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Cultura

​Reunião tumultuada discute galpão do sal em Cabo Frio

​Conselheiros de Patrimônio deixaram data da votação sobre demolição em aberto

07 fevereiro 2019 - 09h47
​Reunião tumultuada discute galpão do sal em Cabo Frio

TOMÁS BAGGIO

Uma reunião tumultuada na noite desta quarta-feira (7), no Solar dos Massa, no Centro, discutiu a possibilidade de demolição da área dos antigos galpões do sal em Cabo Frio. A reunião extraordinária do Conselho Municipal de Patrimônio teve o objetivo de possibilitar apresentações sobre o local, cujo valor histórico está em debate em virtude da solicitação de autorização para demolição feita pelo proprietário do imóvel.

A discussão inicial ocorreu quando o médico Marcelo Paes, que preparou uma apresentação para defender que o imóvel seja preservado, solicitou que a parte interessada na demolição fosse a primeira a falar. Houve discussão entre ele e o arquiteto Manoel Vieira, que representava o proprietário do imóvel no pedido de demolição.

Marcelo acabou falando antes, defendendo a preservação, com Manoel em seguida, expondo os argumentos para a demolição. Ambos foram sucedidos pelo historiador João Cristóvão, que voltou a defender a importância histórica e a preservação do imóvel. 

Ao final do encontro, a presidente do Conselho de Patrimônio, arquiteta Márcia Cabral, informou que a data da votação do parecer, que está entre os dias 11 e 13 deste mês, não seria definida naquele momento. O parecer do Conselho de Patrimônio é consultivo. Portanto, independentemente do parecer, a decisão final é da Prefeitura.

– Estamos aqui buscando os interesses do coletivo, da cidade, da preservação da história. Por isso apresento este projeto para a transformação do local em um museu do sal – disse Marcelo Paes.

Durante sua fala, o arquiteto Manoel Vieira, que foi chefe do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) na Região dos Lagos, mas se desligou do órgão e, atualmente, realiza consultoria para o proprietário do imóvel onde ficam os galpões do sal, buscou demonstrar que o local sofreu alterações ao longo do tempo, o que, de acordo com ele, teria feito com que perdesse seu valor histórico.

– O que existe hoje ali não é, de forma alguma, aquilo que existia no passado. Os galpões que teriam servido para armazenar sal, se é que realimente tiveram essa utilização, não existem mais. Foram muitas alterações. As imagens mostram isso muito bem, elas falam por si mesmo – argumentou, apresentando uma sobreposição de fotos do local ao longo do tempo.

O historiador João Cristóvão, por sua vez, minimizou as alterações na estrutura e afirmou que este, na visão dele, não é o ponto principal. Para ele, o fato de o local ter sido o primeiro porto da cidade garante sua importância histórica.

– Essa história de que imagem fala por si mesmo é um conceito muito ultrapassado. Ela depende de interpretação. O que está em jogo aqui é se vamos permitir que se coloque no chão aquele que é, talvez, o último lugar que se restou para contar a história da cidade. Ali é o cais onde Cabo Frio nasce. É o que resta de patrimônio material que conta a história da cidade, depois de tanta coisa já ter sido destruída – disse ele, sendo interrompido pela arquiteta Cristina Ventura:

– Não são os elementos físicos que contam a história, são os valores culturais.

Após o encontro, a presidente do Conselho de Patrimônio conversou com a reportagem da Folha. Ela garantiu que o Conselho de Patrimônio vem agindo de forma independente.

– É muito importante a participação da sociedade nesta decisão. Hoje tivemos membros de partidos políticos, pessoas da sociedade civil, então foi muito válido. O Conselho é independente. Não está havendo pressão nenhuma. Cada um está tendo bastante liberdade de entender de uma forma. Inclusive essa abertura que estamos dando para as pessoas falarem e participarem é uma forma de ver que o Conselho é isento nessa questão – afirmou.

Foto: Mariana Ricci