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feminicídio

Casos Rayzza e Daiana aumentam estatísticas de feminicídio na região

Brasil ocupa o quinto lugar no ranking mundial desse tipo de crime

25 maio 2016 - 09h39Por Gabriel Tinoco
Casos Rayzza e Daiana aumentam estatísticas de feminicídio na região

Lembrada com carinho pelos amigos, Rayzza pretendia cursar Medicina e se mudar de São Pedro (Reprodução)

Em menos de quarenta e oito horas, duas mulheres foram sepultadas na Região dos Lagos após assassinatos brutais. Uma, Daiana Borges, 34, esfaqueada pelo ex-noivo. Outra, Rayzza Ribeiro (foto), 21, esquartejada e carbonizada – e provavelmente estuprada. Mais forte que essas palavras, só o sentimento de dor que fica nas famílias e, para além delas, em uma região que assiste suas mulheres sendo mortas sistematicamente.

O caso de Daiana já foi desvendado. Policiais prenderam, anteontem, Rodrigo Alves, o ex-noivo, que é acusado pelo assassinato. Já o de Rayzza está sendo investigado. O delegado da 125ª DP (São Pedro), Jorge Veloso, afirmou à Folha que a primeira suspeita é que o crime tenha sido cometido por um conhecido, por vingança. Veloso não acredita que as motivações tenham sido por ciúmes ou pela sua participação em movimentos estudantis.

Rayzza foi vista pela última vez num ponto de ônibus no Canal do Itajuru, em Cabo Frio, na madrugada de sábado para domingo. A jovem foi encontrada na manhã de segunda, na Estrada do Chaparral, em São Pedro, mas por conta das condições do corpo, seu reconhecimento não foi imediato. Ela foi enterrada no Cemitério Municipal da cidade, ao lado do hospital Missão, no Centro, na tarde de ontem. Não houve velório porque Rayzza estava completamente desfigurada. No momento do enterro, um silêncio ensurdecedor de dor.

– As investigações começaram desde o momento em que ela foi encontrada morta. Há a suspeita tênue que poderia haver um crime de natureza pessoal. Há a possibilidade do crime ter sido praticado por alguém que ela conhecia. Sendo assim, teria sido por vingança. Ela foi encontrada num lugar ermo e nas condições que todos já sabem. Portanto, achamos que foi mais que um latrocínio – opinou.

O delegado, entretanto, aguarda depoimentos para informações mais precisas.

– A linha da investigação está muito superficial. É muito leviano afirmar, principalmente à imprensa, qualquer coisa no começo das investigações. No começo de toda investigação complicada, em que nenhuma pista foi deixada, é preciso trabalhar em todos os sentidos. Vamos ouvir as pessoas que cercavam ela, devemos fazer uma ida aos últimos lugares em que foi vista e tem a possibilidade de olhar câmeras também – completa.

Projetos que ficaram – A morte de Rayzza causou impacto em toda a cidade e amigos se demonstraram abatidos na hora de comentar o assunto. O tom de tristeza era ainda maior no momento de lembrar projetos e gostos pessoais da menina, que era vestibulanda de Medicina e nutria imensa paixão pela música.

– A Rayzza sempre foi muito alegre, com muitos amigos. Pessoas na região inteira gostavam dela. Era uma menina muito espontânea. Ela queria fazer Enem e tinha muitos planos pela frente. Além de fazer faculdade, um deles era ir embora daqui. Mas muitas coisas ficaram só nos planos. Eu, por sinal, estava dando aulas de baixo para ela, queria montar uma banda. Ela gostava muito de eventos underground daqui e inclusive sentia falta – revelou uma amiga, que preferiu não se identificar.

Outra amiga reforçou que Rayzza tinha vontade de ir embora de São Pedro da Aldeia.

– Ela era muito convicta de tudo. Uma alma livre, sonhadora e forte. Tinha uma personalidade muito forte. Andava sempre de sorriso aberto. A gente sempre marcava de beber uma cerveja no feriado e iríamos marcar de sair nesse. Ela queria ir embora daqui da cidade. Isso é muito irônico – disse outra amiga, que preferiu não ter o nome exposto.

A morte de Rayzza despertou a indignação de muitas mulheres e acendeu ainda mais o debate sobre o feminicídio (mortes intencionais e violentas de mulheres em decorrência de seu sexo) na Região dos Lagos.

A titular da Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) em Cabo Frio, Cláudia Faissal, pede mais denúncias para coibir os crimes cometidos contra mulheres.

– Todo mundo tem que fazer um registro na unidade policial. As mulheres vítimas de violência devem sempre procurar uma unidade policial, especializada ou não, para registrar e evitar que uma morte venha a ocorrer. Como delegada, posso dar essa orientação. Registrando logo de início, na primeira violência, isso pode ser evitado – orienta a delegada.

Segundo o Mapa da Violência de 2015, foram registrados 4.762 homicídios de mulheres no Brasil em 2013. Destes, 50,3% foram cometidos por familiares, sendo a maioria (33,2%) por parceiros ou ex. Isso significa que a cada sete feminicídios, quatro foram praticados por pessoas que tiveram ou tinham relações íntimas.

Feministas farão ato

O Movimento de Mulheres da Região dos Lagos estuda a possibilidade de um ato para mobilizar a população contra o feminicídio. A estudante Rafaela Corrêa considera o crime a gota d’água.

– Nós, do Movimento de Mulheres da Região dos Lagos, nos solidarizamos com a família e amigos de Rayzza e pretendemos fazer um ato contra o feminicídio, que é recorrente na região. Os casos de violência contra a mulher que terminam em morte se repetem e já não podemos mais ficar caladas aceitando isso. O caso de Rayzza foi o estopim, mas agora a luta é de todas nós. Mexeu com uma mexeu com todas – afirma.