Assine Já
domingo, 28 de novembro de 2021
Região dos Lagos
28ºmax
20ºmin
TEMPO REAL Confirmados: 53491 Óbitos: 2186
Confirmados Óbitos
Araruama 12497 447
Armação dos Búzios 6580 73
Arraial do Cabo 1754 93
Cabo Frio 15408 901
Iguaba Grande 5564 147
São Pedro da Aldeia 7047 290
Saquarema 4641 235
Últimas notícias sobre a COVID-19
Cultura

Nas memórias de Ressi Carriço, o legado do saudoso Tonga

Escritor, poeta, industriário e professor, Ayrton Christovam dos Santos faria 90 anos no último 10 de outubro

16 outubro 2021 - 08h30Por Rodrigo Cabral

Tem dias que a saudade aperta. “Nem fala, nem fala”, repete, com um suspiro, Ressi Carriço dos Santos, 91 anos, ao telefone. É saudade de Ayrton Christovam dos Santos, que Cabo Frio inteiro conhecia como Tonga, mas que Ressi, apenas Ressi, chamava carinhosamente de Tonguinha. São 24 anos sem a presença do marido, que faleceu em 1997. Escritor, poeta, industriário e professor, ele teria feito 90 anos no último 10 de outubro. 

Dono de pena afiada, Tonga fez escola no sentido literal da palavra. Ao lado de Eliziário, pai do ex-jogador Leandro, fundou o Colégio Rui Barbosa, onde também fez parte do corpo docente, lecionando matemática.  Além disso, foi um dos fundadores da Academia de Letras de Cabo Frio e trabalhou na Companhia Nacional de Álcalis durante anos. Naquela época, conta Ressi, Tonga retornava do trabalho na Álcalis por volta das 17h. Era o tempo de encontrar os amigos para um breve café no Hotel Colonial, onde hoje se localiza o Edifício Central. Depois, passava em casa para se ajeitar para a segunda jornada: aula no Rio Barbosa no período da noite. 

Tonga também foi chefe de gabinete do vereador Acyr Rocha. Todos os dias, lia os jornais e fazia uma “varredura” completa nas publicações de atos oficiais na missão de passar um breve e eficaz resumo a Acyr, chamado pelos mais íntimos pelo apelido de Punhal. Com tantos amigos e prestígio, Tonga também chegou a ser candidato a vereador. Na época, no entanto, o voto era impresso, e muitos dos que o conheciam preenchiam a cédula com convicção, mas, num equívoco decisivo, indicavam somente seu apelido: “Tonga”. O correto seria escrever o nome completo do candidato, que poucos conheciam ou ignoravam. Resultado: muitos votos invalidados. 

Quando criança, Tonga precisou ter o braço direito amputado. Foi consequência de um movimento brusco numa brincadeira de pique-pega, ao tentar escapar do puxão de um amigo. No hospital, em Niterói, fez pedido curioso: só deixaria que os médicos o operassem se colocassem uma banda na rua, pois adorava música. A irmã dele, então, foi ao Corpo de Bombeiros, que atendeu o pedido do menino. No mesmo dia, acontecia o enterro do pai de Tonga, João dos Santos, em Cabo Frio. Momentos tristes na história da família.
Mas os capítulos de vida escritos por Tonga foram recheados de alegria. No Tamoyo Esporte Clube, primeiro entrou para a história dentro nas quatro linhas. Com ginga, equilíbrio e habilidade, deixava adversários desnorteados.  Mais tarde, tornou-se por sete anos consecutivos presidente do conselho deliberativo, até que, enfim, chegou à presidência. O dia da posse foi de pura alegria, lembra Ressi.

—Havia pessoas para todos os lados. Ao som da orquestra Violinos Mágicos, todos vibravam junto a ele, pela conquista de um sonho.

Tonga, aos 29 anos, com o filho Ronaldo, com 3, ambos vestindo camisa do Tamoyo Esporte Clube

 

Como escritor, deixou dezenas de obras. Entre elas, os romances “A Canção que ficou”, “A casa da vingança”, “Quatrocentos e três” e “O Diamante azul”. Tudo guardado a sete chaves no acervo de Ressi, que é filha do desportista Nenzinho Carriço e sobrinha do poeta Victorino Carriço. Tonga também era muito amigo de Carriço. Assinou os os prefácios das três obras publicadas por Santinho, como era conhecido o autor do hino de Cabo Frio: “Mar e amar”  (1965), “Vidas mortas” (1967) e “Se voltares” (1970). Em “Mar e amar”, saudou o poeta — 19 anos mais velho do que ele —pela publicação de seu primeiro livro e exaltou a relação de amizade que tinham. “Não pense que vou me colocar na posição de frio e imparcial julgador do seu trabalho. Não. Primeiro, porque a frieza é incompatível com a maneira de eu apreciar as boas coisas feitas pelos meus amigos”, escreveu. 

Casamento de Tonga e Ressi, em setembro de 1956

 

Para Ressi, o dia 29 de setembro de 1956 traz uma das memórias que mais lhe arrancam suspiros. Foi o dia da cerimônia de casamento. Ela guarda com carinho a fotografia do casal no altar. No verso, a mensagem escrita a mão e assinada por ela: “O dia mais feliz da minha vida. Um sonho realizado, com muita luta e amor”. Tiveram quatro filhos: Ronaldo, Maria Isolina, Leila e Renato. Juntos, Tonga e Ressi construíram uma relação de companheirismo e amor. Estavam sempre juntos, nas conquistas, nos bailes no Tamoyo e nas dificuldades. Certa vez, num dos poucos períodos de afastamento, quando Ressi teve de viajar a Brasília, falavam-se por telefone. Ao fim das ligações, a frase de despedida de Tonga vinha com o carinho de quem aguardava ansiosamente pelo reencontro.

— Um beijo para você,só para você eu sou Tonguinha

Descubra por que a Folha dos Lagos escreveu com credibilidade seus 30 anos de história. Assine o jornal e receba nossas edições em casa.

Assine Já*Com a assinatura, você também tem acesso à área restrita no site.