Assine Já
domingo, 24 de outubro de 2021
Região dos Lagos
27ºmax
18ºmin
TEMPO REAL Confirmados: 52262 Óbitos: 2141
Confirmados Óbitos
Araruama 12321 438
Armação dos Búzios 6516 72
Arraial do Cabo 1720 92
Cabo Frio 14721 876
Iguaba Grande 5469 140
São Pedro da Aldeia 6984 288
Saquarema 4531 235
Últimas notícias sobre a COVID-19
Geral

Especial | 'Em busca do ouro': O impacto da prisão de Glaidson Acácio em Cabo Frio

História cinematográfica do mercado de empresas de criptomoedas na cidade vai do êxtase à apreensão por possibilidade de economia transformada em terra arrasada

27 agosto 2021 - 17h00Por Redação

No filme ‘Em Busca do Ouro’, de Charles Chaplin, clássico da sétima arte, o cineasta interpreta personagem que tenta a sorte no garimpo em minas do congelante estado do Alasca, nos EUA. Era a “febre do ouro”, em 1898. Na Região dos Lagos, conhecida pelas praias deslumbrantes, um roteiro cinematográfico – que inclui a “peregrinação” de milhares de investidores em busca de expressivos retornos financeiros – tem se descortinado a partir de operações da Polícia Federal contra empresas de bitcoin, que ganharam destaque na mídia nacional nas últimas semanas, culminando com a prisão, na quarta-feira (25), de Glaidson Acácio dos Santos, dono da GAS Consultoria Bitcoin, sob a acusação de “pirâmide financeira”. Em vídeo publicado nas redes sociais, como resposta a reportagens publicadas na imprensa, especialmente no Fantástico, da TV Globo, Glaidson nega ilegalidades em seu negócio, que rende aos investidores 10% ao mês sobre o capital investido, mas afirma que o apelido de “Novo Egito” dado a Cabo Frio é justificável por conta das promessas de lucros diários e “altíssimos” prometidos na cidade por outras empresas, que, defende, deveriam ser investigadas. 

A notícia da prisão veio logo cedo. Pelo Twitter, uma internauta postou: “quando apareceu no jornal que Glaidson foi preso, a academia parou e o cara começou a chorar”. Enquanto o caso tornava-se manchete nos principais veículos de imprensa do país, um clima de apreensão e nervosismo começou em Cabo Frio e demais cidades da região. Não há assunto que tome mais tempo nas rodas de conversa nos últimos dias. Nas redes sociais, centenas de investidores postam mensagens de apoio ao empresário. Uma carreata foi realizada no fim da tarde de quinta (26), na orla da Praia do Forte. Além disso, as discussões tomaram contorno de discussão política: na internet, muitos compartilham palavras de ordem contra a imprensa e o sistema financeiro tradicional, argumentando receber em dia, apesar de a Polícia Federal afirmar que se trata de um esquema Ponzi, no qual o dinheiro aplicado por novos investidores é utilizado para pagar os mais antigos. O bitcoin é um tipo de moeda virtual. É possível adquirir as criptomoedas (moedas virtuais) diretamente nas corretoras especializadas. Entretanto, as empresas investigadas afirmam prestar serviço de consultoria de terceirização do trade (operações que buscam rentabilidade aproveitando-se da volatilidade do mercado). 

O “barulhaço” em defesa de Glaidson mostra quão grande pode ser sua carteira de clientes. Por isso, há o temor de que uma possível desestruturação definitiva da empresa transforme a economia de Cabo Frio em terra arrasada. Sem se identificar, o proprietário de tradicional restaurante da cidade projetou que isso iria reduzir drasticamente o movimento em bares, restaurantes e pizzarias e outros estabelecimentos do segmento A & B – Alimentos e Bebidas. “Estaremos salvos somente se houver um milagre”, desabafou. 

