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MEMÓRIA DA CIDADE

Livro reúne múltiplos olhares para a história e patrimônio de Cabo Frio

Cabo Frio Revisitado A memória regional pela trilha do contemporâneo reúne artigos de 20 pesquisadores

17 novembro 2020 - 15h09Por Redação
Livro reúne múltiplos olhares para a história e patrimônio de Cabo Frio

Uma obra lapidada na multiplicidade. Com artigos assinados por 20 pesquisadores, ‘Cabo Frio Revisitado – A memória regional pela trilha do contemporâneo’ trará ao leitor um mosaico sobre história, memória e patrimônio da cidade. Organizado pelo arquiteto Ivo Barreto, o livro está em pré-venda no site da editora Sophia - pagamento em até 12x sem juros. As entregas começam no dia 15 de dezembro. Estão, entre os temas de estudo, o período de escravidão, a pesca tradicional, a Fazenda Campos Novos, o conjunto paisagístico da cidade, a ocupação salineira e a vida e espaço dos primeiros habitantes da região.

Fazem parte da obra, além de Ivo Barreto, os autores Cyl Farney Catarino de Sá, Antônio Carlos Silva Andrade, Viviane Stern da Fonseca Kruel, Dorothy Sue Dunn de Araujo, João Henrique de Oliveira Christovão, Jonatas Carvalho, José Marcello Salles Giffoni, Paulo Sérgio Barreto, Jullia Turrini, Kátia Leite Mansur, Daniel Souza dos Santos, José Carlos Sícoli Seoane, Luiz Guilherme Scaldaferri Moreira, MaDu Gaspar, Gina Bianchini, Maria Cristina Ventura, Nilma Teixeira Accioli, Schneider Franco dos Santos e Walter Luiz Pereira. Gustavo Rocha-Peixoto assina o prefácio e Aline Bonioli Paiva Colonese, carta ao professor.

A capa ganhou ilustração de Ivo Barreto, com design gráfico de design gráfico de Natalia Rossi.

– O livro foi um recorte (pois as pesquisas já são muitas) e está pensado como uma porta de entrada e mergulho no campo da memória, trazendo dados, mas sobretudo apontando caminhos possíveis e conexões às vezes pouco percebidas – diz Ivo, nesta entrevista.

Folha dos Lagos - Como se deu a seleção das pesquisas que compõem o livro?
Ivo Barreto - De certa maneira, as pesquisas que estão encadeadas no livro foram chegando mais pelo encontro do que pela escolha, o que diz muito até sobre o livro em si. A seleção acaba refletindo alguns anos de investigação neste anos de trabalho, de coisas que foram me tocando ou pessoas, e seus trabalhos, com quem topei, e foram tão esclarecedores, em contextos de campo no universo da cidade, da memória e da paisagem. Quando trabalhamos com patrimônio – ou com educação, me parece pouco possível afastar estas duas áreas – é natural que se tente entender o que veio antes, pois é o lastro do que forma o que somos hoje. Nas teorias mais novas do campo da restauração, a chamada Teoria Contemporânea, além da história, estamos na busca também do que passa necessariamente pelo olhar do outro. E o que eu percebia era que, embora muitas vezes pouco conhecidos do público em geral, as pesquisas nas universidades (e hoje temos algumas aqui mesmo na região) vêm iluminando caminhos esquecidos, que conectados podem expandir muito o entendimento de nós mesmo enquanto sujeitos deste espaço, do que vem a ser Região dos Lagos. O livro, então, foi um recorte (pois as pesquisas já são muitas) e está pensado como uma porta de entrada e mergulho no campo da memória, trazendo dados, mas sobretudo apontando caminhos possíveis e conexões às vezes pouco percebidas. 

Folha - Como foi o processo de escolha dos temas? De que maneira compõem um quadro importante sobre o patrimônio da cidade?
Ivo - O primeiro passo foi falar tentar escapar dos limites administrativos do que hoje é o município, que acaba segmentando este entendimento de memória, a relação é com o antigo Cabo Frio, e tem na Lagoa de Araruama e suas bordas o apoio. A memória caminha por outros limites que não são administrativos, conecta-se à relação dos sujeitos com o espaço, onde aspectos comuns, quando reconhecidos coletivamente, constroem as chamadas Referências Culturais. E como a natureza humana é variada, as naturezas destas referências também são, o que pedia abordar aspectos amplos neste recorte, desde os condicionantes ecológicos desta relação, passando pelos ciclos de transformação do território (as primeiras populações a habitar o espaço, a pesca, o sal, as cidades, o trem, o rodoviarismo, a industrialização das nossas cidades, o turismo, e por aí vai), até os debates de construção da ideia de paisagem. No conjunto, o bacana é que da leitura integral dos capítulos fica um panorama interessante do que vem sendo resgatado e até mesmo eventualmente daquilo que ainda não foi observado no campo da memória, aguçando o olhar do leitor para seu próprio universo de valores, para o que é memória para cada um.

