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Ponte Feliciano Sodré: o caminho que integra Cabo Frio há quase um século

Via tem importância que resiste ao tempo, mas sofre saturação pelo crescimento urbano e pela atividade turística

13 dezembro 2020 - 10h30Por Rodrigo Branco

Ela está lá, imponente, há quase um século, ligando as duas margens do Canal do Itajuru. Mais do que isso, a Ponte Feliciano Sodré, em Cabo Frio, cumpre a função de integrar uma cidade de 214 mil habitantes, que se expande velozmente para áreas mais distantes da região central. Tanto que hoje é praticamente impossível imaginar o sistema viário do município sem a ponte. 

Ou melhor, nem é preciso ir muito longe no exercício de imaginação; basta lembrar das ocasiões em que um veículo enguiça no local; do trânsito da alta temporada; ou dos inúmeros protestos por conta dos recorrentes atrasos salariais da Prefeitura para comprovar a importância dessa gigante de concreto para o tráfego na cidade. A interrupção do trânsito por alguns minutos logo provoca congestionamentos de quilômetros, com reflexos praticamente imediatos, mesmo em bairros mais afastados.

A importância de interligar as duas metades da cidade vem de longe. O historiador Paulo Cotias explica que cruzar o Canal do Itajuru sempre foi uma necessidade ao longo do tempo. Os indígenas usavam o extenso caminho do Baixo Grande sempre que necessário ou pela travessia de menor uso, diretamente em canoas ou a nado. Tempos depois, com o incremento da agricultura e do comércio, a navegação foi a estratégia mais usada, entre a Passagem e o Porto do Carro. 

Com o desenvolvimento da economia salineira, a partir do século 19, surgiu a necessidade de construir uma travessia permanente entre as duas bordas do canal. Uma ponte de ferro foi erguida em 1898, porém a estrutura não resistiu à maresia da região e a problemas no seu reparo, segundo consta no livro ‘Cabo Frio 400 anos de história - 1615-2015’, de Luiz Guilherme Scaldaferri e Flávia Maria Franchini Ribeiro, e desabou em 1920, com vítimas fatais. Com a tragédia, tornou-se obrigatória uma solução definitiva para a questão.

– Com o desenvolvimento urbano da cidade, era necessário o restabelecimento da ligação, fato conseguido apenas em 1926 com a ajuda do governo do Estado, depois de pacificada a querela política com o governo local. Assim surge a Ponte Feliciano Sodré, com uma só pista e conceito inovador, sendo, por muitos anos, a maior ponte de vão livre do país – explica Cotias.

Ao longo das décadas, sobretudo a partir dos anos 1960 e 1970, a especulação imobiliária, o turismo e a ocupação urbana levaram à necessidade urgente da construção de uma nova ponte ou da sua duplicação. Conforme explica o historiador, a segunda opção foi a escolhida e a ponte, que outrora funcionava no sistema ‘pare e siga’, foi reformada, e passou a funcionar  em mão dupla, a partir de outubro de 1982, ainda no primeiro governo de José Bonifácio. O fato foi relembrado pelo prefeito eleito de Cabo Frio.

– Com o crescimento da cidade, estava claro que a estrutura da ponte já não dava conta do movimento. Já imaginou como seria o deslocamento na cidade sem a mão dupla? A obra, que foi feita em nosso segundo mandato [na verdade, o primeiro], demorou cinco meses para ficar pronta. E até hoje tem papel fundamental na vida da população – rememora Bonifácio.

À época, a obra foi importante, mas logo se revelou insuficiente para dar conta dos imensos congestionamentos formados, sobretudo, nos períodos de alta temporada. Tanto que, em 2001, o então prefeito Alair Corrêa mandou construir a Ponte Márcio Corrêa, para receber o tráfego dos veículos que vêm da periferia da cidade. Com isso, as duas pistas da Feliciano Sodré ficaram destinadas exclusivamente ao sentido Centro-Gamboa-Jacaré. 

A solução viária implantada na gestão Alair não interferiu na questão paisagística e, além disso, melhorou a fluidez no trânsito e aliviou a Ponte Feliciano Sodré. Porém, quase 20 anos depois da obra, novos desafios para a quase centenária construção surgem, a partir da discussão do planejamento da Mobilidade Urbana de Cabo Frio para as próximas décadas. 

O debate também passa pela discussão do modelo de desenvolvimento social do município, do qual a Feliciano Sodré é, paradoxalmente, um símbolo de integração, mas também da falta de atenção do poder público com os bairros mais distantes, ao longo da história. Para Paulo Cotias, é preciso transformar as cidades ‘do lado de lá e de cá’ da ponte em uma só.

