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ESPECIAL

Canoagem ressignifica relação de moradores com a Lagoa de Araruama

Recuperação gradativa do ecossistema estimula elo entre esporte e meio ambiente

24 outubro 2021 - 13h00Por Jéssica Borges

Era 1° de dezembro de 2019 quando a bióloga Raquel Trevizan, até então moradora de Brasília, chegava a São Pedro da Aldeia para uma temporada. Ela já conhecia a cidade e a Lagoa de Araruama de outras visitas feitas ao município. Naquele ano, o diferencial era a canoa havaiana inserida recentemente em sua rotina, o que fez com que seu olhar acostumado às águas calmas da grande laguna fosse modificado. Nesse dia, o momento de ressignificação veio com o seguinte pensamento: “toda essa lagoa aqui e eu preciso remar nela!”. Após a busca por equipamentos e a incursão gradativa no ecossistema através da atividade física, a bióloga conseguiu unir, na grande laguna de água hipersalina, as suas grandes paixões: o meio ambiente e o esporte.

Assim como aconteceu com Raquel, a atividade física inserida no meio ambiente tem o potencial de transformar os vínculos entre o indivíduo e o ecossistema em que habita. A jornalista Rosana Rodrigues, também praticante de canoa havaiana, é mais uma representante dos adeptos da modalidade que construíram um novo olhar pela lagoa por meio do esporte. “Antes desprezada, agora um grande presente. É a minha maior descoberta, que fortalece e harmoniza a minha essência física e mental. O sentimento dos integrantes da minha equipe é de muito respeito à natureza pródiga que a cada dia nos surpreende com um espetáculo diferente”, declarou.

A Lagoa de Araruama está presente na rotina dos moradores de Saquarema, Araruama, Iguaba Grande, São Pedro da Aldeia, Cabo Frio e Arraial do Cabo. Apesar do distanciamento do público devido à má conservação registrada nas últimas duas décadas, o atual cenário de recuperação tem trazido os moradores e turistas às atividades potenciais do local, dentre elas, o esporte.

No caso da bióloga Raquel Trevizan, a canoa despertou, também, um novo desafio profissional. “Foi em uma aula de canoa que comecei a ter um olhar mais crítico para a laguna. Não podia ficar apenas dentro da minha janela. Então, foi através dela [canoa] que comecei a ter um contexto de entendimento da região e das demais questões envolvidas. Foi o esporte que me ajudou na exploração e identificação dos movimentos da lagoa. Passou a ser uma verdadeira incursão”, descreveu a bióloga Raquel Trevizan, que atualmente é secretária municipal de Meio Ambiente, Lagoa e Saneamento de São Pedro da Aldeia.

Esporte, conhecimento e preservação

Especialistas classificam a laguna como uma das melhores raias no mundo para esportes náuticos como kitesurf, vela, stand up paddle e a própria canoa havaiana. O atleta federado Egas Filho, professor do Clube Aldeia Va’a em São Pedro da Aldeia, explica as condições favoráveis do ecossistema para a prática da canoagem. “O diferencial da lagoa está na sua extensão, na salinidade e na diversidade de belos locais poucos explorados pela dificuldade do acesso terrestre. A melhora da qualidade da água foi um dos principais fatores para a procura da prática, pois encorajou os turistas e, de forma direta, fez com que os moradores pudessem curtir mais toda orla”, informou.

Egas ainda destaca que a prática da canoa havaiana contribui para a conservação da laguna por meio da formação de novos atletas inseridos no ambiente. “Hoje o Aldeia Va’a fornece aulas gratuitas de canoagem a crianças. Nestas aulas, além de técnicas de remada, inserimos aprendizados e orientações, como a observação de toda a riqueza da lagoa e os orientando para cuidar do meio ambiente. Inclusive, em frente a nossa base de canoagem, já filmamos um cavalo-marinho”, contou.

A bióloga Raquel Trevizan reforça que o elo entre o esporte e o meio ambiente é gerado por meio do conhecimento e de vivências adquiridas pelas atividades físicas. “A relação esporte e preservação é muito palpável, pois foi assim que comecei a me engajar nas questões da lagoa. Acredito que todas as pessoas que praticam esportes tenham uma preocupação ambiental, principalmente quando a modalidade depende do meio. De maneira particular, a visualização da natureza é capaz de trazer um momento de meditação. Já no coletivo, o sentimento é de compartilhamento. Quando se tem esportes náuticos capazes de mostrar de fato a lagoa, se tem a conscientização do impacto do homem nesse corpo hídrico”, relatou.

