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'Não vou arriscar a minha saúde'

Cabo Frio: guardas municipais do grupo de risco criticam obrigatoriedade de descanso em alojamento

Servidores reclamam de rigidez na escala de trabalho da secretaria de Direitos Humanos e Segurança, que nega aglomeração no dormitório

06 fevereiro 2021 - 16h14Por Rodrigo Cabral
Cabo Frio: guardas municipais do grupo de risco criticam obrigatoriedade de descanso em alojamento

Se durante o dia cumpre o dever de zelar pelo ordenamento e patrimônio público, uma guarda municipal cabo-friense que está no grupo de risco para a Covid-19 – tem 60 anos e hipertensão – terá à noite a missão de defender a própria vida: obrigada pela secretaria de Direitos Humanos e Segurança a cumprir parte do período noturno da escala de 24h no alojamento da corporação, a servidora decidiu que permanecerá no pátio, para evitar a aglomeração dentro do dormitório. Outros guardas que fazem parte do grupo de risco passam pela mesmo trato rígido da pasta, comandada por Aglaia Olegário, que negou haver aglomeração no alojamento em nota enviada à Folha. A cidade acumula 6421 casos de coronavírus, incluindo o prefeito José Bonifácio (PDT), e 286 óbitos, segundo números oficiais divulgados até sexta-feira (7).

– Já avisei. Não vou dormir no alojamento. Não vou arriscar a minha saúde – afirma a servidora por telefone, em entrevista concedida à Folha sob condição de anonimato.

Com nova escala de trabalho em horário fixo instituída pela secretaria, das 9h às 18h, aqueles que moram em outras cidades e vêm até Cabo Frio para trabalhar precisam dormir no alojamento. Segundo os relatos, isso aumenta o fluxo de pessoas no local e, consequentemente, o risco de contágio por coronavírus. Para completar, quem é escolhido para a jornada de 24h também é obrigado a ter os horários de descanso no alojamento da Guarda. Até o ano passado, profissionais do grupo de risco conseguiam liberação no período noturno. Antes, com decreto do ex-prefeito Adriano Moreno, chegaram a ficar quatro meses em casa.

– A falta de respeito é tremenda. Todo mundo pode pegar vírus, mas precisa haver um cuidado com quem é do grupo de risco. Dentro da base, todos estão expostos. Muitos não usam máscara. Eu, como servidora, me sinto cada dia mais desmotivada – desabafa a servidora.

Outra guarda chegou a se emocionar ao dizer que também vai permanecer no pátio no período do descanso do seu próximo plantão de 24h. Ela tem 64 anos e é portadora de doença respiratória.

– Vou fazer a mesma coisa. Não vou entrar no alojamento. Do que adianta eu estar 11 meses me cuidando, para vir essa gestão e me obrigar a dormir no alojamento? Tenho laudos médicos apresentados na Guarda. E não respeitam. Alguns estão sendo dispensados à noite pelo supervisor, mas não pela chefia. Quando você não é amigo do supervisor, tem que ficar. Chega a ser hilário uma secretária de Direitos Humanos não se preocupar com os servidores com comorbidades e permitir que isso aconteça – critica.

Através de nota enviada à Folha pela assessoria de imprensa da prefeitura, a secretária Aglaia Olegário afirmou que não há aglomeração de pessoas no alojamento. Segundo ela, os guardas que trabalham em turnos de 24h seguem o esquema de quatro horas, ou seja, parte do grupo trabalha duas horas, enquanto a outra descansa – e assim sucessivamente. "Desse modo, não há aglomeração no alojamento", diz o texto.

Ainda segundo Aglaia, não há informações sobre o descontentamento ou desconforto dos guardas municipais, com relação ao uso do alojamento. A secretária destacou ainda que "a Guarda Civil Municipal de Cabo Frio tem seguido todos os protocolos de segurança à Covid-19, estabelecidos pelas autoridades sanitárias". O presidente da Associação dos Guardas Municipais, Augusto Core, afirmou que não recebeu reclamações de casos semelhantes.

– Os colegas estão se dividindo. Alguns estão ficando lá em cima [no alojamento]; outros estão colocando colchões no auditório. O pessoal está tentando se cuidar nesse ponto.

A mudança de escala da Guarda foi uma das primeiras críticas sofridas pelo governo de José Bonifácio. O objetivo da prefeitura foi aumentar o efetivo nas ruas. Contudo, a decisão desagradou os agentes, que saíram pelas ruas da cidade em forma de protesto, no dia 31 de dezembro do ano passado. De acordo com os guardas, o novo sistema prejudica os agentes que moram em outros municípios. Além disso, eles alegam que haverá redução salarial, pois a gratificação referente ao plantão seria retirada. Um grupo de manifestantes chegou a fechar o tráfego na Ponte Feliciano Sodré. Bonifácio foi ao local para conversar com os manifestantes, mas não houve consenso.

Salário - Os servidores da Guarda ainda não receberam o salário de dezembro. A prefeitura afirma que os pagamentos estão sendo quitados de acordo com a entrada de recursos. A última atualização foi sobre pagamento dos profissionais da Educação: caiu na conta, na sexta-feira (5), os vencimento de dezembro e mais um terço do salário relativo às férias do ano passado, no valor total bruto de R$ 13.783.751,62 para 3.511 funcionários, sendo 3.186 servidores efetivos, 287 contratados e 38 comissionados.

Rigidez com profissionais do grupo de risco foi alvo de críticas no ano passado

Este não é o primeiro capítulo quando o assunto é a falta de cuidado com profissionais do grupo de risco em Cabo Frio. No ano passado, a rigidez com os profissionais da secretaria de Saúde causou polêmica. No dia 8 de abril, reportagem da Folha revelou que funcionários da pasta precisavam se submeter à avaliação de uma junta médica para conseguir o afastamento, mesmo aqueles que têm mais de 60 anos e, também, portadores de doenças crônicas e autoimunes, na contramão de um decreto que os liberava para cumprir a quarentena em casa. Em junho, a servidora Lucia Maria da Conceição, de 63 anos, morreu de coronavírus. Ela havia sido internada na UTI do Hospital Unilagos após ter liberação negada pela secretaria de Saúde.

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