– A ponte continua com sua imponência e importância social, econômica e viária. Quase vinte anos após a construção da sua irmã mais nova, ainda temos a mesma necessidade de melhoria do tráfego e, ao mesmo tempo, uma cidade partida. O crescimento da Grande Jardim Esperança formou um subcentro robusto e adensado, com forte apelo comercial e de serviços, mas ainda com muitos e crônicos problemas de urbanização, de serviços públicos básicos e de qualidade e, sobretudo de integração com o restante da cidade.

E é uma área estratégica para isso, pois poderia ser justamente o ponto de articulação entre o primeiro e segundo distritos. O desafio é fazer da ponte histórica um símbolo eterno de uma efetiva integração social da nossa cidade – conclui o historiador.

Ponte continuará a ter papel relevante na Mobilidade Urbana de Cabo Frio

Dentro da discussão dos rumos da Mobilidade Urbana em Cabo Frio para os próximos anos, a Ponte Feliciano Sodré continuará a ter papel fundamental, porém o próprio prefeito eleito José Bonifácio reconhece a necessidade de buscar soluções, em virtude da sua saturação, especialmente durante o verão e nos períodos em que a cidade está cheia, como os feriadões.

Em entrevista concedida à Folha logo após a eleição, Bonifácio adiantou que conversa com o dono de duas balsas para retomar a travessia aquaviária entre o Centro e a Gamboa, pelo Canal. A medida reduziria o impacto dos veículos que se dirigem para a Rua dos Biquínis.

– Quero retomar, agora em janeiro, a travessia para a Gamboa. Só que não é a prefeitura, é a iniciativa privada. Já conversei com o cara que tem duas balsas de passageiros. Eu disse que ele vai ter que cobrar, porque eu não vou pagar. A gente vai estabelecer com ele uma tarifa e fazer essa travessia. E eu quero estimular também os barcos-táxis. Eles mesmos vão estabelecer os pontos, mas tudo isso é a iniciativa privada trabalhando. A prefeitura vai dar o apoio e estrutura necessária para que isso aconteça. Vai precisar de um pequeno deck de madeira? A prefeitura faz e eles exploram. Mas a travessia do Canal para a Gamboa é fundamental até para diminuir o número de carros que atravessam a ponte, por conta da Rua dos Biquínis, mas também pelo tráfego para o Peró, Ogiva, Conchas e Búzios. Se você já tira os carros que vão exclusivamente para a Rua dos Biquínis, já alivia – comentou o futuro prefeito.

Ex-secretário de Mobilidade Urbana de Cabo Frio e atualmente coordenador operacional da Autoviação Salineira, Mauro Branco afirma que a dependência dos moradores dos bairros periféricos dos serviços na zona central da cidade contribui para o trânsito sobrecarregado na ponte.

O engenheiro defende o desenvolvimento das áreas mais distantes como forma de reduzir o impacto na estrutura quase centenária.

– A ponte é fundamental porque você tem a centralidade e todo um processo de dependência de mobilidade das pessoas em relação ao Centro. Por isso, tem esse nó [no trânsito], que é formado a partir das demandas que são geradas diariamente em relação a essa dependência do Centro de Cabo Frio. O que existe de novidade em relação à lógica das cidades é o desenvolvimento de novas centralidades, onde você tem todo um sistema de bancos, escolas e postos de saúde, toda uma série de infraestruturas urbanas que serviriam a essa centralidade, de maneira que as pessoas não tivessem tanta necessidade de vir ao Centro. É uma ênfase no movimento e na organização das cidades – argumenta Branco, que também é mestrando em Engenharia Urbana.

Consultada sobre o assunto, a Associação de Arquitetos e Engenheiros da Região dos Lagos (Asaerla) disse, por meio de nota, que “há sinais” de que a Ponte Feliciano Sodré possa estar saturada, ou muito próximo a isto, entretanto, que desconhece estudos nesse sentido.

Segundo a entidade, a alternativa que poderia ser adotada para a redução do fluxo na Ponte Feliciano Sodré e também na Ponte Marcio Corrêa, para os destinos Bosque do Peró, Condomínio dos Pássaros, Guriri, Caminho de Búzios, Alphaville, Peró, Cajueiro, Ogiva e Caminho Verde, é o Projeto Marinas de Cabo Frio, empreendimento em fase de discussão do projeto, no Estudo de Impacto Ambiental – EIV, por meio da urbanização e do asfaltamento da Estrada Nelore, ligando a Avenida Wilson Mendes com a Estrada do Guriri, próximo ao Condomínio Bosque do Peró.

A Asaerla comentou que os recursos para urbanizar e asfaltar a Estrada Nelore serão integralmente privados, do empreendedor do Projeto Marinas de Cabo Frio, economizando recursos públicos municipais e estaduais. A entidade diz que é integrante deste grupo de estudo e que vem atuando “com muita atenção”.

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