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Após 35 anos de Polícia Militar, subtenente Mauro Bernardo entra para a reforma

Apesar disso, ele garante que não vai parar: 'Só quando morrer'

08 abril 2017 - 09h37
Após 35 anos de Polícia Militar, subtenente Mauro Bernardo entra para a reforma

(Charge: Yuri Vasconcelos)

 

Por FERNANDA CARRIÇO

Mauro Bernardo chega à entrevista, pontualmente, às 8h. De óculos escuros, camiseta azul marinho e calça jeans, logo é reconhecido pelas pessoas que transitam pela Praça Porto Rocha. Costuma ser assim por onde passa. Aqui e ali, não raro, é chamado por apelidos. Alguns o condecoram como o ‘terror da bandidagem’. Outros sentenciam: ‘a lenda’. Não é à toa. Experiência, competência e uma pitada generosa de irreverência são a pólvora do subtenente – que chega a 35 anos dedicados ao 25º Batalhão da Polícia Militar sem nunca ter levado um tiro.

Agora, chegou a hora de dar adeus à PM. Ele será policial reformado, mas nada de descanso: vai entrar para a Força Nacional. Em 40 minutos de bate-papo, Bernardo não falou apenas sobre os momentos mais memoráveis da carreira, como também abriu o jogo sobre sua vida particular. Mesmo que esteja fora da PM, é bom que nenhum “espertinho” se engane... O ‘terror da bandidagem’ continua na espreita.

– Se eu vir alguma coisa, vou continuar agindo, não deixei de ser policial – garante.

Folha dos Lagos - Como você vê este momento de crise no Estado do Rio?

Mauro Bernardo - O estado do Rio está cada vez pior. Não votei em Sergio Cabral. O problema é o seguinte: ninguém está fazendo nada, só falam. Você vê aí 72 deputados estaduais, 17 vereadores em Cabo Frio, 50 e poucos no Rio. Ninguém diminui nada. É fácil segurar, tem que cortar as despesas. Mas não estão ligando, só falam. A mesma coisa no Governo Federal. Se a Reforma da Previdência não sair, daqui a pouco ninguém recebe mais. Tem que mudar, tem que aumentar o tempo de serviço.

Folha - E a prisão do Sérgio Cabral? Você gostaria de ter prendido ele?

Bernardo - Era o meu sonho ter prendido ele porque foi o governador que mais expulsou PMs sem provas e taí, um dos maiores ladrões. Ele roubou mais do que uma pessoa normal pode roubar. E se passava por um cara honesto, íntegro. E não fez nada pela polícia, botou muita gente na rua por besteira. Um dos culpados pelo Rio estar assim. Queria ter participado da prisão dele porque ele era muito folgado.

Folha - O que você falaria pra ele na hora da prisão? Perdeu, playboy?

Bernardo - Não, eu falaria: a justiça tarda, mas não falha.

Folha - E como vê sua aposentadoria?

Bernardo - Não é aposentadoria. Primeiro porque policial não aposenta, fica na reserva remunerada, a hora que o estado precisar, é chamado. Segundo,  não posso estar aposentado nunca, porque não posso andar desarmado, não posso sentar de costas para a rua, porque tem o problema dos caras todos que você prende. Tem o problema do cidadão ser assaltado e pedir auxilio. E você tem que auxiliar porque ajudou a vida toda e não vai negar.  Para estar aposentado eu tenho só uma opção: ir embora de Cabo Frio, porque aí escondo a carteira e posso sentar e relaxar.  Aqui em Cabo Frio não tem aposentadoria pra mim.

Folha - Você pretende ir embora de Cabo Frio?

Bernardo - Eu pretendo é integrar a Força Nacional. Vou mês que vem pra Brasília, são 15 dias de reciclagem. Depois volto e fico à disposição para quando for convocado. Não vou parar. Não tem como. Não vou embora porque  me considero cabofriense.  Não saio mais daqui porque é o melhor lugar pra se morar. A criminalidade aqui se concentra nas favelas. Não é assalto toda hora, não tem tiroteio. No Rio não, é assalto toda hora, arrastão... Pretendo ficar muito tempo aqui.

Folha - Está incomodado com isso?

Bernardo - Está me incomodando esse nome ‘aposentado’ porque me acho novo e com disposição e não me considero pronto para parar, poderia ficar mais 10 anos. Por isso que eu falo que a Reforma da Previdência é importante, tem muita gente que se aposenta e tem condições de ficar muito mais.

