloca à disposição para ser entregue às pessoas de rua. Também, fazemos um bazar para manutenção da sede. Temos uma biblioteca dentro da instituição. E alguns outros projetos que estão sendo estruturados para desenvolver, como balé, artes plásticas, artesanato, fotografia, corte e costura.  Temos alguns outros projetos que estão sendo escritos porque vamos abrir as portas do Arvorear agora em julho, para oferecer um leque para a população de atividades a serem desenvolvidas para a melhoria da sociedade.

Folha – Como as pessoas podem participar, sejam em doações ou na força de trabalho?

Padre Edmar – As pessoas doam em forma de Pix, em recursos financeiros, ou doa em material, os utensílios para cozinha. Tem a equipe que doa, que prepara e que vai distribuir. Do mesmo jeito, com as roupas. Tem o pessoal que doa, o que separa o que vai para o bazar e o que vai ser entregue aos moradores de rua e a outra equipe que vai entregar. Qualquer pessoa pode participar, basta se colocar à disposição. Não pode ter nenhum tipo de preconceito. Não pode ter pudores de não gostar do negro, de cigano, ou de homossexual. A única rejeição que tem para uma pessoa não entrar no Arvorear é ela ter preconceitos.

Folha – Como o senhor interpreta esse momento de pandemia, em que o caos social é evidente? Basta andar em Cabo Frio para ver a quantidade de pessoas em condição de vulnerabilidade...

Padre Edmar – Esse momento é de grande reflexão, de grande busca para novos caminhos. Esse momento é de olhar para o outro, e entender que precisamos ajudar. Há uma confusão mental, política e ideológica, mas ainda existem pessoas que se preocupam com o outro. Esse momento de pandemia, de crise econômica é de paramos e entendermos que o outro precisa de sobrevivência, independente da sigla política. Ficou constatado que o mundo não estava preparado para uma pandemia. Encaro como um momento de análise e de olhar para o outro e trazer as pessoas. O que podemos fazer como igreja, sociedade civil e como político. É um momento de grande questionamento: “Como posso ajudar? O que eu posso fazer?” Será que não está na hora de eu ter desapego, de dividir? Existe um grande número de desempregados, uma constante procura de alimento nas portas e o que estamos fazendo? Estamos de braços cruzados? Meu olhar é de renovação. Não olho como condenação, pecado, castigo, mas olho para o ser humano melhorar. Esse é um momento de diálogo, de busca para novos caminhos de enfrentamento a todas essas crises que estamos passando.

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