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Dossiê Mulher

Casos de estupro disparam em Cabo Frio

Segundo o  ISP, índice de violência sexual subiu 126% no ano passado em relação a 2015

10 agosto 2017 - 09h30Por Rodrigo Branco I Foto: Arquivo Folha
Casos de estupro disparam em Cabo Frio

“Passei por um estupro e isso se reflete em mim até hoje. Mesmo fazendo tratamento psicológico, a gente acaba ficando meio receosa de tudo. Parei de estudar, não ia mais à escola, não conseguia me relacionar com as pessoas, mesmo com os familiares”. O depoimento da promotora de vendas Eva (o nome é fictício), 30 anos, moradora do Jardim Esperança, fala de um trauma por algo ocorrido há mais de 15 anos, depois de uma festinha de escola no Jacaré, mas ilustra um quadro que, infelizmente, está atual como nunca. 

Segundo os dados do Dossiê Mulher 2017, que acaba de ser divulgado pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), o número de casos de estupro em 2016 foi 126% maior do que o registrado no ano anterior. Foram 65 ocorrências em 2015 contra 147 nos doze meses seguintes. Os crimes de cunho sexual foram os que tiveram o maior acréscimo entre os apurados pela Secretaria de Segurança Pública. Para se ter uma ideia, em 2015, eles eram responsáveis por 2,6% de todos os crimes contra a mulher. No ano seguinte, essa proporção aumentou para 6,9%.

Para Ana Carolina Barreto, presidente da ONG Reação Mulher, o número de casos é ainda maior do que o divulgado. Segundo a advogada, o machismo da sociedade, que em muitos casos responsabiliza a vítima, é um dos principais fatores para a subnotificação dos crimes.

– Os números estatísticos sempre foram assustadores, e, se os números oficiais nos levam a acreditar que a violência é grande, imagine se somarmos aos números que ficam à margem, aos números correspondentes às mulheres que sofrem a violência e permanecem caladas, seja por qual motivo for. A nossa sociedade ainda é muito machista, ainda culpabiliza a mulher pela violência sofrida e esse é um fator que muitas vezes explica o silêncio existente mediante a violência sentida e sofrida – pondera.

Após um processo de desmonte nos últimos anos, a coordenadoria municipal da Mulher voltou a trabalhar com mais intensidade desde o começo de 2017. Por essa razão, a coordenadora Tereza Tenan afirma que não tem como comparar os dados oficiais do ISP com os casos que chegavam à antiga secretaria. Com a pasta em reestruturação, Tereza diz que os esforços estão sendo para promover capacitações de funcionários; divulgar o trabalho da coordenadoria e estreitar os laços com as autoridades, como a Polícia Civil, a Defensoria Pública e o Ministério Público. Apesar disso, ela se assusta com as estatísticas deste ano da própria coordenadoria.

– Tivemos muita procura. Somente de janeiro a maio fizemos 112 atendimentos, o que considero um número bem alto. Até pessoas que eram atendidas na minha primeira passagem aqui (2007-2012) voltaram – explica a coordenadora.

Tereza Tenan salienta que os casos contabilizados não são apenas de violência sexual, mas também psicológica, patrimonial e, sobretudo, física. Ela confirma que muitas mulheres hesitam em pedir ajuda. 

– Às vezes, a pessoa nem se reconhece como vítima de violência, se ela não for física. A não ser que ela tenha noção, ou seja alertada por alguém – conclui. 

Procurado, o comandante do 25º Batalhão da Polícia Militar, tenente-coronel André Henrique de Oliveira, foi econômico ao falar do papel da corporação.
– A polícia está na rua para impedir que os estupros aconteçam. O patrulhamento está reforçado – limitou-se a dizer.

A reportagem não conseguiu falar com a titular da Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam), Márcia Beck, para comentar os dados da pesquisa, embora eles sejam de um período em que ela ainda não ocupava a unidade. Enquanto os índices disparam, a vítima citada no começo da reportagem não quer que os filhos e outras pessoas engrossem as estatísticas.

– Tenho um casal de filhos. Olho tudo: mochila, celular, computador. Tem que ter mais segurança. Não quero que aconteça com os outros o que aconteceu comigo – desabafa. 

Mulheres admitem precauções e homens mostram constrangimento

A Folha foi às ruas para falar com a população de Cabo Frio sobre os dados que acabam de ser divulgados pelo Instituto de Segurança Pública (ISP). Enquanto as mulheres lamentaram e admitiram tomar cuidados para não serem surpreendidas, os homens demonstraram desconforto e disseram-se até envergonhados com a situação.

– Em lugar nenhum a gente se sente segura. Tem que ficar ligada. À noite, evito sair de casa. É do trabalho para casa. Não fico dando mole na rua – afirma a auxiliar de secretaria Rose de Oliveira, 49.

A amiga Clara Cardoso, 25, critica o comportamento dos homens na rua. Ela disse ser assediada constantemente.

– Os homens estão muito abusados. Tenho filho pequeno. Mexem comigo mesmo quando estou com ele – relata a estudante de Educação Física, moradora do Jardim Caiçara.

A estudante de Fisioterapia Marcela Rangel, 19, pede mais segurança nas ruas. Ela rechaça a tese de ‘culpa da vítima’.

– As mulheres conquistaram muita coisa, mas segurança é obrigação para todos. Nada é culpa da pessoa. Andar de short curto não é motivo para ser atacada – argumenta.

A estagiária de Contabilidade Gabriela Calistro, 23, afirma que se sente vulnerável.

– Os homens deveriam ser educados, não a mulher que deve parar de usar roupa curta – conclui.

Felipe Oliveira, 27, atua como ‘barman’ na noite e afirma que costuma ver muitos casos de assédio onde trabalha. 

– É lamentável. É uma falta de respeito imenso com um ser humano, principalmente com as mulheres. Eu me sinto constrangido. Não era para acontecer – diz.

O recepcionista Fernando Ferreira, 50, pede penas mais severas para estupro, que é considerado um crime hediondo pela legislação.

– Não tenho filhas, mas tenho sobrinhas. É um crime que deveria ser punido com mais rigor – comenta.