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Casal cabofriense completa sete décadas de união: “não tem receita”

Cumplicidade e companheirismo renderam dois filhos, quatro netos e cinco bisnetas

26 agosto 2014 - 15h11Por Alex Tavares | Fotos: Jhonny Costa
 Casal cabofriense completa sete décadas de união: “não tem receita”

Uma união que rompeu as barreiras do tempo e foge aos moldes atuais. Assim pode ser classificado o casamento de Eva da Cunha Machado, 90, e Luiz Machado Filho, 91, casal que celebra hoje 70 anos de união. Moradores das Palmeiras, em Cabo Frio, eles se conheceram ainda jovens, aos 20 anos de idade e ainda hoje esbanjam vitalidade e bom humor invejáveis, além de demonstrarem em cada detalhe um sentimento que nem eles sabem explicar.

A cumplicidade e companheirismo de uma vida inteira lhes renderam dois filhos, quatro netos e cinco bisnetas. No entanto, como eles mesmos observaram, “os frutos ainda estão sendo colhidos”.

– Não houve uma fórmula secreta para nosso casamento dar certo. Foi algo espontâneo, talvez por isso tenha dado certo. Brigamos como qualquer casal e criamos nossos filhos com muita dificuldade. Somos de uma geração que consertava as coisas ao invés de jogar fora. Passamos por muitos momentos de dificuldade, e isso só fortalecia nossa relação. Nunca poderia imaginar que casaria uma bisneta, como fizemos há pouco tempo. Foi uma vida inteira de realizações – orgulha-se Eva, que classifica sua vida como “repleta de atribulações”.

– Vim de Portugal com seis anos de idade. Meu pai faleceu assim que eu nas-ci. Minha mãe, que era brasileira, veio para cá e me deu para uma família, os Dolores Portela – observa.

O início do namoro – Eva e Luiz se conheceram aos 20 anos de idade, no Hospital da Venerável e Arquiepiscopal Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, no centro do Rio de Janeiro, então capital federal. Luiz, que trabalhava no setor de Raio-X do hospital, ficou encantado por Eva assim que a viu, e tentou de todas as formas chamar atenção de sua pretendente.

– Eu estava acompanhando uma moça internada no hospital onde o Luiz trabalhava. Fui buscar um jornal na portaria e o Luiz foi atrás. Não lembrava desse detalhe. Volta e meia ele aparecia na enfermaria ou cruzava o meu caminho. Achei normal, pois pensei que ele era médico. Nunca imaginei que ele estava de olho em mim até o dia que ele abriu o jogo – diz Eva, recordando os detalhes da época.

– Era um tempo em que não havia tanta maldade. As relações eram diferentes. As amizades eram sinceras. Hoje em dia, parece que as pessoas perderam o respeito umas pelas outras – lamentou, sendo completada por Luiz:

– Naquela época não havia televisão, mas havia ônibus de dois andares, igual aos de Londres. O leite e o pão eram deixados na porta de nossa casa. Dormíamos com portas e janelas abertas e saíamos sem preocupação. Hoje não é possível fazer nada disso – recordou.

Quase separados pela guerra – Luiz trabalhou pouco no tempo no hospital. Sua vocação sempre foi outra, o serviço militar. No entanto, a carreira dele quase separou o casal em duas oportunidades.

– Assim que começamos a namorar, nossas mães faleceram em um curto prazo de tempo. Só tínhamos um ao outro. Nessa época, o Luiz era policial, e precisava de uma autorização para casar. O pedido foi indeferido e ele acabou largando a função para casar comigo - orgulha-se Eva.

Pouco tempo depois, o início da segunda guerra mundial quase afasta o casal recém casado

– Sempre quis ser marinheiro, mas minha mãe não deixou porque eu não sabia nadar. A minha sorte é que, durante o período de guerra, eu estava lotado na cavalaria. Como não dava para atravessar o oceano de cavalo, acabei não indo para a guerra – brincou Luiz.

Talento especial – Se manter ativo certamente é um dos segredos da vitalidade do casal. A lembrança de pequenos detalhes dá a impressão de que cada uma das histórias foi vivida ontem. As singularidades e surpresas por trás de cada caso revelam detalhes surpreendentes, como o talento artístico de Luiz.

– Sou cantor e compositor. Fiz parte da União Brasileira dos Compositores (UBC) ao lado de grandes nomes da época, como Dick Farney. Além disso, fiz parte de grupos vocais como o ‘Anjos de Cara Suja’, e compus inúmeras marchinhas de Carnaval. Algumas de minhas composições tiveram Eva como musa inspiradora – disse ele, sendo interrompido pela esposa:

– Ele não me dava mais atenção. Não tinha mais tempo para mim. Resolvi começar a provocar ele. Toda noite, colocava meu vestido mais bonito em cima de uma cadeira ao lado da cama, como se eu tivesse saído. Minhas amigas falavam até para eu me maquiar, mas não quis forçar tanto a barra. Com o tempo ele entendeu o recado e percebeu que a vida de cantor não estava dando retorno, apesar de todo seu talento. Sempre soubemos colocar na balança o que é mais importante para nós dois, e é por isso que nosso amor venceu todos os obstáculos – finalizou Eva, relembrando o passado e visivelmente emocionada.