Folha - Na sua introdução, você fala sobre a importância de se subverter uma velada hierarquia de importância dos patrimônios nacional, regional e local. De que maneira a publicação contribui para esse objetivo?
Ivo – Olha, acho que dá um apoio bem legal. O amigo e professor da FAU/UFRJ, Gustavo Rocha-Peixoto, no delicioso prefácio que fez para o livro, diz algo que me parece ser bem central na construção desse projeto, mas também nessa ruptura hierárquica que me parece já quase fora de moda (risos). Ele diz que a única maneira de construir uma memória regional é postular para ela uma centralidade, mas sem negar o Mundo. E acho que isso fica bem claro no projeto: a atenção é ao regional, este é o compromisso de quem pesquisa sobre determinado lugar, e a grande beleza da coisa está em reconhecer como este universo toca o giro do tempo mundo a fora, coisa que todos os autores vão fazendo. Falar de memória regional não é em nada menor ou menos importante que as grandes narrativas centralizadas, pelo contrário, é reconhecer aqui que nossa maior unidade global é a diversidade que nos une e distingue ao mesmo tempo.

Folha - Cabo Frio tem riquíssimo patrimônio imaterial e material. Conte um pouco o privilégio que é trabalhar com essa matéria prima abundante para o pesquisador... E, também, a importância de levar as informações ao conhecimento da comunidade.
Ivo - Sim, é bem rico mesmo. O que os textos vão revelando é imensamente cativante e fica impossível não se reconhecer no caminho da leitura. Uma das imagens que se forma no conjunto dos textos é que nem sempre na história “acerta a mão”, ora a interação do homem na paisagem da muito certo, outras nem tanto, e tantas vezes estas variáveis vem do mesmo processo. E o que fica disto? Onde e quais são os aspectos sobre os quais nos reconhecemos? Os textos revelam a articulação da pesquisa com arquivos e trabalhos de campo na busca deste entendimento, mas não respondem objetivamente isso, pois esta é a questão que deixamos para a escolha do leitor, fazendo deste processo um diálogo, como se deseja da educação. A partir do que se terá acesso em cada um dos textos, o leitor terá mais apoios pra buscar aquilo que lhe contempla enquanto sujeito, olhando para sua própria realidade depois disso, pra seguir construindo esta história de maneira ativa, tendo a memória como alimento e ferramenta. 

Folha - Quais foram os critérios adotados na organização e sequência dos textos?
Ivo - Embora sejamos ali 14 textos, cada qual com autores diferentes, o encadeamento respeita uma certa hierarquia cronológica, mas com limites sobrepostos e não radicais. A ideia era que, embora possa ser lido isoladamente, um texto (ou o acúmulo da leitura sequencial de vários) passasse o bastão ao seguinte, saturando cada vez mais o olhar. Então optamos partir de temas que fossem seminais e transversais, que possibilitassem entender a origem e costurar as transformações da região. Partimos então de aspectos como a formação geobiológica da paisagem; o tempo dos sambaquis; para depois passar pelos os espaços de produção rural e suas heranças, a longa trajetória, tradicional e industrial, da atividade salineira ou a relativamente curta (mas importantíssima) passagem da estrada de ferro; as decorrências do lamentável tráfico de africanos escravizados nos portos da região após parte das proibições atlânticas do século XIX ou o mesmo o singular (e tão ignorado) papel e contexto dos índios aldeados em meio a este processo. Após desenhar este quadro, entramos no campo da construção da ideia de memória, navegando pelos olhares diversos que o campo já oferece, com textos que exploram menos a separação e mais a conexão dos aspectos naturais, materiais e imateriais, suas especificidades e diálogos. É quando abordamos a construção conceitual do Conjunto Paisagístico de Cabo Frio, da Casa Atelier de Carlos Scliar, da pesca tradicional do Arraial e seu importantes “cantos de praia” e da multifacetada obra de Bié de Vinuto e do pós abolição, a impressionante e tocante Casa da Flor.

Folha - Que tipos de descobertas importantes o leitor poderá fazer com o livro?
Ivo - Acho que são muitas e pra todo gosto. Ao morador da cidade ou para aquele que com ela convive há anos, é uma oportunidade de uma viagem pelo tempo da paisagem e do homem nestas bordas da laguna da Araruama, na companhia narrativa de textos deliciosos, comprometidos com o rigor científico, mas extremamente acessíveis, textos que pedem um café longo e alguns dedos de prosa depois. Ao professor e ao aluno, cada bibliografia indicada ou citação é um caminho de ampliação dos assuntos tratados. Aliás, este foi um pedido que fiz, a organização da obra, a cada colega convidado e que também empreguei nos meus textos, deixar a trilha clara, abrir janelas pra quem vem somar depois, ajudar ver o caminho seguir na construção. Como diria meu conterrâneo das beiradas do Rio Doce, o sempre preciso Ailton Krenak, quando perguntado recentemente se para nossa confusa contemporaneidade, ele via luz no fim do túnel, a resposta rápida não podia ser melhor: não acredito em túnel (risos)! Pois é isso, estou com ele. A descoberta maior talvez seja o fato de nossa memória não ser linear, pede diversidade, se constitui em rede e está sempre em transformação bem ali do nosso lado, em laços de afeto ao alcance das mãos.

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