Assine Já
quarta, 01 de dezembro de 2021
Região dos Lagos
25ºmax
19ºmin
TEMPO REAL Confirmados: 53491 Óbitos: 2186
Confirmados Óbitos
Araruama 12497 447
Armação dos Búzios 6580 73
Arraial do Cabo 1754 93
Cabo Frio 15408 901
Iguaba Grande 5564 147
São Pedro da Aldeia 7047 290
Saquarema 4641 235
Últimas notícias sobre a COVID-19
"QUEM AMA NÃO MATA"

As memórias de quem acompanhou de perto o caso Ângela Diniz e Doca Street

Folha ouviu personagens sobre a morte da socialite mineira e os dois julgamentos do assassino confesso; história teve Búzios e Cabo Frio como cenário

27 dezembro 2020 - 12h35Por Rodrigo Branco

Parecia ser mais uma ocorrência de violência doméstica à qual o inspetor de polícia Edésio da Costa estava acostumado em anos dedicados à profissão. Naquela noite de 30 de dezembro de 1976, a Região dos Lagos estava cheia de turistas, às vésperas do Ano Novo, quando o policial civil foi chamado até a Praia dos Ossos, em Búzios, então Terceiro Distrito de Cabo Frio, para registrar o assassinato de uma mulher que havia sido morta a tiros pelo namorado, após uma briga potencializada por muitas doses de vodca.

Somente na volta para a delegacia, Edésio, à época com 32 anos, começou a se dar conta que se tratava de um caso diferente daqueles os quais estava acostumado a desvendar. O delegado avisara-lhe que o telefone não parou de tocar em busca de informações, em um período em que computadores e internet só existiam em filmes de ficção científica.

O  motivo era a notoriedade dos envolvidos. A vítima, brutalmente assassinada com quatro tiros de pistola no rosto, era a socialite mineira Ângela Diniz, conhecida das páginas de colunas sociais como a ‘Pantera de Minas’; o algoz, também uma figura carimbada das altas rodas da sociedade, o playboy Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street, morto de infarto, aos 86 anos, no último dia 18.

Ângela era figura conhecida das colunas sociais em BH - Foto: Reprodução 

Nos anos seguintes, o feminicídio [termo que não existia à época] de Ângela se tornaria um dos casos mais emblemáticos da historiografia policial e jurídica brasileira. Com a experiência de ter atuado em casos igualmente rumorosos, como o assassinato da dançarina Dora Vivacqua, a Luz del Fuego, em 1967, Edésio acompanhou do início ao fim a investigação e, posteriormente, os dois julgamentos do crime ocorrido em solo buziano.

– Por acaso, eu estava na delegacia lotada. Era verão, a cidade estava cheia. Foi quando eu recebi um telefonema dizendo que um homem tinha matado uma mulher em Búzios. Eu me desloquei para lá. E isso, na minha profissão, era normal. Só que a imprensa deu uma ênfase muito grande. Foi uma comoção geral, com a imprensa toda direcionada para Cabo Frio, porque eles eram do high society – relembra Edésio, hoje aposentado, aos 76 anos, para a Folha.

Abordado inúmeras vezes por repórteres naquele período, Edésio sempre se esquivou de entrevistas. Da mesma forma procedeu a professora Mariza Sidaco, que se negou a  conversar com a repórter Glória Maria,  da  TV  Globo.

Isso porque, em 1981, Mariza foi a única mulher a tomar parte no júri do segundo julgamento, que resultou na condenação de Doca a uma pena de 15 anos de prisão. A docente, que hoje está com 80 anos, rememora que, antes  da  recusa em revelar à jornalista global o voto dado no  Tribunal, em Cabo Frio, chegou a ter a  presença  no júri questionada pela defesa do playboy paulista, pelo fato de seu marido ter atuado no processo como tradutor juramentado da alemã Gabrielle Dayer.

A estrangeira era apontada como a pessoa com quem Ângela flertara na praia, horas antes de ser morta. O pretenso envolvimento entre as duas foi usado como pretexto pelos advogados de Doca para descredibilizar o comportamento da vítima e torná-la ‘ré’.

Doca chega ao Fórum de Cabo Frio para um dos julgamentos; multidão foi acompanhar a movimentação - Reprodução 

A estratégia não convenceu Mariza, que votou pela condenação. A professora aposentada revela que, além da brutalidade do crime em si, cometido por motivo torpe na sua opinião, levou em conta o perfil de ‘bon vivant’ do assassino confesso, que não tinha ocupação fixa. Todo o contexto a fez avaliá-lo como “mau exemplo para sociedade”.

Por questões éticas, durante anos, preferiu manter o voto em sigilo. Um dos motivos foi por consideração ao pai de Doca, que chegou a visitá-la antes do julgamento. Mariza garante que não houve qualquer tentativa de intimidação. Pelo contrário, a professora recebeu de presente um livro escrito pelo advogado de defesa, o renomado criminalista Evandro Lins e Silva, autor da controversa tese de ‘legítima defesa da honra’, utilizada para justificar o crime e livrar seu cliente da prisão, o que chegou a ocorrer no primeiro julgamento, em 1979.

