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Em meio à pandemia, Cabo Frio abre mão de abordagem social para moradores de rua

Prefeitura segue sem plano de ação formal e efetivo para a questão diante da crise do coronavírus

25 março 2020 - 19h54Por Rodrigo Cabral
Noite de terça-feira (25), 19h, Largo de Santo Antônio, centro de Cabo Frio. O silêncio que impera na cidade em quarentena é cortado pela conversa de um pequeno grupo de pessoas em situação de rua, num dos bancos da praça. É gente que, após mais de uma semana do primeiro decreto municipal com medidas de combate ao novo coronavírus, no dia 13, continua sem receber a prometida assistência da Prefeitura.
 
A Folha apurou que, de lá para cá, as abordagens sociais têm sido reduzidas – ou quase zeradas. Além disso, Cabo Frio ainda não estabeleceu um plano formal e efetivo sobre a questão em meio à crise do coronavírus. À reportagem, no entanto, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, Direitos Humanos e da Mulher (SEDESDIM) respondeu que o serviço de abordagem continua. Porém, só em casos emergenciais. Ainda de acordo com a pasta, está sendo realizado "protocolo para reforçar atendimento à população".
 
– Ninguém, não veio ninguém – afirmou um dos moradores em situação de rua à reportagem quando perguntado se foi procurado, nos últimos dias, por representantes do governo municipal com orientações a respeito da pandemia da Covid-19 e sobre acolhimento.
 
– Nada – acrescentou outro, enquanto outros dois aumentavam o coro. Revelou ainda que não sente medo do novo coronavírus:
 
– Deus é por nós!
 
O fato vai na contramão do que disse o prefeito, Adriano Moreno, em entrevista na manhã de terça-feira (25) na TV.
 
– Os moradores de rua estamos tentando recolher. E levar para a Casa de Passagem. Muitos são usuários de drogas, fogem da Casa de Passagem. Alguns estamos descobrindo de onde são para devolvermos para suas respectivas casas ou cidades. Pagamos passagem, mas muitos não querem ir embora. Muitos perderam até a vontade de viver. Precisam da nossa solidariedade, do nosso carinho – afirmou Adriano, durante o programa de Sidnei Marinho, na Litoral News.
 
Na prática, não é o que vem acontecendo, conforme apurou a reportagem. Além da redução das abordagens, as pessoas em situação de rua não estão recebendo quaisquer orientações a respeito da disponibilidade da Casa de Passagem, um imóvel localizado no Jardim Olinda, destinado ao acolhimento desta população.
 
A situação, no entanto, pode ser ainda mais grave, já que a Casa de Passagem pode não comportar todos que desejarem ser acolhidos. Nesse caso, segundo especialistas, o ideal seria o acolhimento em pequenos grupos, em local amplo e com estrutura básica.
 
Com a inoperância, a Prefeitura contraria o que determina a portaria nº 334, publicada na terça-feira (24) pelo Ministério da Cidadania. O texto institui medidas a serem adotadas contra o novo coronavírus na área de assistência social, como, entre outros pontos, “a intensificação da disseminação de informação aos usuários acerca do cuidado e prevenção da transmissão, conforme orientações do Ministério da Saúde".
 
Secretaria diz que estratégias
estão sendo estudadas
 
A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, Direitos Humanos e da Mulher (SEDESDIM) afirmou que, de terça-feira (24) para quarta-feira (25), foram cinco novos acolhidos. Em nota enviada à Folha na semana passada, a secretaria afirmou que "estão sendo estudadas estratégias de prevenção para toda a população vulnerável, inclusive para a população em situação de rua. Foram intensificados os acolhimentos por causa do coronavírus".
 
Disse ainda a nota que "tanto os usuários quanto funcionários que chegam em equipamento de acolhimento institucional passam por uma higienização logo na porta da unidade e são orientados a irem direto para o banho e trocarem de roupas a fim de evitar que o vírus entre no equipamento. Todos os usuários estão recebendo as orientações pertinentes quanto a doença e sendo orientados a ficarem em quarentena no equipamento, mas cabe a cada um decidir se fica ou sai do acolhimento. Para aquelas pessoas que estão em situação de rua e desejam, nesse momento, retornar para casa para não ficarem no período de quarentena nas ruas, está sendo visto benefício eventual conforme a lei municipal e disponibilidade das agências de ônibus”.

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