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CPI na Alerj mira licitações do Hospital da Mulher de Cabo Frio

Deputada disse que afastamento dos diretores da unidade é “muito simbólico”

04 abril 2019 - 08h46
CPI na Alerj mira licitações do Hospital da Mulher de Cabo Frio

TOMÁS BAGGIO

A deputada estadual Renata Souza (PSOL), presidente da CPI do Hospital da Mulher na Alerj, disse ontem que o afastamento do diretor-geral da unidade, Paul Dreyer, e da administradora Livia Natividade é “muito simbólico”. Renata espera que a mudança na gestão do hospital facilite o trabalho de investigação sobre as mortes de bebês e nascituros ocorridas desde o início do ano, e disse que a CPI irá buscar informações sobre as licitações feitas para a unidade hospitalar. 

– O afastamento da direção do hospital é muito simbólico neste momento da CPI. Afinal de contas, estivemos em Cabo Frio na segunda-feira fazendo uma vistoria e, na terça, uma audiência na Alerj com a oitiva da direção. Claro que a direção prestou esclarecimentos sobre a sua gestão, mas sem dúvidas restaram outras perguntas que não foram esclarecidas. Por exemplo, a gente precisa saber sobre as licitações, como essas licitações são feitas. Também vamos investigar as formações de ética e de óbito, para ter um número maior de informações – disse a deputada.

Renata Souza acredita que o afastamento de Paul e Livia pode ter relação com o depoimento prestado por eles na CPI. Na ocasião, Paul Dreyer disse que “muitas pacientes chegam já no sofrimento, algumas com hipertensão, usuárias de drogas, sem realizar o pré-natal de maneira adequada” e que “é normal que aconteçam mortes ali no hospital. Acontece, vai acontecer e continuará acontecendo”. Renata Souza afirmou que, para ter certeza sobre os motivos do afastamento, será preciso ouvir o prefeito Adriano Moreno. 

– É possível que o afastamento da direção tenha sido por conta do depoimento prestado. Mas isso a gente só vai saber quando a gente trouxer o prefeito para a oitiva aqui na Alerj. A gente precisa saber dele o que influenciou para esse afastamento – considerou, reiterando o pedido de informações sobre os casos que terminaram em morte.

– Eu espero que o afastamento, na verdade, facilite a nossa investigação, e que não tenha ali alguma questão relacionada a uma tentativa de esconder ou escamotear qualquer uma das informações. A gente precisa que a própria Prefeitura e o secretário de Saúde nos garanta acesso a todos os documentos, para que a CPI do estado possa apresentar para a sociedade resultados qualificados sobre o que aconteceu para que 16 bebês tenham chegado a óbito. A gente precisa que os órgãos públicos e responsáveis pela saúde em Cabo Frio nos forneçam todas as informações que necessitamos – disse ainda a presidente da CPI na Alerj.

Na Câmara Municipal de Cabo Frio, onde uma outra CPI foi formada para investigar as mortes no Hospital da Mulher, o vereador Ricardo Martins (SDD), que preside a comissão, aprovou o afastamento dos diretores do Hospital da Mulher. A demissão de Paul e Livia já havia sido, inclusive, solicitada pela CPI da Câmara antes mesmo do depoimento prestado por eles na CPI da Alerj.

– Acho que (a situação do hospital) muda, porque tinha o desgaste. Vai tirar aquela pressão que, tanto o governo como eles, estavam sofrendo. A gente não está aqui pra julgar, a gente está para apurar. E hoje eu acho que o governo vai trabalhar um pouco mais solto, e a nova administração vai ter uma liberdade maior, talvez, para mudar certas coisas. Acredito que eles (diretores afastados) estavam enfrentando certas dificuldades por pressão interna e externa. E sabemos que na saúde isso é terrível. A Lívia colaborou entregando os documentos e nós estamos aqui para apurar. Não estamos aqui para apontar culpados, nem nada. Mas eu acho que isso (afastamento) foi a melhor forma – declarou o vereador.

Gestão familiar

Para a deputada estadual Renata Souza, havia um “conflito de interesses” pelo fato de o diretor médico do Hospital da Mulher, Paul Dreyer, e a diretora administrativa, Lívia Natividade, serem casados e amigos do prefeito Adriano Moreno (Rede). 

– Sem dúvida iremos realizar oitiva com o secretário de Saúde e podemos solicitar o prefeito também. Afinal, estamos falando de um hospital que tem uma gestão familiar. O diretor e a administradora são casados. Isso é um claro conflito de interesses, já que os dois são testemunhas no processo. Sem falar na relação deles com o próprio prefeito, uma relação afetiva, pois são amigos. Precisamos entender como isso se apresenta – disse ela.

A reportagem da Folha vem tentando contato com o casal de diretores afastados, sem sucesso. A Prefeitura de Cabo Frio disse por nota que “a Secretaria de Saúde só vai se pronunciar após a conclusão da CPI do Hospital da Mulher”. 

Crise começou em janeiro

A crise no Hospital da Mulher começou quando uma série de mortes veio à tona no dia 19 de janeiro. Após uma família conceder entrevista alegando que houve demora e negligência no atendimento, o Hospital da Mulher divulgou uma nota dizendo que “os recentes óbitos de nascituros entre o dia 1º de janeiro de 2019 até a presente data ocorreram por diversos fatores: ausência de pré-natal, doenças sexualmente transmissíveis contraídas pelas genitoras e o consumo de substâncias entorpecentes”. 

Pegou mal. No dia seguinte, a mesma família que havia concedido a entrevista voltou a falar.

– Não concordo com isso. A gente não usa droga, não tem doença transmissível, nada disso. Fizemos o pré-natal todo certinho, foram sete consultas e estava tudo bem com o bebê. A gente se sente mal por passar por tudo isso e ainda estarem acusando a gente – disse Anderson Rodrigues, que perdeu o filho Thiago após a mulher dele, Gilmara Rocha, ter ficado internada por três dias no Hospital da Mulher.

Dois dias depois, o secretário de Saúde se reuniu com vereadores e anunciou uma auditoria no Hospital da Mulher. O resultado não foi divulgado até hoje. Na sequência, a Câmara Municipal e a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) abriram Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) para apurar as mortes. Os relatórios das duas CPIs estão em andamento.

Outro caso que ganhou repercussão negativa foi a morte da menina Gabrielle Biral, de 12 anos, no dia 4 de março. A doença foi detectada em exame realizado em Cabo Frio, mas, segundo a família de Gabrielle, a equipe médica do Hospital da Mulher teria dito que o exame havia dado negativo, chegando a informar que Gabrielle tinha apenas enxaqueca forte.

– Tudo que aconteceu foi um grande absurdo. Se tivessem tratado a meningite desde o começo ela estaria aqui com a gente. Foi uma negligência muito grande – afirmou Giselle Biral, irmã de Gabrielle, em entrevista à Folha.

A Prefeitura respondeu que ela foi tratada adequadamente para meningite.