Recuperação – Diferentemente do cenário registrado nas últimas duas décadas, a melhora na qualidade da Lagoa de Araruama é visível com a apresentação de tonalidades mais claras nas águas das praias. O último boletim de balneabilidade do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), divulgado no mês de setembro deste ano, aponta que cerca de 85% das praias banhadas pela laguna estão próprias para o banho.

Sobre a recuperação da lagoa, o Inea informou que está prevista a efetivação de um projeto executivo de revitalização, além da dragagem de manutenção do Canal do Itajuru visando à melhoria da qualidade da água. Ambas as intervenções estão em fase de licitação. O Inea destacou que as ações da dragagem devem estar ligadas com iniciativas de implantação de sistema de esgotamento sanitário nas cidades banhadas pela laguna.

A bióloga Raquel Trevizan atribui a visível melhora da qualidade a diversos fatores. Ela destaca, no entanto, que a manutenção do ecossistema depende da integração dos setores públicos, privados e da sociedade. “O contexto da Lagoa de Araruama é muito complexo. Além de metodologias modernas que possam fomentar a sua recuperação, é necessário investimento nas questões sociais. Não é um contexto fácil, mas percebo uma preocupação coletiva muito latente, que gera perspectivas positivas para o futuro e colabora na manutenção da qualidade da água que a gente vê hoje”, destacou.

Segundo a Prolagos, concessionária responsável pelos serviços de saneamento básico em cinco municípios da Região dos Lagos, desde o início da concessão, em 1998, o índice de atendimento em esgotamento sanitário saltou de 0 para 80,12%. Antes, todo o esgoto ia in natura para a Lagoa de Araruama e praias. A empresa acredita que a qualidade da água pode melhorar ainda mais com a implantação de cerca de 500 quilômetros de rede separativa nos próximos cinco anos, beneficiando 50% da população na primeira fase.

– Neste ano, a concessionária firmou uma parceria técnicacientífica com a Universidade Veiga de Almeida (UVA) para criação do projeto Imersão, que consiste em uma frente multidisciplinar de assessoramento permanentemente. Dentre as atividades da iniciativa estão o monitoramento da Lagoa de Araruama, da flora e da fauna, bem como ações de educação socioambiental.

“A Lagoa de Araruama é de responsabilidade de todos: poder público (Estado e municípios), concessionárias e população. O saneamento permite a construção de um elo de benefícios que começa pela saúde e educação, seguindo pelo trabalho, geração de renda, desenvolvimento social, econômico e ambiental e o turismo”, destacou a empresa em nota. Políticas públicas para o esporte em falta Apesar do esporte ser uma ferramenta de transformação social e da aptidão da lagoa para atividades náuticas, as políticas públicas para as modalidades são tímidas na Região dos Lagos.

A reportagem entrou em contato com as prefeituras das cidades banhadas pela laguna questionando a existência de projetos que fomentem as atividades físicas. Das respostas obtidas, São Pedro da Aldeia ganha visibilidade com o oferecimento de aulas de canoas havaianas para o público infanto-juvenil para cerca de 20 jovens. O município afirma que há intenção para inclusão de modalidades como natação em águas abertas, vela e triathlon na lagoa, por meio do projeto Aldeia em Movimento, que atualmente disponibiliza atividades de funcionais e nas academias populares.

A Prefeitura de Iguaba Grande divulgou no dia 5 de outubro, em seus canais oficiais, o início do projeto Lagoa e Vida. A iniciativa oferece aulas gratuitas de iate para 12 alunos, com idade entre 10 e 15 anos. O programa terá a duração de três meses com aulas teóricas e práticas aos finais de semana.

A Prefeitura de Cabo Frio informou que será realizado, até o fim do ano, o I Fórum de Esporte e Lazer do município, que irá discutir propostas e políticas para todos os segmentos esportivos da cidade, incluindo o náutico. Já Arraial do Cabo afirmou que há planejamentos para realização de competições de barco a vela e outros eventos náuticos em 2022. As demais prefeituras não responderam aos questionamentos nem divulgaram materiais recentes sobre o tema em seus canais oficiais.

O biólogo e coordenador de Iniciação Científica, Pesquisa e Extensão da Universidade Veiga de Almeida – Cabo Frio, Eduardo Pimenta, destaca que o fomento aos esportes é necessário para criação de novas oportunidades para o ecossistema.

“Acreditamos que, com o fomento de esportes náuticos nas praias lagunares, daremos mais visibilidade para a lagoa, com possibilidades de novos investimentos e, assim, unir esporte e lazer com o meio ambiente, trazendo oportunidades e alavancando o turismo sustentável”, finalizou o biólogo.

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