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​Um poeta por essência: a herança de Victorino Carriço

‘Santinho’ deixou espalhados versos e canções pela região

31 julho 2016 - 10h04
​Um poeta por essência: a herança de Victorino Carriço

GABRIEL TINOCO

 

Quando a jovem Fernanda Carriço colocava a cabeça na fresta da porta entreaberta, um homem estava sentado. O senhor cumpria o ritual: escrever na escrivaninha pela penumbra que seperava a meia-luz do abajur e o alento da noite. Ao perceber o olhar atento da netinha, o poeta Victorino Carriço (1912-2001) antecipava: “estou escrevendo mais um livro”, certamente, um dos três publicados: ‘Mar e Amar’, ‘Vidas Mor- tas’ e ‘Se Voltares’. O aldeense do Baixo Grande, com laços estreitos com Arraial e Cabo Frio, completaria 104 anos na última sexta-feira (29). Mesmo assim, o aniversário é comemorado pelos amantes de seus versos.

– Ele lia muito. Mas só lia autores brasileiros. Os favoritos eram Atalício Fernandes e Olavo Bilac. E não lia só poesia. Lia até gibi, revista infantil, história de faroeste... Tinha uma visão privilegiada. Até na velhice enxergou bem de perto – relembra dona Ercília Carriço, filha do poeta.

A amizade do poeta com o sociológo José Correia data da década de 1980.

– Lembro quando ele falava “mamãe dizia que é melhor andar à toa do que ficar à toa. Quando você anda, acaba vendo pessoas e as coisas, pensa, fica reflexivo... Já ficar à toa entristece e deixa a pessoa depressiva". No dia a dia, tinha sempre uma filosofia de vida. Ele queria ser compositor, mas tinha era vocação de poeta. E digo mais: fez disso um estilo de vida – conta.

No verso do hino de Cabo Frio “Não há forasteiros/ Pois nesta terra todos são iguais”, José sente uma crítica.

– Ele era crítico e sensível. Sabia que ele mesmo, como aldeense, não era tratado igual. Nesse verso, não era o que acontecia, mas sim como ele queria que fosse – palpita-.

Ainda menino, aos 14 anos, compôs o hino do Sagrado Coração de Jesus, colégio onde estudou. Se as letras escorriam pelas veias, as notas caminhavam pelas artérias: Victorino compôs os hinos de Arraial, Cabo Frio e São Pedro. O poeta legou a herança da musicalidade para uma geração de cantores da família Carriço como os instrumentistas Nino e Júnior Carriço, que sabem de cor e salteado as composições do patriarca literário.

Mas o dom estava mesmo nas letras. O interesse precoce lhe deu uma habilidade para retratar qualquer tema nos seus versos. “Meu avô era um con- temporâneo. Vivia na rua e tra- zia a poesia de lá. Tudo que ele via transformava em poema. Se estivesse aqui, no jornal, faria uma poesia sobre a gente escrevendo”, conta a neta Fernanda Carriço, chefe de reportagem da Folha dos Lagos.

Sua obra é carinhosamente administrada pela família. No ano passado, no 103º aniversário, houve a reabertura da ‘Casa da Poesia’, em Arraial do Cabo, onde outrora o poeta morava e hoje é o principal espaço literário da cidade. O centro fica na Praia dos Anjos e abriga o acervo de Victorino.

O poeta foi homenageado com o ‘Concurso de Poesia Victorino Carriço’, realizado em Cabo Frio até 2013. O aldeense também deu nome a ruas, pontes e bibliotecas. No ano passado, ganhou Medalha Tiradentes, maior comenda da Alerj.

Fora da literatura, conseguiu sucesso na política. Victorino se elegeu vereador (à época o mais votado) e se tornou presidente da Câmara de Cabo Frio. O poeta foi o único presidente a renunciar ao cargo. Fora da política, foi gerente de banco, delegado e funcionário da Com- panhia de Álcalis.