Folha - Você ficou surpreso com a repercussão da sua aposentadoria?

Bernardo - Fiquei, porque queria me reformar sem alarde. O coronel queria fazer uma festa pra mim aí eu falei que não queria, que todo mundo ia saber. Combinamos de na premiação dos melhores do mês eu ir e vão fazer uma homenagem.  Não sou chegado a festa, eu sou antissocial mesmo, não vou à casa de parente nenhum, não vou em casamento de filho, aniversário, formatura....

Folha - Você já faltou a casamento de filho?

Bernardo - Eu não fui ao casamento de Rafael, pergunta a ele. Tem um ano. Eu não gosto, não me sinto bem, eu não gosto de nada disso, de festa. Então eu prefiro estar trabalhando que estar numa festa. Não gosto de churrasco, não bebo, não fumo...

Folha - Se eu te convidar pra jantar na minha casa, você não vai?

Bernardo - Não, eu não vou. (gargalhadas)

Folha - Tivemos a gravação do Bolsonaro, José Aldo...Você  disse que não  sabia que era tão importante...

Bernardo - Eu não sabia que uma aposentadoria dava esse ibope. Queria ver eu morto como ia ser a reação de Cabo Frio. Consegui chegar a 35 anos de polícia sem levar um tiro, sem fazer uma besteira, é uma felicidade.  E fico feliz que o povo gostou. Eu fiquei impressionado como repercutiu essa aposentadoria.

Folha - Isso é uma coisa boa ne? É um reconhecimento....

Bernardo - É aquilo que eu falei, é o melhor reconhecimento.  Isso é bom para acabar com esse negocio que a população não gosta de policial, gosta do policial bom. Gosta do policial honesto. Eu sou um cara que tem gente que fala q sou isso ou aquilo, mas não sou.  Eu vou no posto de gasolina e os caras ficam com medo de me atender.  Aí se surpreendem que dou gorjeta. O cara quando vai entregar a pizza na minha casa, dou gorjeta eles ficam com boca aberta. Tem aquilo, prendo bandido e traficante. Mas o cara fica com aquele medo: vou entregar a pizza e se ele achar ruim vai jogar na minha cara. E não é assim. Ficam impressionados. Eu impressiono as pessoas porque quando me conhecem  falam, ‘ esse cara é legal’. Eu dou dinheiro para mendigo na rua, pro pedinte. Eu dou quando tenho vontade de dar, não faço nada pra impressionar. Dou quando me toca.

Folha – E a morte do promotor Fador Sampaio, te entristeceu muito?

Bernardo - Muito porque foi uma pessoa que me ensinou a trabalhar. Cabo Frio perdeu um homem que não vai ter igual. Então foi uma das coisas que me animou a reformar foi isso. Fiquei meio triste e desanimado. Foi uma perda muito grande para mim. Depois do meu pai e minha mãe, foi o doutor Fador. Aprendi muito com ele.

Folha - O que te faz perder o sono?

Bernardo - Ah, o que faz perder o sono é ver criança assassinada.

Folha - Você já chorou?

Bernardo - Já. Chorei na morte daquela menina Roberta estuprada em Arraial. Quando o Conchinha matou aquela grota. Quando vi aquela cena eu chorei. Estava na prisão dele, quando tentaram invadir a delegacia. Tive muita raiva dele, mas não podia fazer nada. Ele tem que cumprir a lei. Mas por pouco, se pudesse deixava o povo linchar ele, mas não podia.

Folha - Já bateu em algum preso?

Bernardo - Não, nunca precisei. É aquilo que te falei, eu trato preso como tem que ser,  eles me respeitam por causa disso. A família vem e eu explico, oriento, deixo a mãe falar.  Diferente de policial que diz que não tem que dar papo. Não preciso mostrar nada porque sou faixa preta em Karatê, Jiu Jitsu e Luta Livre, não preciso mostrar que sou bom de briga. Tem cara que quer se prevalecer do poder para fazer as coisas que não se garante. Não é porque ele está algemado que vou bater nele.

Folha – Qual  o melhor momento destes anos?

Bernardo - É esse, é parar e ser reconhecido pela população  como uma pessoa honesta e um serviço bem prestado.

Folha - Pra você bandido bom é bandido morto?

