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"CABO FRIO REVISITADO"

Livro da Sophia Editora traz olhar contemporâneo sobre a Fazenda Campos Novos

Historiador defende preservação e utilização cultural e turística do local, que já pertenceu à Coroa Portuguesa e até hoje abriga comunidades quilombolas 

22 janeiro 2021 - 16h16Por Rodrigo Branco

Qualquer obra que se preze sobre a história de Cabo Frio deve dar o devido destaque à Fazenda Campos Novos, cuja trajetória de mais de três séculos se confunde com a da configuração territorial de região como um todo. No livroCabo Frio Revisitado – a memória regional pelas trilhas do contemporâneo” (432 páginas), recém-lançado pela Sophia Editora, páginas relevantes são dedicadas à extensa propriedade rural e seu conjunto arquitetônico construído por iniciativa de jesuítas da Companhia de Jesus em 1690, às margens da Rodovia Amaral Peixoto, no Segundo Distrito, em Tamoios.

Autor de um dos artigos que estão na publicação, organizada pelo historiador Ivo Barreto, o também pesquisador Jonatas Carvalho é quem faz um estudo sobre o local, que já pertenceu à Coroa Portuguesa e a outros proprietários, mas foi desapropriado em 1993 pelo então prefeito José Bonifácio, para servir de sede para a Secretaria Municipal de Agricultura, e até hoje, é rodeado de comunidades quilombolas, como as de Maria Joaquina e da Baía Formosa. Em conversa com a Folha, Carvalho reforça a importância da Fazenda para a preservação da memória não apenas de Cabo Frio, mas do interior do Estado do Rio. Por outro lado, dentro da proposta do livro, o historiador lança um olhar contemporâneo sobre o papel do conjunto que, para seu espanto, ainda é desconhecido de boa parte da população das áreas centrais da cidade.

Ele observa que, no século 18, o território pertencente ao que se considerava como Cabo Frio se estendia por uma área entre os atuais municípios de Macaé e Maricá. Nesse contexto, Campos Novos teve um papel preponderante nessa expansão, por meio de doações e incorporações. 

– No desenvolvimento dessa Cabo Frio gigante que começa a se consolidar no século 17, a fazenda foi fundamental. Mas ela foi se desenvolvendo numa tensão entre a fazenda e a Vila de Cabo Frio, que está do outro lado. Naquela época, essa conexão era complicada, havia diferenças de interesses, esse tipo de coisa. Hoje, a fazenda é do ponto de vista para a cidade um espaço inestimável, mas que infelizmente a gente não conseguiu sensibilizar nenhum governo, desde que eu estou aqui, em 2008, para esse fato – observa o estudioso.

Construída sobre um sambaqui, a Fazenda Campos Novos é um considerado um espaço de grande riqueza geológica e arqueológica, cuja trajetória ajuda a remontar alguns dos principais episódios do Brasil Colônia. No entanto, para além da preservação de um complexo histórico, a sua utilização econômica e turística é defendida pelo estudioso, que é pesquisador associado ao Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos da UFF e Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito.

– Aquele local poderia ser um baita espaço para arrecadar receitas para o município para explorar todas essas áreas, é um setor cultural que vende. Está localizada em frente ao trevo de Búzios, lá passa carro o dia inteiro. A gente queria fazer um museu a céu aberto, com o projeto Caminhos de Darwin. Eu fui o pesquisador do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) tocando esse projeto com uma galera maravilhosa da Casa da Ciência da UFRJ. Enfim, sem contar a possibilidade de conectar a fazenda com os trabalhadores rurais, à agricultura familiar. Chegamos a tocar projetos lá, de abastecer as escolas da cidade com agricultura familiar, tudo isso via fazenda. Chegamos a construir lá uma usina de beneficiamento de leite que parou, não foi pra frente, então ela tem potencialidade para ativar o mundo rural de uma maneira sensacional, além de se tornar um espaço de referência, que não tem no Rio de Janeiro, que talvez não tenha no Brasil – conclui.

Diários de Darwin relatam hospitalidade na Fazenda

O conjunto rural da Fazenda Campos Novos conta com uma casa, senzala, oficinas, capela e cemitério anexo. Com a expulsão dos jesuítas em 1759, a Coroa Portuguesa sequestrou esta e outras propriedades. Tempos depois, foi comprada pelo fazendeiro Manoel Pereira Gonçalves. 

Já no século 19, suas instalações receberam hóspedes ilustres. Em 1832, recebeu a visita do naturalista Charles Darwin e, em 1847, do Imperador D. Pedro II. No caso do inglês, segundo Jonatas Carvalho, manuscritos em seus diários de viagem relatam a hospitalidade na fazenda, ao contrário do que acontecera em outras paradas de sua célebre viagem pelo litoral do Estado do Rio. 

A despeito da frustrada tentativa da implantação do projeto Caminhos de Darwin pelo estudioso em parceria com a UFRJ, um projeto de lei que tramita na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) propõe a inclusão da Fazenda Campos Novos em um circuito de passeio ciclístico-cultural pelo interior do Rio, notadamente pelos municípios da Região dos Lagos. Apesar de toda a importância, a história da fazenda está longe de representar glamour. 

– Acho que antes de qualquer coisa, diria que o que as fontes de estudo nos revelam é que essa história, por muitos romantizada, na verdade, é uma história de muita violência. Estamos falando de uma fazenda que se constituiu usando mão de obra indígena, conectada à aldeia dos índios, que hoje a gente chama de São Pedro da Aldeia, e que era a aldeia dos índios São Pedro – esclarece Carvalho.

Patrimônio tombado e carente de restauração

A Fazenda Campos Novos é tombada pelo patrimônio histórico tanto em nível estadual como federal. O processo pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural foi concluído em 2003, enquanto pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, somente 12 anos depois. O tombamento protege o complexo de eventuais tentativas de descaracterizar o conjunto arquitetônico da Fazenda.

Contudo, uma restauração se faz necessária para preservar um local que guarda capítulos fundamentais da história de Cabo Frio e de toda a região. No fim do artigo publicado no livro, Jonatas Carvalho faz um apelo, ou ‘clamor’ como fez questão de destacar, por maiores cuidados com o espaço. Ele relatou um episódio vivido em um de seus trabalhos na Fazenda, para exemplificar a sua importância como espaço de memória.

– Certa vez, recebi uma senhora, que tinha o filho mais ou menos da minha idade. A gente estava num debate se iria tirar uma cisterna que estava no pátio central, porque ela foi construída depois, no começo do século 20. Optamos por tirar e deixar uma plaquinha para avisar que ali tinha uma cisterna. A senhorinha perguntou pela cisterna. Mostrei a ela que, quando viu a cisterna, danou a chorar. Era disse que era uma antiga colona da fazenda que morava na região de Botafogo, e que o dono permitia que cada colono tinha direito a pegar uma balde de água potável por dia, pois era o único lugar que tinha água potável. Fazia uma fila de mulheres para pegar um balde. Ela tinha que fazer isso todos os dias, percorrer uma distância de uns oito quilômetros. Isso é memória – relembra.

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