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Carne está cada vez mais fraca

Operação da PF dinamita confiança do consumidor cabofriense

21 março 2017 - 00h20Por Texto e foto: Filipe Rangel
Carne está cada vez mais fraca

Deflagrada pela Polícia Fede­ral em todo o Brasil na semana passada, a Operação Carne Fra­ca implodiu de vez a confiança do consumidor cabofriense na qualidade da carne disponível no mercado. Embora isso não signifique que boi, frango e por­co desaparecerão da mesa, a tendência, segundo os próprios vendedores, é que haja queda.

Essa queda, como comprovou a reportagem da Folha na tarde de ontem, já está se alastrando por Cabo Frio. Esticando-se na ponta dos pés para conferir os cortes disponíveis no açougue de um supermercado no centro da cidade, a dona de casa Leila Silva está reticente. “Você veio me convencer a não comprar?”, ela pergunta, e, mesmo diante de uma negativa, argumenta:

– Porque eu te pergunto: você come em restaurante? Sim, né?! E você confia que o arroz é fres­co? O feijão? Eu não como em restaurante há muito tempo, não tem como confiar. Quando você compra peito de frango embala­do, você fica meia hora embai­xo da pia lavando? Não, né?! A gente come muita sujeira... Eu tento evitar. Pizza, hambúrguer, tudo isso faço em casa. Mas tem coisa que realmente não dá – diz.

Ela afirma que vai continuar comprando carne porque “gos­ta muito”. Ainda assim, saca da bolsa o celular e mostra à repor­tagem um vídeo que circula pelo Whatsapp. Nas imagens, um homem desembala um tender e, ao cortá-lo, encontra jornal en­tremeado à carne. “Isso tem com salsicha também”, ela aponta; “Eu é que não como”, completa.

A Operação Carne Fraca de­nunciou que cerca de 40 frigo­ríficos no país, entre eles Sadia, Perdigão, Seara e Friboi, esta­riam usando conservantes acima do nível permitido – o que pode causar câncer – e misturando a carne com papelão e água (tam­bém acima do permitido).

O mecânico Walter da Con­ceição diz que já sabia das ‘fal­catruas’ há muito tempo. Ainda assim, ele está num açougue do outro lado da cidade comprando um quilo e meio de alcatra. “É para um estrogonofe”, ele conta. Walter diz que espera convencer a família a reduzir o consumo.

– Rapaz, não é de hoje que eu desconfio. A carne não aguenta nesse calorão todo, indo para lá e para cá, eles botam veneno mesmo. Eu sempre soube. Mas agora está provado, né?! Eu não quero ter câncer, não. Já falei com a mulher e com a sogra para a gente comer menos carne vermelha, mas toda hora pedem para eu comprar carne para isso, carne para aquilo. Dá menos tra­balho, fazer o quê?! – resigna-se.

Imediatamente atrás dele na fila está a aponsetada Sonia Si­mão, que segura nas mãos duas caixas de hambúrguer Seara – uma das marcas denunciadas.

– A gente pode até reduzir, mas substituir não dá. Só se vi­rar vegetariano, mas aí não dá, né. O que a gente tem feito lá em casa é comer ovo mexido de vez em quando. Porque peixe não dá. É caro e dá trabalho de fazer. Tenho que mandar meu neto pra escola, aí faço isso ou vou lim­par o peixe? – ela diz, apontando para as caixas de hambúrguer.

No Açougue do Marcelo, na Teixeira e Souza, o proprietário Marcelo Paiva está apreensivo.

– Isso vai prejudicar a gente, com certeza. Eu nunca confiei em carne embalada. Desde que montei o açougue compro direto do frigorífico. Gosto de trabalhar com carne no osso, aí eu mesmo desosso ali atrás e conservo – ele explica, apontando para as câmaras de armazenamento nos fundos do pequeno açougue.

– É por isso que estou aqui há vinte anos. Porque dá para con­fiar na carne que eu vendo. É di­reto do osso, a qualidade é outra, não é misturada com nada. É a carne que eu como em casa – diz.

Marcelo acha, no entanto, que todo esse reboliço possa benefi­ciar o pequeno açougueiro a mé­dio prazo.

– As pessoas só estão falando disso, né?! Estão desconfiadas. A venda vai cair, isso é um fato. O que pode acontecer é, ali na fren­te, elas virem mais aos pequenos açougueiros que trabalham com uma carne que ela consegue ver, que não está embalada. Mas isso é mais pra frente. Agora a des­confiança ainda está grande.

E está mesmo. Ressabiada, Leila Silva, amante da carne, muda de ideia. Ela devolve a sa­colinha de carne moída que tinha pedido, vira-se para reportagem e diz: “troquei, viu?! Vou com­prar fruta que é melhor”.