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AMOR PELOS LIVROS

Zuleika Crespo, a guardiã das letras

"Para mim, os livros são como um filho", conta a coordenadora da Biblioteca Pública Municipal Professor Walter Nogueira

26 julho 2021 - 11h26Por Rodrigo Cabral
Zuleika Crespo, a guardiã das letras

Zuleika Crespo tinha apenas 16 anos quando, em 1968, chegou às livrarias a primeira edição de “Meu Pé de Laranja Lima”, romance de José Mauro de Vasconcelos. “Chorei tanto, mas tanto”, conta, recordando-se da emoção de ler a história do protagonista Zezé, menino que nasceu numa família muito pobre e numerosa e que, carente de afeto, lançava-se em travessuras nas ruas. Recentemente, com olhos mais maduros, Zuleika releu a obra. Chorou novamente. O amor pelas letras, que carrega desde a infância, explica a bravura incansável na defesa do patrimônio da Biblioteca Pública Municipal Professor Walter Nogueira, localizada no andar térreo do Solar dos Massa, prédio histórico no Centro da cidade. Cerca de 14 mil livros estão nas estantes. Entre eles, 359 reconhecidos como obras raras.

As obras raras, aliás, fazem a coordenadora da biblioteca vibrar. “Vem cá”, chama ela, animada, entrando numa salinha que guarda preciosidades de escritores como o modernista Guilherme de Almeida (1890-1969), um dos seus preferidos. O setor começou por sorte do destino. Certo dia, duas moças bateram à porta da biblioteca com uma carroça cheia de livros. “Uma delas me disse: ‘meu tio morreu e deixou a casa para mim e para minha irmã com esse mundo de livros velhos’”. Zuleika, no entanto, não demorou para observar o valor do material que estava ali. Carroça descarregada, nascia dessa forma o departamento de obras raras. Isso foi em 1997, apenas um ano depois que a Biblioteca Municipal começou a funcionar no Solar dos Massa – a casa fora desapropriada durante mandato de José Bonifácio, em 1994.

Apesar das dificuldades, o zelo com o material, ano após ano, rendeu frutos. Em 2019, o Plano Nacional de Obras Raras (Planor), órgão do Sistema Nacional de Bibliotecas, registrou Cabo Frio como o sexto município do Sudeste a possuir esse tipo de acervo. Além disso, em 2010, o decreto municipal 26.938 tombou o Solar dos Massa, incluindo todo acervo da biblioteca.

Nascida em Porecatu, norte do Paraná, Zuleika tornou-se servidora da Prefeitura em 1984, época em que a então “Divisão de Cultura” era subordinada à Secretaria de Educação. “Já tive tanto cargo, que nem me lembro. Fui funcionária padrão duas vezes. Acho que virei patrimônio”, ela se diverte, ressaltando seu compromisso como ‘guardiã das letras’, posto que quer ver transmitido para as próximas gerações. “Quando recebemos visitas guiadas de escolas, faço um acordo com as crianças. Digo: ‘na hora que eu não estiver mais aqui, unam-se pela educação, pelos livros’. Todo mundo jura. E aí eu fico numa felicidade tão grande que você nem imagina”.

Zeleika não pensa em aposentadoria. “Minhas filhas falam: ‘mãe, pensa em você, pensa na gente, pensa nas suas netas. Esquece essa Biblioteca’. Respondo: ‘Vocês já viram uma mãe abandonar um filho?’. Para mim, os livros são como um filho’”.

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