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TRISTE ROTINA

Local de recentes episódios de violência, Manoel Corrêa sofre com falta de serviços públicos

Comunidade reclama do abandono das autoridades e da falta de projetos para os jovens

22 novembro 2019 - 19h29Por Rodrigo Branco
Local de recentes episódios de violência, Manoel Corrêa sofre com falta de serviços públicos

Um bairro em meio ao fogo cruzado e longe do olhar das autoridades. Assim se sentem moradores e profissionais que trabalham no Manoel Corrêa, que sofre com o aumento dos episódios de violência, como o da semana passada, que deixou duas crianças, uma de três e outra de cinco anos, feridas por tiros, cuja origem ainda está sendo investigada. Mas se a face mais conhecida do estado na comunidade é a da farda e das viaturas de polícia, que faz operações constantes na localidade; o outro lado da moeda, que deveria ser o da ocupação social, essa nem de longe se faz presente, relatam aqueles que vivem o dia a dia de um bairro que estampa seguidamente as manchetes policiais.

O pedido por atenção, feito por um grupo de moradores anteontem, antes e durante a sessão da Câmara Municipal, não é só discurso. Basta andar pelas ruas da comunidade para verificar uma série de problemas, como infraestrutura urbana precária; serviços públicos insuficientes e a falta de espaços adequados para esporte e lazer. Sem projetos culturais e esportivos, a juventude fica sem opções e referências consideradas positivas.

– Acredito que o projeto social tem o poder de educar, de socializar, porque todos eles trabalham com disciplina e regras. Você tem hora de chegar, tem a hora de tocar. Então a criança começa a entender que existem regras, não tem como passar por cima disso. O que acontece é que a falta disso faz com que as pessoas não tenham esperança de um dia melhor. Tem jovem aqui que me disse que nunca foi ao cinema, com 17 anos. É de cortar o coração – relata o produtor cultural Jurandir Brandão, um dos responsáveis pelo projeto de percussão Tambores Urbanos. 

O presente conturbado acaba por comprometer o futuro. Não bastasse a crise na Educação municipal, por causa dos salários atrasados e sucessivas greves, os alunos de unidades do Manoel Corrêa ainda tem a ingrata tarefa de tentar absorver conteúdo enquanto tentam não ser atingidos por uma bala perdida durante os tiroteios que tornaram-se cotidianos na comunidade.
Não há relatos científicos sobre o assunto, mas profissionais ouvidos pela Folha atestam que a situação tem provocado problemas de aprendizagem e transtornos comportamentais em estudantes, que ainda estão em formação da personalidade. Sônia Soutinho é conselheira municipal de Educação e trabalha na creche Elenita Ferreira dos Santos Abreu.

Segundo a profissional, qualquer ruído é o suficiente para que os alunos se joguem ao chão e se abriguem sob as carteiras, enquanto as professoras tentam acalmá-los com leitura. A situação chegou a provocar trauma em um aluno, cuja família precisou se mudar para outro local.

– Tenho amiga que tem um filho de quatro anos e o garoto parou de falar. Ela morava próximo à escola e conseguiu uma casa nas Palmeiras, e o menino voltou a falar. Ele ficava desesperado. Isso é muito sério – conta a profissional. 

A professora de 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental Suzana Jotta confirma as palavras da colega, quanto à rotina de terror. Ela trabalha na Escola Themira Palmer e afirma que, praticamente toda semana, há episódios de violência dentro e nos arredores da escola. 

Para completar o quadro, a docente critica a estrutura da escola, que funciona em tempo integral (das 7h30 às 15h30). Exatamente pelo horário estendido, as refeições são feitas no colégio, mas o espaço insuficiente no refeitório faz com que muitas crianças alimentem-se no pátio, diz a professora. Falta de cobertura; parte elétrica comprometida, entupimento da caixa de gordura estão entre os outros problemas relatados. Dentro desse contexto, Suzana concorda que a formação dos estudantes fica comprometida.

– Com isso, o rendimento escolar fica inteiramente prejudicado. A gente não consegue terminar um dia que seja tranquilo.  E isso interfere completamente no processo de aprendizagem da criança – afirma a professora.

O presidente da Câmara, Luis Geraldo (Republicanos) ficou de agendar, até a semana que vem, uma visita de vereadores para verificar os problemas do bairro. O compromisso foi assumido em reunião com moradores de moradores e parte dos parlamentares, após a sessão de anteontem da Casa.