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Hospital da Mulher: nova diretora quer humanização

Tânia Lydia afirma que hospital funciona bem e que pretende “acalmar a população”

10 abril 2019 - 08h46
Hospital da Mulher: nova diretora quer humanização

TOMÁS BAGGIO

A médica Tânia Lydia Matosinhos Lowen Pires afirma estar “preparada” e “ansiosa” para o grande desafio que terá pela frente. A ginecologista e obstetra assumiu ontem a diretoria geral do Hospital Municipal da Mulher de Cabo Frio. A unidade passa por uma crise sem precedentes ao ser alvo de duas investigações simultâneas, uma na Câmara Municipal e outra na Assembléia Legislativa (Alerj), em virtude das mortes de bebês ocorridas desde o início do ano. 

Em entrevista à Folha, Tânia, que já fazia parte da equipe do hospital como membro da comissão interna que faz a revisão de prontuários e óbitos, defendeu o trabalho realizado na unidade e disse que não há motivo para alarde.

– O hospital está funcionando direitinho, tem medicamentos, tudo... Tanto é que, quando teve a visita da CPI do Rio, eles falaram que o hospital estava maquiado, mas não é. É que, quando você chega, vê que a realidade é outra, muito mais amena do que está pensando – disse a médica, que já foi diretora do Hospital da Mulher entre 2007 e 2009, no segundo mandato do ex-prefeito Marquinho Mendes.

Junto com Tânia, assumem Cristina do Vale Faria, também ginecologista e obstetra, na diretoria técnica, e a enfermeira Simone Sant’Anna na diretoria administrativa.

– Acredito que a gente vai conseguir acalmar a população e fazer um trabalho igual ou melhor que foi feito anteriormente – disse Tânia.

Veja a entrevista completa a seguir:

Folha dos Lagos – Quais são as suas prioridades e como enxerga este momento pelo qual passa o Hospital da Mulher?

Tânia Lydia Matosinhos Lowen Pires – Na realidade está acontecendo uma serie de coisas. Eu estava fazendo essa parte de revisão de óbitos. Todo óbito que acontece, a gente tem uma comissão para classificar e investigar internamente. Isso independe de ter Ministério Público ou qualquer coisa. Então eu venho acompanhando tudo de perto. Primeiro, quando se fala que teve 17 óbitos (desde o início do ano), teve sim, mas muitas mães já chegam com a criança em óbito intrauterino. Isso não entra para a nossa porcentagem, para a nossa estatística de óbitos. Então existem falhas? Existem, sim. A gente precisa que essas mães façam pré-natal, que elas tomem as medicações específicas do que é mandado fazer, que repitam exames.

Folha – Esses óbitos que ocorreram poderiam ter sido evitados? 

Tânia – Poderiam ter sido evitados se essas mães tivessem feito um pré-natal adequado, o que não ocorreu, ou por falha do sistema de saúde, ou por falha delas mesmo. Agora, de qualquer maneira, a gente está bastante assustado (com a repercussão). A própria equipe está bastante assustada porque a gente vive com a vida, e não com a morte. Principalmente em maternidade. Cada óbito que existe, a equipe toda fica sentida, se perguntando o que poderia ter sido feito e tal. Então a gente vai trabalhar essa parte de humanização do atendimento. Já marquei reuniões com os ESFs (equipes de Estratégia de Saúde da Família) para que a gente possa ter um feedback dessas gestantes que se internam, vão pra casa em tratamento e que a gente fica sem saber o que aconteceu, e só volta a ver no momento do parto. Ali (Hospital da Mulher) é o ponto final. A gente não tem a ação do pré-natal, a gente é o ponto final. Estamos muito preocupados que se evite chegar lá com algum problema, porque uma vez chegando lá com infecções, ela (gestante) trata da infecção, mas não significa que o neném não vai ter um problema na hora do parto, e pode vir a óbito. A gente está muito preocupado em tratar as causas de tudo isso que houve.

Folha – Depois que as mães chegaram no hospital não dava mais para evitar essas mortes?

Tânia – Não. Vamos pegar março, que está mais próximo. Tivemos cinco óbitos em março. Um óbito foi por prematuridade extrema, que é quando o bebê nasce com menos de 5 meses ou menos 500g. Nos outros quatro óbitos os bebes já chegaram mortos no hospital.

Folha – Então, na sua opinião, o hospital já vinha funcionando adequadamente?

Tânia – É, eu acredito que sim. Tem coisas pontuais. A gente vai ter que fazer uma obra grande, a Vigilância Sanitária esteve lá, vai precisar de uma obra grande na lavanderia, adequar o lactário porque está funcionando de uma forma inadequada... Mas são coisas pontuais. Não houve nenhuma infecção, por exemplo. Quando se fala em óbito no hospital, já se pensa que é por infecção, material inadequado, falta de medicação... na realidade não foi nada disso. Os óbitos ocorreram por outras patologias maternas, que a gente até considera como causas evitáveis, porque se tivesse feito um bom pré-natal não teria ocorrido, se não tivesse a infecção não teria ocorrido. São casos que você pode evitar fazendo exames e detectando isso. É uma pena, realmente é uma pena. Às vezes a gente pega bebês enormes, com oito, nove meses, em óbito. A gente vê a ansiedade da mãe e de toda a família. É muito ruim o óbito, sempre.