Assim como no filme de Chaplin, no qual a tragédia da fome é simbolizada por célebre cena em que o protagonista aparece comendo o próprio sapato, a “busca do ouro” na cidade é sintoma não apenas da ganância, mas, também, de uma sedutora luz no fim do túnel em meio a tragédias financeiras individuais. São muitos os fatores que deram a Cabo Frio as condições de “temperatura e pressão” adequadas para a prosperidade desse tipo de negócio. Num município cujo motor econômico sempre foi dependente da injeção de recursos da Prefeitura, a crise apertou com severidade nos últimos anos. Manifestações por conta de atrasos salariais de servidores tornaram-se corriqueiras. Como se sabe, os atrasos da Prefeitura criam efeito cascata para a economia local, já que o dinheiro deixa de circular no comércio e no setor de serviços. Com os cofres públicos minguados, as grandes obras, eventos e shows de grande porte que estimulavam a criação de emprego e o turismo tornaram-se coisa do passado. Para piorar, veio, na sequência, a pandemia do Coronavírus, com seu efeito destrutivo. Não à toa, a PF divulgou que 50% da movimentação feita pela empresa de Glaidson veio nos últimos 12 meses. Soma-se a isso tudo uma característica peculiar de Cabo Frio, que ainda guarda características de cidade pequena, fazendo com que o boca a boca em torno dos investimentos se espalhassem como fogo em palha seca. Há relatos de quem pegou empréstimo e vendeu imóveis para tornar-se investidor. E até mesmo de quem tem usado a rentabilidade mensal como única fonte de renda ou mesmo para quitar parcelas de dívidas. 

Entretanto, segundo as autoridades, o negócio é irregular. “As pessoas em Cabo Frio estão simplesmente romantizando pirâmide financeira e lavagem de dinheiro porque ‘ajuda as pessoas’”, criticou um usuário do Twitter. Pelo menos 120 policiais federais participaram da Operação Kryptos, deflagrada pela PF, Receita Federal e Gaeco / Ministério Público Federal. Foram cumpridos sete mandados de sete mandados de prisão preventiva, dois mandados de prisão temporária e 15 mandados de busca e apreensão em várias partes do país. Glaidson Acácio dos Santos foi encontrado numa mansão de luxo às margens da Lagoa de Jacarepaguá, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio. No local, agentes encontraram R$ 14 milhões em espécie entre notas de real, dólar e euro, além de barras de ouro. Além disso, segundo a PF, foram apreendidos 591 bitcoins, avaliados em mais de R$ 147 milhões. A PF sustenta que a empresa movimentava “cifras bilionárias”, através de oferta pública de contrato de investimento, sem prévio registro nos órgãos regulatórios. 

A empresa de Glaidson, que até 2014 trabalhava como garçom, vinha sendo investigada há meses. Em abril deste ano, mais de R$ 7 milhões foram apreendidos em Búzios com um casal que estava a serviço da empresa GAS. Pelo menos dez empresas que oferecem investimentos com lucro alto e rápido na cidade são observadas pelas autoridades. Os investigados poderão responder, na medida das suas responsabilidades, pelos crimes de gestão fraudulenta/temerária instituição financeira clandestina, emissão ilegal de valores mobiliários sem registro prévio, organização criminosa e lavagem de capitais. Se condenados, poderão cumprir pena de até 26 anos de reclusão.

Em mensagens de áudio, compartilhadas através do Whatsapp, pessoas ligadas a Glaidson Acásio disseram que “em absolutamente nada a parte operacional, administrativa e financeira da empresa sofrerá qualquer tipo de abalo com isso”. E continua: “A nossa imagem foi um pouco trincada, desgastada, mas nós vamos passar por cima disso tudo”. O áudio continua, com um homem pedindo que a mensagem fosse passada a todos os clientes para que a confiança fosse reforçada. E pedia paciência “principalmente com os clientes mais novos.

Casos de polícia  - Não é de hoje que o mercado de criptomoedas na região está nas páginas policiais. Em março, o empresário Nilson Alves, conhecido como Nilsinho, foi baleado nas proximidades da padaria Remmar, no bairro Braga, em Cabo Frio. No início de agosto, o empresário do ramo de criptomoedas e influenciador digital Wesley Pessano, de 22 anos, foi morto com vários tiros quando estava dentro do seu carro, um Porsche, no bairro São João, em São Pedro da Aldeia. 

A resposta 
de Glaidson

Em vídeo de 34 minutos, que circula na internet após veiculação de denúncias na imprensa, o empresário se defende das acusações. Confira alguns trechos:

Trabalho de garçom – “Fui garçom, sim. Tenho orgulho, e gostaria de deixar um abraço a todos os garçons do nosso país. Não tenho vergonha de dizer que fui garçom. Sou negro, não tenho vergonha da cor da minha pele. Isso não me faz menor, inferior a ninguém”. 

Novo Egito – “Venho esclarecer, em primeiro lugar, que nossa empresa não pactua com pirâmide financeira. O título da matéria, em mencionar que Cabo Frio é o “Novo Egito”: sim, lá de fato e de verdade existem inúmeras empresas suposta pirâmide financeira, o que é crime contra a economia popular. (...) Gostaria de pedir à mídia centralizada pra fazer também  uma matéria com respeito a empresas que estão em Cabo Frio... não em Cabo Frio, no Brasil, no Rio de Janeiro... que estão oferendo lucro de 5% diário, 1% diário.” 

