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Entrevista

Joel Pires: 'Não há má vontade com dois meses de salários atrasados'

Na Guarda Municipal desde 2010, delegado sindical diz que este é o pior momento que já presenciou na corporação

07 dezembro 2016 - 01h01Por Texto: Fernanda Carriço | Foto: Arquivo Pessoal
Joel Pires: 'Não há má vontade com dois meses de salários atrasados'

 A importância da Guarda Mu­nicipal de Cabo Frio tem sido realçada nas últimas semanas por causa da onda de desapare­cimento de bens públicos como placas e bustos de bronze na cidade. Aquartelada há mais de trinta dias em função dos atrasos salariais que hoje completam dois meses, a corporação assiste à deterioração das condições de trabalho da equipe. Condições sanitárias inadequadas e falta de veículos em condições de uso compõem o quadro desolador.

Em entrevista à Folha, o de­legado sindical Joel Pires Mar­ques, que está na Guarda desde 2010, afirma que este é o ‘pior momento’ que já presenciou a corporação passar. Formado em Direito e Educação Física e em vias de completar a segun­da pós-graduação, o experiente profissional lamenta pela desilu­são dos companheiros de farda com a atual situação.

– Muitos colegas estão estu­dando, quebrando aquela antiga ideia de que “o guarda é analfa­beto”. Hoje, o profissional está apenas desesperançoso da sua condição. Ele vai usar a Guar­da apenas como um degrau para outro setor onde ganhe um pou­co mais, tenha um pouco mais de esperança – pondera.

Folha dos Lagos – Cabo Frio vice um momento muito com­plicado na área da Ordem Pú­blica. A Guarda está na maior parte do tempo aquartelada e temos observado o roubo do patrimônio público. O que o senhor acha disso?

Joel Pires – Está faltando a municipalização da segurança pública. A Prefeitura já deveria ter dado início à adequação da Guarda à lei 13.022, que é o Es­tatuto Geral das Guardas Muni­cipais de todo o Brasil.

Folha – O que mudaria com essa nova lei?

Joel – Tudo. Porque pela Constituição, no artigo 144, pa­rágrafo oitavo, diz que cabe à Guarda a proteção de bens, ser­viços e instalações. Com o ad­vento da lei 13.022, essa compe­tência foi aumentada para bens, serviços, instalações, popula­ções e logradouros públicos. Passando, portanto, de três para cinco itens muito importantes, além dos quais também foram inseridos o que se chamam de princípios básicos. Os princí­pios, no neopositivismo, têm força acima da norma legal.

Folha – Mas o que o senhor acha do fato da cidade, em meio à crise, estar sem ordem?

Joel – Nós estamos na Guar­da Municipal sem uma lideran­ça. Não digo uma liderança de colegas, mas uma liderança pelo gestor. A Secretaria de Ordem Pública foi rebaixada à categoria de coordenadoria, subordinada à do Meio Ambiente. Aí eu deixo bem claro: a Secretaria do Meio Ambiente não tem capacidade de gerir a Guarda Municipal.

Folha – Por quê?

Joel – Porque nada entende sobre o assunto.

Folha – O senhor estava à frente do desfile que a Guar­da fez no aniversário da cida­de. No dia anterior, o prefeito afirmou que vocês estariam de ‘má vontade’. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

Joel – Negativo. Ninguém está de má vontade com dois pa­gamentos atrasados e caminhan­do já para o terceiro mês. No dia 19 (de outubro), ele nos pagou o mês de setembro. Está nos de­vendo o mês de outubro, agora caminhando para novembro. Os guardas estão sempre a postos para trabalhar. Nossa vocação é essa, vamos sempre exercer, mas devidamente remunerados.

Folha – Este deve ser um momento de angústia pela fal­ta de salários e de estrutura para realizar o trabalho...

Joel – A estrutura, que a gen­te chama de logística, existe mi­nimamente, quase nada. Falta papel higiênico para dizer o bá­sico. Não temos material de lim­peza e higiene íntima. Os vasos sanitários estão sem assento. Os veículos estão sem combustível e falta manutenção. Quanto ao talonário de multas, não sei nem dizer, porque não tem ninguém atuando e autuando.

Folha – Qual foi o pior mo­mento nesse crise toda?

Joel – Ver os companheiros sem condição de pagar o alu­guel, com problemas familiares, porque como dizem “a miséria entra pela porta, o amor pula pela janela”. Tudo isso nós ve­mos de ruim nesse mau gover­no que destrói a própria Guarda Municipal e mais ainda a própria sociedade que a Guarda deveria estar protegendo e não protege porque o gestor é o culpado.

Folha – Se o senhor tivesse que descrever esse ano de 2016 com relação ao funcionalismo, esse é pior ano de Cabo Frio?

Joel – Sim. Esse foi o meu pior ano na minha condição de funcionário público municipal. Eu nunca estive numa situação dessa de dever tanto. Isso para mim é ridículo. Porque eu já tive condições de viajar. Os colegas até brincam comigo. Em 2012, eu fui à Itália e Portugal como guarda municipal porque podia pagar parceladamente com meu cartão de crédito. Fui a Cuba e Panamá, no ano seguinte, tam­bém com meu cartão de crédi­to. E no outro ano, com muito mais dificuldade, eu fui ao Peru. Hoje o meu cartão está a ponto de ser cancelado, a minha conta especial foi cancelada, porque o banco se aproveita dos juros. Por que não cobrar esse juros da Pre­feitura que é quem me paga?

Folha – Existe muita sujeira no meio público?

Joel – Sim, há muitos desvios, mas infelizmente tem muita que a gente sabe mas não pode falar porque não pode provar.

Folha – E com relação ao próximo prefeito Marquinho Mendes, o que espera?

Joel – Eu já o conheço de outra gestão. Espero que ele nos res­peite. Ele nos respeitou bastante, só que não falando apenas desse prefeito, o piso salarial sempre foi mantido muito baixo para poder que os gestores pudessem fazer agrados de vez em quando, pagando abonos com aquilo que deixou de pagar como salário.