– Ele, quando esteve na minha casa, não me pediu nada, só me deu o livro, fazendo as suas considerações. Pediu permissão para me fazer uma visita. Fez o papel de pai, né? Ele veio reforçar a defesa, mas não me pediu nada. A única coisa que ele pediu foi que eu lesse o livro – afirma.

Em agosto de 1979, a anistia ampla, geral e irrestrita trazia de volta ao país políticos e intelectuais que viram na fuga para o exílio a única saída para escapar da repressão política. Os ventos trazidos pela abertura, mais  libertários, não foram suficientes para arejar a sociedade, tampouco a Justiça.

No primeiro julgamento, em uma Cabo Frio festiva e pró-réu, com direito a faixas de  apoio  (“Doca, Cabo Frio está com você, dizia uma delas”), a tese de ‘Vênus lasciva’ imputada à Ângela prosperou e Doca Street  recebeu  uma pena de dois anos de prisão com direito a sursis. Na prática, ele saiu do tribunal livre e  envolto  em  aura  de  herói nacional. O veredicto surpreendeu o próprio Doca que, em 2006, lançou um livro de memórias, ‘Mea Culpa’, contando sua versão do caso.

– Fiquei com vergonha de ser absolvido. Não entendi. Também não entendi por que era aplaudido e por que chovia mulher. Eu saía com elas, não resistia – testosterona no máximo –, mas não entendia – declarou à Folha de S. Paulo, por ocasião do lançamento do livro.

O resultado  enfureceu o movimento feminista. A Promotoria recorreu ao Tribunal de Justiça, e novo júri foi marcado. O segundo julgamento foi palco da atuação de figuras históricas do Direito cabofriense, como o promotor  Fador Sampaio, já falecido; e o advogado Paulo Roberto Pereira Badhu, que atuou na defesa do réu.

Renomado criminalista Evandro Lins e Silva defendeu Doca usando a tese de 'legítima defesa da honra' - Reprodução 

A pressão da opinião pública e a articulação de núcleos do movimento feminista, sobretudo em Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro mudaram completamente o cenário para o segundo julgamento, conforme atestou o próprio Badhu, em uma entrevista que fez parte da série de podcasts ‘Praia dos Ossos’, da Rádio Novelo.

O clima outrora festivo tornara-se hostil, com a presença ostensiva de militantes e da imprensa. Segundo o jurista, pareciam ‘dois  Brasis’ diferentes, entre  um  julgamento e outro, com uma  diferença que foi de pouco mais de dois anos entre eles. No fim das contas, Doca foi condenado a 15 anos de prisão, dois quais cumpriu três em regime fechado; dois no semiaberto e o restante, em liberdade condicional.

– Na segunda [vez], nós já entramos condenados. Nós já entramos condenados. Porque no primeiro julgamento [houve] uma multidão favorável. “Sorte, Doca. Sorte, homem.” Na segunda, totalmente era o contrário – relatou.

O contexto nacional ajudou a formar  a opinião pública contra Doca. Os casos de violência contra a mulher surgiam por toda parte entre 1979 e 1981. Em Goiânia, São Paulo e na Belo  Horizonte natal de Ângela Diniz. Alguns deles de grande repercussão, como o assassinato a tiros da cantora Eliane de Grammont pelo ex-marido, o cantor popular Lindomar Castilho, em março de 1981.

A  pedagoga e escritora paulista Schuma Schumaher esteve no Rio uma semana antes do segundo júri de Doca para se reunir com feministas cariocas e pichar muros com dizeres garrafais: “Quem Ama não Mata”.

Ela não chegou a vir a Cabo Frio, mas a organização da qual fazia parte participou de toda a articulação. A campanha ganhou corpo e chegou a dar nome a uma minissérie da TV Globo.  Schuma, que foi vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura em 2008, pelo livro ‘Mulheres Negras do Brasil’, é enfática em afirmar que a mobilização, associada à maior liberdade de expressão no período, foi decisiva para que Doca Street fosse condenado.

– Não tenho a menor dúvida de que foram as feministas, também com muita contribuição da mídia, naquele momento. E retoma um grande debate que é a defesa da honra. No Código Penal, em nome da honra se matava e se exterminava as mulheres. Isso polemizou na sociedade brasileira, porque antes se conduziu de uma maneira que ela [Ângela] era uma megera e ele [Doca] um coitadinho, que a matou de tanto sofrer por amor.

Descubra por que a Folha dos Lagos escreveu com credibilidade seus 30 anos de história. Assine o jornal e receba nossas edições em casa.

Assine Já*Com a assinatura, você também tem acesso à área restrita no site.