Atividade – “O que nossa empresa faz há nove anos é trade. Há uma grande diferença entre poupar, investir e terceirizar equipe de trade de critpoativos. Quando você terceiriza, não está investindo em bitcoin. Não é recomendação de compra. Não é dinheiro fácil. Não existe almoço grátis. Simplesmente presto consultoria privada. E a Constituição me permite isso. Nós não fazemos oferta pública. Nunca fizemos.”

 

Nesta sexta-feira (27), uma nota oficial assinada pela assessoria jurídica e assessoria de comunicação da Gas foi divulgada. Confira o texto na íntegra: "Primeiramente, cabe esclarecer que durante todos esses anos de atuação no mercado nenhum único cliente deixou de receber o pagamento no dia previsto em contrato. Sempre honramos nossos compromissos com os nossos clientes e comunicamos que todos os pagamentos de contratos continuam sendo realizados. Nosso trabalho e experiência de 9 anos no mercado nos posiciona com credibilidade e idoneidade. O mercado de criptoativos veio para ficar. E toda novidade causa estranheza, principalmente, quando vem para ferir interesses de uma minoria, que sempre se manteve no topo, tirando proveito da maioria da população. Sabíamos que seria assim, mas estamos tranquilos por estarmos firmados nos trilhos da verdade, da honestidade e da distribuição justa de renda. Nosso principal objetivo sempre foi a democratização do conhecimento do mercado tecnológico e levar independência financeira aos nossos clientes. Deixamos claro mais uma vez que nossa empresa não pactua com pirâmides financeiras ou qualquer outra prática ilícita que venha prejudicar à economia popular. Temos a plena consciência do que a G.A.S representa para muitas famílias brasileiras. E vamos continuar no nosso propósito, mudando vidas e realizando sonhos. Entendemos que a prisão de nosso CEO foi desnecessária, uma vez que sempre estivemos à disposição para todo e qualquer esclarecimento referente ao nosso trabalho, perante à Justiça. Cumpre informar que apenas no fim da tarde desta quinta-feira (26/08), após incansável insistência dos nossos advogados, tivemos acesso ao processo judicial. Todas as denúncias estão sendo esclarecidas com os órgãos competentes. Nossas equipes estão atuando fortemente para que a verdade prevaleça e que o mercado de criptoativos seja regulamentado no nosso país. A estrutura operacional e administrativa da empresa segue e seguirá funcionando normalmente. Reiteramos nosso compromisso com todos os clientes".

Políticos se manifestam sobre a prisão de Glaidson

A prisão de Glaidson Acácio dos Santo mobilizou somente funcionários, amigos e investidores do empresário. Políticos de Cabo Frio também se manifestaram. Entre eles, o deputado estadual Mauro Bernardo, o ex-prefeito Alair Corrêa, o ex-vereador Vanderlei Bento e o prefeito José Bonifácio. 

Nas redes sociais, o ex-prefeito de Cabo Frio Alair Corrêa fez uma postagem dizendo que “a moeda bitcoin chegou a Cabo Frio mudando a vida dos cabofrienses”. No texto, ele diz que a cidade virou a “sensação da mídia nacional” até se consumar a prisão do dono da GAS, e fez questão de deixar claro que não conhece “o tal do Glaidson”, nem tem dinheiro investido na empresa. “Como sou um homem público atuante, não me furto a posicionar-me em relação a tudo que se relacione à nossa região, ainda que seja um assunto polêmico, como é esse caso, que diferente de alguns, não vejo como pirâmide”.

Na postagem, o ex-prefeito afirma que tem visto "a cidade triste, o povo aflito e receoso com o risco de perder suas economias e seu ganho mensal". E continua: “Algumas pessoas que não aplicaram, torcem para que o empresário continue preso, sem se importar com o fato de que seus irmãos estejam perdendo suas economias. Coitados, esquecem que os 10% prometidos têm sido pagos mensalmente pelo tal de Glaidson e de outras empresas do ramo, permitindo a movimentação da economia de nossa região com os 10% dos ganhos mensais que recebem. Parece que preferem ser espoliados pelos banqueiros”. Alair afirmou que ao pedir dinheiro emprestado no cartão de crédito, as pessoas pagam 27% de juros, e quando depositam na poupança, recebem menos de 1% ao mês de rendimentos. E reafirmou que as pessoas passaram a viver melhor com o investimento em bitcoin através da GAS “pois o cara paga 10% de ganhos mensais, sem jamais ter atrasado, e, por isso, pode estar sendo perseguido”.

