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Caiçara muda pouco em 40 anos e mantém tradição residencial

Bairro revela forte inclinação comercial em duas das principais vias do local

01 setembro 2014 - 14h52Por Nicia Carvalho|Foto: Johnny Costa
 Caiçara muda pouco em 40 anos e mantém tradição residencial

O cenário mudou. Antes composto por pés de pitanga e caju, além de brejos, muitos brejos, hoje o que se vê, ao caminhar pelas cerca de 20 ruas do bairro Jardim Caiçara, são muitas casas e prédios residenciais. Mesmo tendo mantida a tradição residencial, o bairro revela, ao que parece, forte inclinação comercial em duas das principais vias do local: a Rua Inglaterra e Alemanha. Aliás, os nomes das ruas do bairro são uma curiosidade à parte: a maioria faz referência a países da Europa.

Uma caminhada despretensiosa pelas ruas e é possível encontrar um pouco de tudo: padarias, hortifrutis, lojas de roupas de segmentos variados, informática, principalmente lan houses (parecem febre no bairro!) restaurantes e uma intensa variedade de lanchonetes, além de pequenas lojinhas que fazem o estilo bazar de utilidades. As duas últimas, uma predileção do bairro. No entanto, moradores classificam o Caiçara como um lugar tipicamente residencial.

No meio de tantas características atuais que marcam os moradores do bairro, os brejos, em particular, ocupam uma parte importante da memória afetiva sobre o local. Um exemplo é o barbeiro Ivoney Lessa Vieira, 46, que começou sua história com o bairro aos seis anos. Ao recordar os velhos tempos, enquanto trabalhava ao receber a reportagem, foi impossível conter os risos, que foram compartilhados com antigos clientes e amigos. Dois dos brejos marcaram a época de garoto: onde hoje funciona o 25º Batalhão da Polícia Militar e a Veterinária Cabo Frio.

– Peguei muita rã nestes dois brejos. O bairro mudou pouco nestes anos. A principal mudança mesmo foi o calçamento feito há uns 30 anos, por volta da década de 80. Desde então as mudanças foram poucas. Só o comércio que teve um crescimento mais significativo de uns 10 anos para cá – relembra Ivoney que mora e trabalha no mesmo lugar há 34 anos.

Memórias da construção do bairro

Em paralelo às lembranças infanto-juvenis, Ivoney conta que o bairro, antes de ser loteado, fazia parte de São Cristóvão. Parte da herança comercial o cabo-friense nascido no Itajuru credita à influência do vizinho, que atualmente é o segundo maior centro urbano de Cabo Frio. Segundo ele, o bairro das Palmeiras, do Parque Burle e o próprio Caiçara seguiram um mesmo padrão de urbanização.

– Se prestarmos atenção é possível observar que estes bairros seguem uma padronização. Mas quando tudo começou, lá atrás, nem água tinha direito. Só havia água de poço e uma enorme caixa d’água, que ficava na Rua Noruega – recordou.

Depois da urbanização, no entanto, o reservatório foi removido e o saneamento no bairro foi feito em paralelo com a pavimentação.

– São muitas histórias, como a da Kibon. Uma vez pegou fogo e muitos sorvetes, no pacote, foram dispensados num terreno no início da Rua Inglaterra. Na época, nós fazíamos a festa – conta entre risos, acrescentando que o tio, que ele não quis citar o nome,  e reside no bairro há 50 anos na  Rua Áustria, teria muitas histórias para contar, mas que, com a doença de Alzeimer , os picos de memória são fragmentados.

As lembranças também têm lugar cativo para o comerciante de artefatos de gesso Joacy Neves, 57, que há 28 anos trocou o bairro São Francisco pelo Caiçara para morar e trabalhar.

– Antes do loteamento o bairro foi usado por uns quatro anos como depósito de lixo. Depois, com a doação dos terrenos, assim como foi com São Cristóvão, foi melhorando. As antigas construções, precárias, deram lugar a casas mais estruturadas – relembrou ainda.

Segundo ele, a procura de casas pelos turistas foi um fator importante para a urbanização do Caiçara. Os visitantes compraram terrenos e, com o desenvolvimento do bairro, passaram a construir casas de veraneio.

– Isso fez com que o Caiçara criasse certa fama de bairro de turistas. Ajudou na formação – opinou.

A fama parece ter funcionado com mineiro José Correia da Rocha, 53, conhecido como Zé do Reboque. Natural de Muriaé, veio para Cabo Frio a convite de amigos. De tanto frequentar e gostar do que via, adotou a cidade como lar, na Rua Portugal, há 28 anos, onde também trabalha.

– É um bairro muito bom de morar. Tem tudo que a gente precisa, além de ser tranquilo – contou o comerciante, que dos seis filhos, três e uma neta nasceram em terras cabofrienses.

As oficinas mecânicas são outro traço característico do bairro, que, no entanto, não agradam o aposentado Evaldo Siqueira Mendes, 74, um dos primeiros moradores do Caiçara. Com residência na Rua Espanha há 42 anos, Seu Evaldo acredita que os estabelecimentos atraem gente e carros demais para a via, principalmente nas calçadas.

– É muita confusão e barulho, gosto do bairro mais silencioso. Só nesta rua existem quatro oficinas – contou o ex-dono de farmácia, que após um período de vinte anos no Rio de Janeiro, casou e escolheu Cabo Frio para fixar residência.

– Trabalhei durante um bom tempo em Búzios, mas sempre morei aqui. Era bom quando existiam apenas duas casas no bairro. O resto era tudo valão – relembra ainda o morador.

Reciclagem é o forte de moradores

Junto com a história de formação do bairro, a reciclagem, nos últimos dez anos, vem tomando papel significativo no bairro.

– Recebemos materiais como alumínio, metal, cobre, papelão de muitos moradores. Vem gente até de outros bairros. Depois de reciclados mandamos para o Rio – explicou Aline Rodrigues, que administra o depósito.