Folha – Considera a situação alarmante?

Tânia – Não. Estou assumindo a partir de hoje (ontem). Vou conversar com meu secretário (de Saúde, Márcio Mureb), mas a gente pode marcar uma visita pra vocês verem as instalações. O hospital está funcionando direitinho, tem medicamentos, tudo... Tanto é que, quando teve a visita da CPI do Rio, eles falaram que o hospital estava maquiado, mas não é. É que, quando você chega, vê que a realidade é outra, muito mais amena do que está pensando. 

Folha – Muitas gestantes vêm relatando que estão com medo de serem atendidas no Hospital da Mulher...

Tânia – É uma pena realmente. Eu estou muito preocupada porque as gestantes estão migrando para São Pedro da Aldeia, principalmente. O hospital de lá (Missão de São Pedro) trabalha muito direitinho, mas ele não tem estrutura profissional, porque são só dois obstetras, um anestesista e um pediatra. Não tem como comportar a demanda de Cabo Frio. Ainda agora ouvi em uma rádio uma pessoa dizendo que ‘tem que fechar’ o Hospital da Mulher. É um absurdo falar isso. até porque ele atende toda a região, não só Cabo Frio. E não existe infecção ou qualquer outra coisa que esteja dando problema para esse óbitos. Estou muito alarmada. Você imagina uma gestante que precisa ir no hospital, como ela já entra... Pode acabar com uma doença hipertensiva pelo nível de estresse que vai encontrar.  

Folha – O que ouviu do prefeito e do secretário de Saúde quando recebeu o convite para assumir a direção?

Tânia – Eles querem, neste momento, fazer essa parte de humanização, não só da equipe, mas do paciente também, que está entrando com medo. Vamos trabalhar essa parte de humanização com palestras, estimulação, e a ouvidoria precisa ir diariamente nos leitos para ver se existem não conformidades. Às vezes o paciente está chateado com alguma coisa, isso precisa ser ouvido. Tem que procurar sanar o problema. Acredito que a gente vai conseguir acalmar a população e fazer um trabalho igual ou melhor que foi feito anteriormente.

Folha – Acredita que será possível diminuir o número de mortes com essas ações?

Tânia – Com certeza. Porque a gente vai estar tratando o motivo, e não pegando a consequência.

Folha – Uma nota divulgada em janeiro pelo Hospital da Mulher dizia que “os recentes óbitos de nascituros entre o dia 1º de janeiro de 2019 até a presente data ocorreram por diversos fatores: ausência de pré-natal, doenças sexualmente transmissíveis contraídas pelas genitoras e o consumo de substâncias entorpecentes”. Concorda com isso? 
Tânia –
Isso aconteceu realmente. Tivemos causa de óbito por sífilis intra útero, em um nível muito grande. Estamos, inclusive, em parceria com a saúde coletiva para fazer ações em praças e outros lugares para diminuir esses índices, não só em gestantes, mas na população em geral. Tivemos infecções urinárias que foram as causas de trabalho de parto prematuro. Tivemos também uma má formação fetal grave, que já tinha sido diagnosticada através de ultrassonografia, e a gente já sabia. A mãe entrou em trabalho de parto prematuro e o bebê foi a óbito nas primeiras horas de vida. Tivemos gestantes com uso de entorpecentes também.

Folha – Isso causou um grande mal estar. Famílias disseram que não usavam drogas, não tinham doenças e o pré-natal estava em dia. Se sentiram culpadas pelo hospital. Está correto isso?
Tânia –
Talvez a colocação tenha sido errada, generalizada. Mas que foi por causa disso, foi. A gente tem uma dificuldade porque nosso hospital é de baixo risco para médio, porque tem uma UI (Unidade Intermediária), mas não temos UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Quando precisa de UTI a gente pede transferência ao estado, que também está sobrecarregado e muitas vezes não tem vaga. Então a paciente fica ali por um tempo indeterminado em tratamento, mas a gente sabe que deveria estar em outra unidade. Isso tudo é documentado. Muitas vezes esse óbito pode ser evitado em uma instituição com mais recursos. A gente pede essa vaga e o estado não dá. Acaba tendo o bebê prematuro ali e acontecendo o pior. Não se pode generalizar que todos tenham DSTs, de forma alguma, mas muitas das causas são essas.

Folha – Como pretende colaborar com as CPI’s que investigam as mortes?

Tânia – A CPI pra gente é ótima porque estão fazendo uma auditoria externa, uma visão totalmente diferente da visão da gente no dia a dia. Então isso vai ajudar muito na melhora da qualidade. Tudo que a Prefeitura vai comprar, ela precisa muitas vezes ser acionada para fazer alguma compra em caráter de emergência. Fica até mais fácil justificar uma compra ou uma obra dessas. Então a CPI vai ajudar, primeiro, a esclarecer tudo que houve, e a gente não tem a intenção de esconder nada. E, segundo, que ela está fazendo uma auditoria muito importante, que vai fazer com que seja estabelecido um quadro de prioridades a serem feitas para a melhora no atendimento às gestantes.

Folha – Está preparada para o desafio?

Tânia – Com certeza. Preparada e ansiosa. Eu gosto muito do Hospital da Mulher, visto a camisa e sei que o pessoal é capacitado para o atendimento.