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Peças de museu a céu aberto: orelhões resistem nas ruas de Cabo Frio

Operadora responsável defende extinção do sistema, a exemplo dos EUA

29 maio 2023 - 12h44Por Cristiane Zotich

Quem nasceu depois dos anos 1990 certamente não sabe o que é enfrentar fila para usar um orelhão, nem ficar desesperado ao descobrir que mal disse "alô" e as fichas já  acabaram. Com a chegada dos aparelhos celulares naquela década, a chamada Geração Y, ou Millennials, cresceu com a tecnologia na palma da mão. Quase obsoletos, hoje em dia, os poucos equipamentos que ainda existem pelos bairros de Cabo Frio ganharam até outras utilidades.

– Nunca usei um orelhão pra ligar pra ninguém. Mas posso dizer que é muito útil em dias de chuva: já me abriguei debaixo deles várias vezes quando eu saía da escola e começava a chover – contou o vendedor Carlos Eduardo Silva Santos, de 25 anos.

Antes de servir de abrigo em dias chuvosos, os orelhões foram muito úteis para o mercado de trabalho. O jornalista Ralph Bravo, por exemplo, chegou a contar um episódio sobre o equipamento em seu livro, “Memórias de um Correspondente”, lançado em 2017. A publicação traz comentários e histórias que ele viveu em parceria com vários colegas de profissão, como o jornalista Levi de Moura, durante os anos de 1985 e 1991.

– Eu era correspondente do Jornal do Brasil na região. Sempre tive telefone fixo em casa, mas quando estava na rua, e até em distritos distantes, usava o posto telefônico, que era chamado de PS1. Uma das notícias em que precisei recorrer ao uso do equipamento foi no caso da morte do vitrinista da Boutique Robert Ferr. Apurei junto com Levy de Moura: eu para o JB, ele para o jornal Fluminense. Estávamos em Búzios. Lembro que era de noite, e chovia. Tínhamos muito pouco tempo para escrever e enviar a matéria para a redação. Escrevemos em um posto da antiga Telerj, e entramos na fila do orelhão. Eu tinha duas laudas para enviar ao jornal, e a ligação ia sair muito caro. Então resolvi ligar para a secretária pedindo que ela retornasse a ligação para o posto da Telerj onde eu estava. Recebi o telefonema dela em uma cabine com porta de madeira, e concluí meu trabalho - contou.

Criada em 1976, Telerj era a empresa operadora de telefonia do sistema Telebras no estado do Rio de Janeiro antes do processo de privatização, em julho de 1998, quando foi absorvida pela Telemar (atual Oi), e pela extinta Telefônica Celular. Atualmente apenas a Oi administra os orelhões no Brasil. Segundo informações enviadas à Folha pela companhia, no país existem, hoje, 116 mil equipamentos, sendo 8 mil no estado do Rio de Janeiro. Em Cabo Frio, ainda de acordo com a Oi, são 134, sendo 53 disponíveis 24 horas/dia, apenas um adaptado para cadeirantes, e quatro para deficientes auditivos e de fala.

Segundo a Oi, todos passam por manutenção periódica e emergencial quando apresentam algum problema técnico ou sofrem vandalismo. Mais da metade (66%) dos cerca de 116 mil orelhões brasileiros registram uma média de menos de uma chamada por dia. Mas, embora quase não sejam mais utilizados pela população, ainda exigem recursos elevados para manutenção, algo em torno de R$ 135 milhões por ano, segundo a empresa. Em nota enviada à Folha, a direção da Oi disse ainda que “o Brasil deveria seguir o exemplo de outros países, como ocorreu recentemente em Nova York (EUA), que desligou seu último orelhão, e aproveitar os investimentos obrigatórios em telefones públicos para atender demandas mais atuais da população, como os serviços de conectividade e acesso à internet em banda larga”. Informou ainda que há décadas os orelhões deixaram de funcionar com fichas, substituídas por cartões, “mas as chamadas são gratuitas porque a receita das ligações é menor que o custo de comercialização dos cartões”.