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Renascença: com avanço das novas mídias, locadoras de filmes se reinventam para sobreviver

Aposta é em serviços como recarga de celulares e venda de cigarros e guloseimas

29 agosto 2015 - 16h56

Filipe Rangel

Dois passos para dentro de uma das principais bancas de jornal do centro de Cabo Frio e é fácil constatar a revolução que se deu ali nos últimos anos. Antes meros mimos de boca de caixa, doces, cigarros, recargas telefônicas, refrigerantes e suquinhos agora assumem papel de protagonismo dentro do imenso bloco de metal cravado na Praça Porto Rocha. "Parece um pouco uma loja de conveniência, né?!", brinca o proprietário, Fábio Neves, 43 anos. Parece mesmo.

Dentre os 3.000 produtos vendidos no local, 70% são revistas ou jornais. No entanto, eles representam apenas 25% da venda bruta da banca. Os números explicam a mudança de cenário na Banca da Cultura, onde Fábio recebeu a reportagem da Folha para falar sobre o momento de incerteza das locadoras de filmes (ele gerencia a Ler & Ver, a livraria mais antiga da cidade, que também presta o serviço). Os dois trabalhos de Fábio têm muito mais em comum que só a gerência: as duas passaram ou passam por processo de reinvenção.

– As pessoas estão indo menos à locadora. Isto é um fato, como também é um fato que a procura por jornais e revistas nas bancas diminuiu. A banca se adaptou – ele diz, apontando ao redor, para os bonequinhos de Minions e doces, a geladeira de bebidas e a vasta bancada de cigarros, deixando no ar que este é obrigatoriamente o futuro das locadoras.

Como se para comprovar o argumento de Fábio, um cliente entra e pede "uma recarga da Vivo". Imediatamente, uma freguesa se debruça em frente à geladeira e corre os olhos do refrigerante para o suco, e depois de volta. Acaba levando uma Coca. Em quase quarenta minutos de entrevista, nenhum deles comprou uma revista ou um jornal.

Qual é a saída, então, para salvar as locadoras como negócio?

Com a popularização de serviços on demand como o Netflix (que já tem 62 milhões de assinantes no mundo inteiro; 2,2 milhões no Brasil) e os oferecidos por operadoras de TV por assinatura, além da maior facilidade para baixar filmes da internet, as locadoras já estão mudando.

– Na verdade, hoje eu mantenho a locadora para trazer gente para dentro da livraria, porque a procura é muito baixa. Você pode atribuir isso à maior facilidade que as pessoas têm para ver filmes de outras formas, sim, mas acho que também há uma queda no interesse. Eu não vejo mais com tanta frequência as pessoas dizendo: "E aí, o que vamos fazer hoje, vamos pegar um filme para ver em casa?" – analisa Fábio.

A Ler & Ver tem um ‘estoque’ de 2.200 filmes, entre clássicos e lançamentos, que está sendo pouco a pouco liquidado. "Estamos vendendo alguns, precisamos enxugar essa quantidade", conta. O investimento da locadora para adquirir um DVD ou Blu-Ray varia de R$ 45 a 100, e são necessárias cerca de quinze locações para recuperar o dinheiro gasto. Conta cada vez mais difícil de fechar.

– Tem sempre aquela pessoa que não sabe baixar filme, ou tem qualquer dificuldade, e essa pessoa ainda vai à locadora. O mesmo acontece com os livros: comprar pela internet está relacionado a acesso ao cartão de crédito, assim como ver filmes pela internet está ligado ao domínio da tecnologia – diz.

A cinco minutos de caminhada da banca onde Fábio passa a tarde está a Ler & Ver. No primeiro andar, os livros. No segundo, os filmes, que antes ocupavam o piso inteiro, mas agora já dividem o espaço pela metade com produtos infantis. Na seção de livros, pernas se movimentam. Um homem de meia-idade pede pela biografia de Andressa Urach, enquanto uma mulher com aspecto de professora está à procura das obras históricas de Laurentino Gomes. No andar de cima, no entanto, silêncio e vazio, até que uma única alma solitária sobe as escadas e começa a vasculhar o acervo de títulos disponível.

– De vez em quando eu venho alugar um filme, principalmente meio de semana, para assistir à noite com o marido. Não sei baixar filme na internet e nem sei o que é Netflix, sou das antigas, então para mim lugar de filme é ou o cinema ou a locadora – conta a aposentada Shirley Oliveira, 73, com o épico ‘Tróia’ em mãos.

Segundo Yago Costa, atendente da Nippon Videolocadora, que fica a poucos metros dali, esse é o perfil de quem aluga filmes em DVD ou Blu-Ray hoje em dia. "São pessoas mais velhas, quase sempre", ele diz. A empresa em que trabalha, a Nippon, chegou a ter cinco locadoras simultaneamente abertas em Cabo Frio no fim dos anos 2000, mas hoje resiste para manter as duas restantes, mesmo sem concorrência vasta – a maior, a da Rodoviária, será reduzida para um espaço menor em breve.

Para evitar a extinção, a Nippon tentou diversificar os negócios: apostou em aluguel de games, venda de livros e de alguns pequenos produtos relacionados ao universo da ficção representado nos livros e nos filmes da locadora. Não parece ter surtido efeito.

– Entrei na empresa em 2012, e minha rotina de trabalho era definitivamente mais movimentada que é hoje. A queda da procura foi muito, muito grande. É triste, mas eu acho que o futuro das locadoras é acabar mesmo – disse Yago, há três anos no ramo.

Fábio Neves, por sua vez, prefere não fazer esse exercício de futurologia: "No passado, um homem fez a previsão de que o mundo nos anos 2000 teria seis bilhões de pessoas e seriam necessários três bilhões de cavalos para transportá-las. A preocupação dele é para onde iria tanta bosta de cavalo. Ele acertou a premissa, mas o passar do tempo modificou o problema. Pode ser que o futuro mude esse cenário de hoje, que realmente é muito complicado mesmo", refletiu.

Enquanto o tempo não dá razão a Yago ou compensa a esperança de Fábio, os empresários do ramo quebram a cabeça para evitar que, em tão pouco tempo, DVDs e Blu-Rays virem o disco de vinil da nossa geração.