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Nova licitação para revitalizar o canto do Forte tem data marcada; historiador critica abandono

Obra, que será realizada através de convênio com o Governo Federal, é aguardada desde 2017

16 janeiro 2024 - 16h06Por Redação
Nova licitação para revitalizar o canto do Forte tem data marcada; historiador critica abandono

Está confirmada para o próximo dia 30, às 10h, no auditório da Prefeitura de Cabo Frio, a abertura dos envelopes da licitação para reabilitação e requalificação urbanística da Avenida Almirante Barroso, incluindo o canto do Forte e o Mirante do Arpoador. O valor estimado do projeto é de R$ 3.386.194,24.

A obra faz parte de uma novela que se arrasta desde 2017, quando o ex-prefeito Marquinho Mendes assinou o convênio Nº 845082/2017 com o Governo Federal, via Caixa Econômica, que é o agente gestor. Na época, o valor do contrato era de R$ 3.108.427,44, sendo R$ 3.018.427,44 repassados pela União, ficando para a prefeitura a contrapartida de R$ 90 mil.

Desde então já passaram pela prefeitura de Cabo Frio os ex-vereadores Aquiles Barreto e Adriano Moreno e o ex-prefeito José Bonifácio (morto em julho de 2023), e a obra jamais saiu do papel.

Em abril de 2020, durante o mandato do então prefeito Adriano Moreno, o projeto até chegou a ser licitado, e o contrato assinado em junho do mesmo ano. Mas tudo ficou apenas no papel por conta da pandemia e do período pré-eleitoral. Em março de 2021, o então prefeito José Bonifácio (morto em julho de 2023) finalmente anunciou o início das obras, cujo projeto previa reforma total do Mirante do Arpoador, além de drenagem e calçamento de toda a Avenida Almirante Barroso, tudo com acompanhamento arqueológico.

Porém, logo nas primeiras semanas de execução a empresa abandonou a obra, obrigando o governo a realizar uma nova licitação, que acontecerá no próximo dia 10. De acordo com o edital, o prazo de execução da obra é de 180 dias após autorização da prefeitura. E após o término, a empresa vencedora da licitação deverá dar, garantia técnica de cinco anos.

"É lamentável que o local onde Cabo Frio foi fundado esteja daquele jeito", afirma historiador

O abandono do local foi duramente criticado pelo historiador Elísio Gomes. Segundo ele, o Mirante do Arpoador possui uma grande importância histórica para Cabo Frio. 

– É lamentável que o local onde Cabo Frio foi fundado esteja daquele jeito. De 1535 a 1615 havia, no topo do morro, uma grande feitoria de pedra construída pelos franceses, principalmente da Normandia, para fazer o escambo com os indígenas. Naquela época o local era chamado de Morro da Casa de Pedra. Por 80 anos essa feitoria funcionou ali “clandestinamente”, embora os portugueses soubessem de sua existência. Os grandes navios franceses ficavam ancorados na frente do Morro do Costão e recebiam a carga de Pau-Brasil. Os menores entravam pela barra. O então governador Constantino de Menelau recebeu ordens do rei para destruir a Casa de Pedra e fundar ali uma cidade, com a construção de um forte e o estabelecimento de duas aldeias de indígenas aliados: uma em Búzios e outra em São Pedro - contou.

Ainda segundo o historiador, após ordenar a destruição da feitoria francesa, Constantino de Menelau convocou a presença de tabeliães para lavrar o ato da fundação da cidade, que na época foi chamada de Nossa Senhora de Santa Helena do Cabo Frio. 

– Dos alicerces da feitoria francesa levantaram um forte com o nome de Santo Inácio, com quatro canhões. Não sei se ele construiu um oratório destinado a colocar uma imagem da santa de sua devoção, Santa Helena. Mas mandou erigir uma alta cruz no topo. Daí o morro começou a ser chamado de Outeiro da Cruz. Já o nome Morro do Arpoador, como conhecemos hoje, viria a nascer depois, devido à pesca que se fazia nas extremidades próximas ao canal, arpoando da superfície os grandes peixes com o lançamento de tridentes de ferro - contou Elísio. 

Com a chegada do primeiro governador de Cabo Frio, Estevão Gomes, o forte de Santo Inácio foi abandonado e começou-se a construção do atual Forte São Mateus.

– Poucas cidades no Brasil têm uma referência para identificar onde nasceu. E o Morro do Arpoador é o berço do nascimento de Cabo Frio. Ali a cidade deu os seus primeiros passos, mas infelizmente nem as autoridades, nem a sociedade, têm ligação afetiva com esse local de grande importância histórica e religiosa, porque a cruz do Morro do Arpoador, levantada dentro do antigo forte de Santo Inácio por Constantino de Menelau, era em homenagem à Santa Helena, que era a santa de devoção dele, e chegou a ser a primeira padroeira de Cabo Frio, antes da atual, Nossa Senhora de Assunção. E essa cruz marcava a ocupação militar e religiosa em Cabo Frio quando foram encerradas as atividades do contrabando de pau Brasil, principalmente pelos franceses - desabafou o historiador.

Elísio também lamentou o fato de o Iate Clube do Rio de Janeiro ter dividido o morro no meio por um grande muro de pedra. E contou que há pouco tempo fez uma representação junto ao Ministério Público Federal com o intuito de responsabilizar o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) pelo abandono daquela área, que é tombada por conta dos sítios históricos que ali existem.