O ex-vereador Vanderlei Bento também usou as redes sociais para se pronunciar. “Você acha mesmo que é fácil abrir mão de um dinheiro que você suou anos pra conseguir, e investir esperando uma rentabilidade? Você acha mesmo que é fácil vender um carro, uma casa, um bem e investir? É preciso ter muita coragem e vontade pra fazer isso”, comentou Vanderlei. Na postagem, o filho do também ex-vereador, ex-deputado e ex-vice-prefeito Silas Bento disse que “quando um pobre toma essa atitude ele não está esperando ficar rico nem ficar de pernas pro ar. O que ele quer é aumentar a renda dele, e assim conseguir colocar uma comida digna na mesa pra família e não depender de bolsa família miserável, que ganhar um pouco mais pra diminuir sua jornada de trabalho e conseguir ser mais presentes no dia a dia dos seus filhos. O que ele quer é usufruir no final de semana de um lazer agradável”. E questiona: “Por que, não? O pobre não merece ser feliz também?” Ele concluiu a postagem lembrando que vivemos num país sem perspectivas de crescimento, onde as pessoas precisam trabalhar muito para pagar impostos absurdos, “e quando vem alguém que acha um caminho, que faz com que isso seja possível, é massacrado? Ele enriqueceu, sim, e fez por merecer. E que enriqueça muito mais. Ele não enriqueceu lesando ninguém. Pelo contrário, ganhou dinheiro ajudando vidas”.

O deputado estadual Mauro Bernardo postou dois vídeos em suas redes sociais onde fala sobre a prisão de Glaidson, classificada por ele como uma polêmica covarde. Para ele, o empresário foi preso somente "por ser um ex-garçom e negro". “Ele roubou o dinheiro de alguém? Ele ‘trambicou’ alguém? Tem alguém que aplicou dinheiro com ele não recebeu? Isso aí é porque ele é um rapaz que era um garçom, é negro, preto, e ninguém aceita que uma pessoa como essa possa subir na vida”. Num dos vídeos, em que parece conversar com um jornalista por telefone, Mauro Bernardo diz que não conhece Glaidson, que não possui dinheiro com ele, mas que está solidário ao empresário porque “a população toda de Cabo Frio tá com ele". Disse ainda: "E se o povo está com ele, eu tenho que estar também, porque sou povão. Se a Polícia Federal provar o que está no inquérito, eu mudo minha opinião. Eu vou ficar contra ele se ele estiver errado. Mas por enquanto eu acho que ele está certo”, defendeu.

Num dos vídeos, o deputado estadual, que é policial militar reformado, diz que se fosse advogado faria a defesa de Glaidson. E diz que "guardar dinheiro em casa não é crime": “Vamos lá: amanhã eu ganho R$ 300 milhões na loteria esportiva, e guardo na minha casa. Aí a polícia vai lá e vai tomar meu dinheiro? O dinheiro é meu, eu guardo onde eu quiser. Eu não sou obrigado a botar meu dinheiro no banco. Eu sou obrigado a dar satisfação de onde vem o dinheiro. Se o dinheiro não veio de lavagem de crime, não veio de corrupção, é covardia o que estão fazendo. Várias pessoas em Cabo Frio, milhões de pessoas estão a favor dele, estão achando isso uma covardia e estão sem receber seu dinheiro. O cara aplicar dinheiro em órgão não é crime, desde que não seja contravenção penal, não seja de crime. O dinheiro é do cara e o cara aplica onde quer. Dinheiro que ele ganhou honestamente. O outro dinheiro que foi encontrado, trinta e poucos milhões com aquele deputado, estava onde? Dentro de uma casa abandonada. Isso, sim, é dinheiro ilícito. O dele não pode ser lícito, por que? Ele estava guardado dentro de casa, com a família dele. Meus amigos, eu sei que vocês estão investigando, mas investiguem direito porque vocês estão no caminho errado”, disse Mauro Bernardo.

Já o prefeito de Cabo Frio, José Bonifácio, que também é economista por formação, não se manifestou publicamente sobre o assunto, mas, em entrevista ao portal RC24h, afirmou que sempre defendeu que a GAS e outras semelhantes "uma hora iam dar errado porque não haveria possibilidade de uma aplicação oferecendo 10%, 15%, 20%, até 30% de lucro, durar muito tempo". “Era especulação, e uma hora ia ser interrompido por questões legais, ia dar problema”, disse Bonifácio.

 

Descubra por que a Folha dos Lagos escreveu com credibilidade seus 30 anos de história. Assine o jornal e receba nossas edições em casa.

Assine Já*Com a assinatura, você também tem acesso à área restrita no site.