Bernardo - Não, não posso falar isso. Para mim bandido bom é preso. Em certos casos eu sou a favor de ter a pena de morte no Brasil. Por exemplo, o cara acabou de te assaltar e te matou. Eu acho que tem que ter pena de morte pra ele, mas não vai ter nunca no Brasil porque se não ia sobrar pouca gente.

Folha - Você é a favor da liberação da maconha?

Bernardo - Eu sou a favor do cara poder portar uma certa quantidade pro uso dele e os locais que ele vai usar determinados. Eu sou a favor porque na verdade já está liberado, é que as pessoas não entendem da lei. Quando eu comecei na policia se você pegasse um cara com cigarro de maconha, ele era autuado em flagrante e era condenado e ficava um ano preso.  Aí dificultava mais a venda.  O trafico não era assim. Aí depois mudou a lei e você prendia o cara com maconha, levava pra delegacia e fazia um registro de crime de pequeno potencial ofensivo. Aí ele assinava um termo de compromisso para comparecer em juízo – se ele não fosse o juiz podia decretar a prisão dele.  Agora, se você pega um cara com um cigarro de maconha,  leva o cara na delegacia, faz o registro de ocorrência e ele vai embora. Ele não precisa ir na audiência. Qual vai ser a pena? Uma multa. Eu sou a favor de liberar uma certa quantidade pro uso do cara. Mas só de maconha.

Folha - Você acha que homens e  mulheres são iguais ou é machista?

Bernardo - Tanto não sou que não tenho nem mulher, quem cuida da minha casa sou eu. Lavo louça, passo pano no banheiro. Estou tomando conta agora de três netos, trouxe para morar comigo e são todos inúteis. Se pedir para eles lavarem as coisas é melhor eu lavar. Toda hora quebram copos. Aí arrumei uma menina pra limpar a casa uma vez por semana, parece que eles estão soltando tinta, nunca vi (risos).

Folha - E a esposa? Separou?

Bernardo - Não quero mais saber de esposa. Agora quero ser freestile, estilo livre (gargalhadas)

Folha - Para você as mulheres tem os mesmos direitos que os homens?

Bernardo - Claro que tem, por isso elas tem que se aposentar com 65 anos também (gargalhadas). Eu acho que está na hora da mulher ocupar mesmo seu espaço, é legal. O Brasil tem que parar com esse negócio de você é isso ou aquilo. É todo mundo igual, os direitos são os mesmos. A mulher de Cabral não foi solta por causa dos filhos? Tem que soltar todas. O problema do Brasil é esse. Um se aposenta com 30, outro com 17, porra tem que parar com esse negócio. Eu vi uma repórter falando e achei a palavra bonita: o Brasil é o pais dos paradoxos . Gostou da palavra? É bonita ne? (risos). É um pais que por exemplo o Caetano Veloso fez uma musica homenageando aqueles mascarados que acabam com tudo, que quebram tudo. Então você vai homenagear um negócio desses? Isso é um paradoxo, eu vou falar sempre essa palavra. É bonita. (risos)

Folha - O que você diria a Caetano?

Bernardo - Você é um paradoxo, Caetano. (muitos risos).

Folha - Vai sentir saudade de quê?

Bernardo - Não sei porque vou pra Força Nacional. Eu vou prender lá e vou dar nome internacional as operações. Vou ter q estudar historia, porque a federal da cada nome que eu fico impressionado.  Agora é terceiro grau.

Folha - Vai descansar quando?

Bernardo - Só quando morrer.

Folha - Nada de férias?

Bernardo - Férias pra quê? Não gosto de viajar, não gosto de família, não gosto de ninguém. Às vezes entro num restaurante, não gosto de ninguém e saio.  Aí vou em outro e também não gosto. Aí acabo indo pra casa.

Folha - Você sabe cozinhar?

Bernardo - Só faço carne moída com batata e arroz e feijão.

Folha - Quer me contratar pra te dar aula?

Bernardo - Não porque você vai ser muito cara porque é repórter e cozinheira,  e depois vai dizer que está em desvio de função e vai querer me processar. (gargalhada)

Folha - O que diria a população depois de todos estes anos de serviço?

Bernardo - Para a população ficar tranquila e quando souber de alguma coisa e quiser falar comigo, pode falar. Porque a guarnição que ficou no meu lugar é de confiança. E estou aqui ne? Se eu vir alguma coisa vou continuar agindo, não deixei de ser policial.