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INDIGNAÇÃO

Entidades acusam palestrante de racismo em formação de professores da Prefeitura de Búzios

Município contratou empresa sem licitação por R$ 17 mil para falar sobre Educação em tempos de pandemia

26 abril 2021 - 18h29Por Redação

O que seria uma formação de professores da rede municipal de Búzios sobre Educação em tempos de pandemia acabou em revolta e acusações contra o Instituto Conhecer e o palestrante Dalmir Sant’Anna, contratados para o trabalho. Uma nota de repúdio assinada pelo Sindicato dos Profissionais da Educação (Sepe Lagos) e outras dezenas de entidades representativas de educadores e de ativismo racial aponta que houve racismo de Dalmir ao associar uma suposta postura de falta de vontade de trabalhar às pessoas negras, durante uma live promovida pela Secretaria Municipal de Educação na última quinta-feira (22).

Em determinado momento da palestra, que ocorreu de modo on-line, Dalmir colocou uma máscara e uma peruca para representar a figura de um homem negro, ao som da música ‘Retirantes’, de Dorival Caymmi, que foi tema de abertura da novela Escrava Isaura, exibida pela TV Globo em 1976, mas que ficou marcada até hoje. Em outro momento disse que a origem humana veio de Adão e Eva, contrariando dados científicos. 

– Felicidade muitas vezes incomoda muitas pessoas que estão do seu lado. Experimenta chegar feliz e sempre vai ter alguém torcendo “vamos ver até quando vai durar essa felicidade”. Então não vamos ter que acreditar infelizmente encontramos pessoas desanimadoras, tristes. Pessoas que gostam de reclamar de tudo. Tem ou não tem? Tem sim. E aí nós vamos acreditar que tem pessoas que são assim – disse o palestrante, enquanto coloca a máscara e subia de fundo a música, associada ao período da escravidão. 

Os educadores apontam que, em nenhum momento, durante a 1h47 da palestra houve menção aos cuidados necessários para o trabalho presencial durante a pandemia de Covid-19. Ao longo das falas do coach, apenas frases supostamente motivacionais e elogios à gestão do prefeito Alexandre Martins e da Secretaria de Educação.

O Instituto Conhecer, empresa do Espírito Santo responsável pela formação dos profissionais, foi contratada pela Prefeitura de Búzios, sem licitação, por R$ 17 mil. Os educadores apontam que nem a empresa tampouco o palestrante tinha condições de tratar do assunto proposto. 

– Nós esperávamos que o palestrante tratasse da crise sanitária atual, das medidas necessárias para o retorno das aulas presenciais de forma segura para profissionais da educação e alunos; e quais, neste contexto, as dificuldades e possibilidades para a viabilização do ensino remoto nas escolas situadas principalmente em áreas mais carentes do município, ou ainda que falaria sobre as ações que a prefeitura está tomando para garantir aos alunos e aos profissionais da educação auxílio na aquisição de dispositivos digitais e conectividade para viabilização de maior interatividade nas atividades remotas. Em contrapartida, a palestra se restringiu, ao uso insistente de frases de efeito, com ênfase em criar a já tão propalada falsa narrativa de que “servidores públicos reclamam demais”, inclusive fazendo trocadilho com a própria palavra, servidor – diz a nota conjunta do Sepe e das outras entidades. 

O Coletivo Griot Pesquisa, Difusão e Memória em Tradições Afro também repudiou o episódio.

“Vincular coisas ruins a imagens de pessoas pretas, numa "brincadeira", numa pretensa peça de humor, é um expediente antigo do racismo estrutural. O corpo branco dificilmente é racializado nestas questões e "brincadeiras". Sem contar que tem as leis 10.639/03 e 11.645/08 que são instrumentos de valorização da história preta e indígena, que foi desconsiderada pelas instituições envolvidas. Desvalorização, caricatural ou depreciativa se configura em ferir a própria LDB, contrariando as leis acima citadas. Não vamos nos livrar de práticas e comportamentos racistas se não nos indignarmos, sem repudiarmos aquilo que ofende e demoniza o corpo preto”, diz o comunicado.

Respostas ؘ– Em nota, o Instituto Conhecer disse que “repudia veementemente qualquer tipo de preconceito, seja de raça, credo, gênero, orientação sexual, assim como qualquer tipo de violência física ou mental”.

“Nos desculpamos com todos profissionais da educação da rede municipal de Armação dos Búzios, que se sentiram ofendidos com o conteúdo da live da manhã do dia 22/04/2020, para a Secretaria de Educação de Armação dos Búzios. Reafirmamos nosso compromisso com a defesa e o combate a toda forma de discriminação e desrespeito ao ser humano”, diz o texto.

Por sua vez, a Secretaria Municipal de Educação, Ciência e Tecnologia de Búzios também emitiu nota de repúdio contra qualquer ato de discriminação racial e de intolerância durante o Encontro dos Profissionais da Educação 2021. O vídeo foi retirado do ar.

Em relação à falta de licitação na contratação da palestra, a Prefeitura afirma que, de acordo com a Lei 8.666, em contratações de até R$17 mil, ela é dispensada.

Até o fechamento desta reportagem, o palestrante Dalmir Sant’Anna não respondeu ao questionamento da reportagem. Essa matéria será atualizada quando isso ocorrer.

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