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Knausgård: "uma das coisas que mais detesto é a crítica moralista"

Em passagem pela Flip, escritor norueguês falou à Folha sobre identidade, memória e masculinidade

03 julho 2016 - 09h29Por Filipe Rangel
Knausgård: "uma das coisas que mais detesto é a crítica moralista"

O norueguês tornou-se fenômeno mundial com sua série “Minha Luta”, em que remonta sua vida ao longo de seis longos volumes. Vendeu 500.000 livros apenas na Noruega, que tem cerca de 5 milhões de habitantes. Está no Brasil lançando o quarto livro da série: “Uma Temporada no Es­curo”, um dos mais vendidos da livraria oficial da Flip. A Folha teve uma breve conversa com Knaus­gard durante coletiva, na tarde de quinta.

Folha: Como é o processo de reconstruir me­mórias da infância, a partir dos quarenta anos, e chegar aos fatos exatos? É bastante difícil de lembrar, não?

Knausgard – Eu parti da premissa, ao escre­ver esses livros, que tudo deveria ter sido verda­deiro, que eu não inventaria nada. Tudo seria através da memória, mas não dos fatos exatos e sim de como eu interpretaria essas me­mórias. Algumas coisas podem ter sido diferentes, claro. Eu não posso lembrar de tudo que aconteceu em 1976, mas eu lembro de 1976, como eram os carros, as roupas, o que as pessoas faziam. Então eu considero o que eu faço como uma não ficção romanceada.

Folha: E o que esses li­vros buscam relatar, além da sua vida, é claro?

Knausgard – Meu principal interesse é sobre identidade: nacional, pessoal, sexual, tanto faz. Eu me interesso na imagem que nós fazemos de nós mesmos. Os livros me permitem ir além da narrativa pessoal e construir identidades que estão ligadas a outras coisas, a grupos maiores. Esses dois níveis diferentes estão às vezes de acordo, às vezes em confronto, mas no fim das contas o livro quase sempre amassa a nossa identidade pessoal.

Folha: Você vivia em um país onde a noção de politicamente correto é muito forte, a Suécia. E ao mesmo tempo, você se descreve como uma criança efeminada porque gostava de roupas bonitas e de colher flores para o seu pai. Como um homem adulto que questiona seu papel de ho­mem por estar empurrando um carrinho de bebê, coisas que atribuem a mulheres e homens certos valores pré-determinados e em alguns lugares, como a Suécia, são consideradas sexismo. Acredito que te perguntem mui­to sobre o limite entre realidade e ficção, mas a minha pergunta é sobre onde ficam os limites que a sociedade tem para as palavras e onde esses limites residem na literatura.

Knausgard – Uma das coisas que mais detesto é a crítica moralista. A literatura para mim é sobre ser livre, é sobre pensar questões tão fundamentais e primárias para o homem, como o modo como se ele vê enquanto homem, de forma livre, sem amarras morais, que podem viver na sociedade, sim, mas na literatura não. Eu me descrevo como uma criança e um adolescente que têm hábitos e gostos considerados femininos no contexto em que cresci: a Noruega rural dos anos 70. Anos depois, já vivendo em uma metrópole sueca, é natural que haja esse questionamento sobre a minha identidade enquanto homem. É como as coisas são. E é sobre isso que escrevo. Não deve haver esse tipo de limites na literatura.